• João Ferreira

Comentário
A luta de Margarita continua!
Manágua, Nicarágua. Uma missão católica nos arredores da cidade acolhia os dez camponeses hondurenhos evadidos dias antes do país. Os responsáveis pela missão, dizem-me, são próximos da teologia da libertação. Éramos doze à volta da mesa, ainda vazia. De forma metódica, o responsável pelo grupo, Rafael, começa por enquadrar o golpe de Estado na evolução social e política vivida nos últimos anos no país.
Margarita mantinha um vazio sereno e angustiante no olhar. Como os demais companheiros, escutava Rafael em silêncio, que quebrava pontualmente para acrescentar um ou outro pormenor e responder a alguma dúvida. No modo, a mesma urgência incontida com que, horas antes, com um caderno e uma caneta na mão (que manuseava com o desconforto que lhe vinha de não serem estes seus instrumentos habituais de trabalho), nos tinha dado conta da repressão que marcava os dias nas Honduras. Referiu, situando-as com precisão no tempo e no espaço, cargas militares e policiais, desaparecimentos, assassinatos.
Nas últimas semanas, o povo de San Pedro Sula, a segunda cidade do país, e os camponeses das províncias circundantes haviam dado um vigoroso impulso à resistência, unindo-se na luta aos milhares que há mais de um mês vinham desfilando diariamente pelas ruas da capital. A repressão do governo golpista não se fez esperar. Abateu-se, implacável, sobre estes camponeses e as marchas que vinham organizando. Estradas foram cortadas e populações isoladas pelos militares.
Margarita e os seus companheiros saltaram a fronteira. No rosto e nas mãos, as marcas da terra que há muito trabalham, sob o sol que lhes escureceu a pele. Terra expropriada pelas multinacionais do agronegócio às populações indígenas, seus antepassados, dos quais alguns deles conservam traços visíveis.
A conversa avança… Os milhões de compatriotas em situação de extrema pobreza, não obstante as riquezas naturais do país; os avanços na redistribuição da riqueza durante o mandato de Zelaya; as carências nos domínios da saúde e da educação e a esperança que se abriu nos últimos anos, com os programas da ALBA de promoção dos cuidados de saúde e de erradicação do analfabetismo; os limites impostos ao processo de transformação social em curso pelos alicerces constitucionais de um Estado caduco, ao serviço das classes dominantes do país e dos seus aliados estrangeiros; a necessidade de acorrer a esses alicerces, estabelecendo as bases de um país novo… Na referência à nova constituição, que consagrasse e aprofundasse as transformações iniciadas anos antes, a urgência que Margarita transporta nas palavras e nos gestos agita-se novamente, iluminando, pela primeira vez, o olhar triste e vazio.
A noite cai e, para alívio da fome de horas sem comer, partilhamos à mesa a habitual ceia campesina: feijão com arroz. Já na rua, no pátio fronteiro à missão, o grupo dispersa-se. Margarita senta-se sozinha, no chão, mais afastada, cabeça baixa. É então que os companheiros falam, com admiração, da força daquela mulher. O filho de 20 anos e o marido haviam desaparecido há uma semana, na sequência de confrontos com os militares. Temiam que o marido pudesse ter sido assassinado, mas tinham esperanças de que o filho pudesse ainda estar vivo. Margarita, nas conversas que tivemos, por nenhuma vez se referiu aos dois. Falava sempre nos “companheiros”…
Tegucigalpa, Honduras. Da janela do moderno edifício-sede do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento avistam-se os bairros de lata que se estendem pelos morros da capital hondurenha. Rebeca Arias, directora do PNUD no país, teima em evitar a expressão «golpe de Estado», preferindo referir-se a uma «súbita alteração da normalidade democrática». Reconhece a violência «indesejável» que percorre o país e que quase se avista da janela do seu 12.º andar, mas sempre vai dizendo ser cedo para garantir a inexistência de condições para a realização de eleições dali por uns meses…
Janeiro de 2010. Decorreram seis meses desde os encontros em Manágua e em Tegucigalpa. Em Bruxelas, a recém designada Alta Representante para a Política Externa da UE, na sequência da tomada de posse do golpista Pepe Lobo, afirma esperar que esta seja um contributo para o regresso do país à normalidade e para a sua re-integração na «comunidade internacional». Das Honduras continuam a chegar notícias de detenções, desaparecimentos e assassinatos de membros da Resistência Contra o Golpe de Estado…
A solidariedade com o povo hondurenho é mais necessária do que nunca. A luta de Margarita continua!


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