NATO quer impor a globalização da política militarista e belicista
Onze anos depois do ataque à Jugoslávia
NATO é uma ameaça à paz mundial
Lisboa acolhe em Novembro a cimeira da Aliança Atlântica onde vai ser formalmente adoptado o novo conceito estratégico da NATO. A iniciativa ocorre 11 anos depois do ataque à Jugoslávia, uma agressão apresentada ao mundo como «humanitária» mas que assinalou de facto o início de uma nova etapa do papel da NATO enquanto instrumento de guerra à escala global. A escolha da capital portuguesa para sede da cimeira confirma o persistente e crescente envolvimento do País na política belicista da NATO, contrariando os princípios consagrados na Constituição da República Portuguesa e na Carta das Nações Unidas. É pois a hora de todos os que almejam a paz e a segurança internacional se juntarem à campanha «Paz sim! NATO não!».
O bárbaro ataque à Jugoslávia – que em 78 dias provocou cerca de 4000 mortos, na maioria civis, e mais de 10 000 feridos – está ainda vivo na memória de muitos, mas uma década de silêncio sobre o hediondo crime e suas consequências exige a mobilização de esforços na batalha do esclarecimento para que os portugueses, e em particular as novas gerações, saibam o que em Novembro vai estar verdadeiramente em causa na cimeira da NATO. Com esse objectivo, a campanha «Paz sim! NATO não!» esteve no sábado, 27, na rua do Carmo, em Lisboa, para lembrar a «humanitária» agressão à Jugoslávia e denunciar os planos de guerra que se preparam para o futuro. Rui Namorado Rosa, do Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC); Regina Marques, do Movimento Democrático de Mulheres (MDM); Cláudia Madeira, do Partido Ecologista «Os Verdes»; Tiago Vieira, da Federação Mundial da Juventude Democrática (FMDJ) e Carlos Carvalho, da CGTP-IN, foram na circunstância as vozes a agitar consciências. O representante do CPPC lembrou as bombas de urânio empobrecido (DU) e as bombas de fragmentação lançadas sobre as populações, que ainda hoje continuam a fazer vítimas, o desmembramento da Jugoslávia, a formação de colonatos sob controlo da NATO – como é o caso do Kosovo, onde reina o crime organizado e está instalada uma das maiores bases militares dos EUA no mundo, a base de Camp Bondsteel –, e a intensa campanha de mentiras com que se tentou levar a opinião pública mundial não só a aceitar a destruição de um país mas também a tomar como legítimas as futuras intervenções, como no caso do Iraque e do Afeganistão. Crimes contra a humanidade O que a propaganda da NATO nunca disse, nem reconheceu até hoje, foi que 31 300 bombas de urânio empobrecido foram lançadas em 1999 sobre o Kosovo, Sérvia e Montenegro (David Randall in http://globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=16442), e que um trabalho de campo levado a cabo pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP) um ano depois e divulgado em Março de 2001 concluiu, por bombas recuperadas, que algumas tinham sido produzidas com urânio reciclado (ou seja, com urânio que tinha passado por um reactor nuclear) e estavam contaminadas com plutónio; ou ainda que o estudo encontrou pontos localizados de contaminação concentrada apresentando níveis de U-238 dez mil vezes mais altos do que os níveis normais do ambiente. A propaganda da NATO também esconde as causas do chamado «síndroma do Balcãs» surgido em soldados deslocados na região e nas populações civis, idêntico ao «síndroma da Guerra do Golfo», com elevados níveis de leucemia, doenças do sistema respiratório e do sistema imunitário. Nem a morte de 27 soldados italianos, em meados de 2004, com sintomas que se pensa estarem relacionados com a exposição ao DU, nem o facto de um tribunal de Roma ter ordenado ao Ministério da Defesa italiano que indemnizasse a família do soldado Stefano Melone, vítima de um tumor vascular maligno provocado, segundo o tribunal, pela «exposição a substâncias radioactivas e cancerígenas» em missões nos Balcãs, levaram a NATO a reconhecer as suas responsabilidades. A versão oficial é a de que «não há provas» dos malefícios de armas que a própria legislação dos EUA classifica como «armas de destruição maciça». A escalada da guerra Enquanto as armas sujas continuam a matar para além das próprias guerras – seja o «síndrome dos Balcãs» ou o «síndrome do Iraque», seja o aumento de abortos e de mal-formações de nascituros, de determinado tipo de doenças ou da mortalidade infantil – a NATO propõe-se rever o seu conceito estratégico para alargar ainda mais a sua área de intervenção e os pretextos para agredir os que não se submetem aos seus ditames. O que se pretende é a globalização da política militarista e belicista dos verdadeiros senhores da guerra, que não vivem em buracos nas montanhas nem declamam versículos religiosos. E como se isso fosse pouco ainda pretendem, como denunciou Regina Marques na sessão pública de sábado, envolver todos os sectores da sociedade nos seus projectos de agressão. As mulheres estão na mira da NATO, lembrou a representante do MDM, a pretexto de que a sua intervenção será decisiva para «proteger as mulheres nos palcos de guerra» que eles próprios promovem. É a hipocrisia em todo o seu esplendor. As novas roupagens com que a Aliança Atlântica se quer apresentar não faz esquecer, como bem referiu Cláudia Madeira, a conivência com a ditadura fascista, nem, como disse Tiago Vieira, a promoção do ódio e do racismo no mundo a pretexto da segurança e dos «valores» ocidentais. Para estes «assassinos natos que formam a NATO», como lhes chamou o jovem da FMJD só pode haver uma resposta: estar na luta pela paz e nem um passo atrás! Também Carlos Carvalho, da CGTP-IN, insistiu na necessidade de conjugar esforços na defesa da paz no mundo, tanto mais necessária quanto é hoje evidente que o «infame ataque à Jugoslávia, que Portugal apoiou, foi o primeiro passo na revisão do conceito estratégico da NATO», que se resume em «legitimar» o direito de o imperialismo intervir onde e quando entender. Onze anos depois da «guerra humanitária», a Jugoslávia já não existe e o Kosovo é uma base militar, um prostíbulo e um antro do crime organizado. E os sucessivos governos portugueses foram coniventes com este crime, persistindo na sua política com o envio, como sucedeu ainda na semana passada, de mais um contingente de 194 soldados pára-quedistas para o Kosovo. É tempo de dizer Basta! Anabela Fino


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