Quarto pacote de austeridade gera vaga de indignação
Gregos rejeitam austeridade
Limite ultrapassado

Os trabalhadores gregos estiveram ontem, quarta-feira, 5, em greve geral contra as medidas draconianas do governo, decidido a reduzir à pobreza amplas camadas da população para salvação do capital.

A nova paralisação convocada, dia 27, pelos sindicatos maioritários GSEE e ADEDY, do sector privado e do público, respectivamente, uma semana depois da greve geral de 48 horas, promovida, dias 21 e 22, pela Frente Militante de Trabalhadores (PAME).

Recorde-se que a central GSEE manteve-se à margem desta jornada de dois dias, enquanto a ADEDY se limitou a um dia de greve. Porém, a pressão dos trabalhadores atingidos com cada vez maior violência pelos sucessivos pacotes de austeridade, a total ineficácia dos apelos conciliatórios das direcções sindicais próximas do partido no poder e o crescente descrédito a que são votadas pelas massas têm forçado uma radicalização do discurso e imposto posições mais contundentes de condenação das políticas do executivo de Papandreu.

Directamente visada pelos cortes orçamentais, a federação dos funcionários públicos ADEDY tem demonstrado uma combatividade maior em relação à sua homóloga do sector privado.

Em comunicado, a federação sublinhou que as mais recentes medidas de austeridade (ver caixa) traduzem-se «numa redução do rendimento dos funcionários públicos e dos reformados que chega aos 35 por cento», o que «conduz ao empobrecimento da sociedade» e «torna os ricos mais ricos e os pobres mais pobres».

Também a GSEE qualificou o novo pacote anti-social como as medidas «mais injustas e mais duras da história moderna da Grécia».

Disposição de luta

Desde o início do ano, o sector do Estado já foi abalado por quatro greves a que somou a de ontem. Quase diariamente os funcionários públicos têm realizado manifestações de protesto. Dia 27, os transportes públicos (ligações fluviais inter-ilhas incluídas) voltaram a paralisar durante seis horas.

Frente ao Parlamento, os protestos sucedem-se a um ritmo nunca antes visto. Na segunda-feira, 3, os trabalhadores dos municípios suspenderam o trabalho para se manifestar contra a redução do número de órgãos e entidades do poder local (de 130 para 340), medida anunciada na véspera que se insere no objectivo de eliminar 200 mil empregos na administração pública. O protesto incluiu uma concentração de camiões do lixo defronte ao parlamento do país.

No mesmo dia, os professores universitários e de colégios privados cumpriram uma greve de quatro horas. A administração pública entrou em greve logo na terça-feira, 4, prosseguindo a paralisação, ontem, em convergência com os trabalhadores do privado.

Crise aprofunda-se

A intensificação da luta de massas e a generalização do descontentamento reflecte-se de forma igualmente expressiva nas últimas sondagens. Cerca de 68 por cento da população grega não estão dispostos a aceitar os «sacrifícios» e 70 por cento estão contra a intervenção no país do FMI.

Em queda acentuada está também a popularidade do PASOK (31 por cento), o que resulta não só das medidas antipopulares como também do contínuo agravamento da situação no país.

De facto, desde que o governo «socialista» entrou em funções, o desemprego não parou de aumentar, elevando-se para 12 por cento, segundo os números oficiais, embora na realidade possa estar já perto dos 20 por cento.

Acresce que as duras medidas de austeridade não garantem qualquer recuperação económica a curto ou médio prazo. Muito pelo contrário, a redução da despesa pública afundará ainda mais a economia do país. Os cálculos oficiais apontam para uma diminuição do Produto Interno Bruto de quatro por cento este ano. A destruição das forças produtivas continuará em 2011, com uma redução do PIB de mais 2,6 por cento.

Sacrifícios intoleráveis
para os trabalhadores

O quarto pacote de austeridade anunciado, no domingo, 2, pelo primeiro-ministro, Yorgos Papandreu, trouxe medidas ainda mais gravosas para os trabalhadores.

Aos funcionários públicos, o governo «socialista» decidiu retirar o 13.º e 14.º meses de salário. Em troca atribuiu-lhe um subsídio único de mil euros para os vencimentos mais baixos.

Ao mesmo tempo, todas as prestações sociais, atribuídas nos últimos anos em substituição de verdadeiras actualizações salariais, serão reduzidas em mais oito por cento depois de já terem sido cortadas, em Março, em 12 por cento. Para os salários mais elevados estes subsídios pura e simplesmente desaparecerão.

Propondo-se aplicar uma redução de 16 por cento da massa salarial na administração pública, o governo grego pretende ainda impor o congelamento das remunerações durante três anos.

Medidas semelhantes são aplicadas também aos pensionistas, que perderão o 13.º e 14.º meses, sendo atribuído um pagamento único de 800 euros para as prestações mais baixas. Por outro lado, a idade da reforma será aumentada e o período de contribuições passará dos actuais 37 anos para 40.

Os orçamentos familiares serão ainda mais estrangulados com o novo agravamento dos impostos. O IVA, que já tinha aumentado em Março de 19 para 21 por cento, sobe agora para 23 por cento. A taxa fiscal sobre o tabaco, álcool e combustíveis sofre novo aumento de dez por cento.

A crise é igualmente pretexto para um ataque inaudito aos direitos laborais. O governo afirma que para tornar a economia competitiva é preciso liberalizar os despedimentos (até aqui as empresas não podiam despedir mais do que dois por cento do efectivo num mês) e diminuir as indemnizações aos trabalhadores. Será ainda criado um salário mínimo para jovens, inferior ao existente, e para desempregados de longa duração.

Mas provando que a crise não é para todos, o pacote do governo prevê uma injecção de 17 mil milhões de euros na banca. Em simultâneo, dos 110 mil milhões de euros pedidos à UE e ao FMI, 10 mil milhões serão destinados à constituição de um «fundo de estabilização» dos bancos.

Outros negócios chorudos foram igualmente salvaguardados. Por exemplo, as medidas de contenção, segundo revelou o ministro da Defesa, Evangelos Venizelos, não irão afectar a compra de armas, designadamente de submarinos alemães e fragatas gregas no valor de 4500 milhões de dólares. Sublinhe-se que o orçamento militar da Grécia representa 4,8 por cento do PIB.

Comunistas ocupam Acrópole

Duas centenas de militantes comunistas ocuparam, na manhã de terça-feira, 4, a Acrópole de Atenas, em protesto contra as medidas de austeridade impostas pelo governo. Numa enorme faixa colocada sob o rochedo, onde se encontra o famoso monumento da antiguidade, lia-se: «Povos da Europa, Levantai-vos».

A acção foi realizada cedo pela manhã, quando o recinto ainda estava fechado ao público, e marcou o primeiro dia da greve de 48 horas na Administração Pública.



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