«Chegou o momento de o povo tomar a palavra»
Comunistas realizam manifestação histórica em Atenas
Maré vermelha

Os comunistas gregos realizaram no sábado, 15, em Atenas, uma das maiores manifestações de que há memória no país nos últimos anos. Mais de 100 mil pessoas exprimiram a sua determinação de resistir à ofensiva do capital.

De todos os pontos do país, chegaram a Atenas para protestar contra as duras medidas de austeridade, contra o corte dos salários e das pensões, contra o aumento de impostos e a redução dos direitos sociais, e para afirmar que existe uma solução – o poder popular e o socialismo.

Desfilaram durante mais de uma hora até alcançarem a ampla praça onde teve lugar o comício, inundando as ruas da capital com um oceano de bandeiras vermelhas, entoando palavras de ordem que apelavam à unidade e à luta: «Vem connosco, há uma solução», «O vencedor tem de ser o povo, não os monopólios, «Organização, aliança, poder popular».

A convicção de que «existe uma solução, existe uma saída, chegou o momento de o povo tomar a palavra» – lema desta grandiosa jornada nacional – seria reafirmada pouco depois pela secretária-geral do KKE, Aleka Papariga, que esteve acompanhada no pequeno palco montado na praça por representantes de vários partidos comunistas que ali manifestaram a sua solidariedade aos comunistas e trabalhadores gregos.

Entre estes convidados estrangeiros esteve Ângelo Alves, da Comissão Política do PCP (ver caixa), Erhan Nalchagi, membro do Bureau Político do Partido Comunista da Turquia, Astor Garcia, membro do Comité Executivo do Partido Comunista dos Povos de Espanha e David Para, representante do Conselho Nacional do Partido dos Trabalhadores da Bélgica.


Uma luta pelo futuro


«O governo mente vergonhosamente quando diz que as medidas serão mantidas durante três ou no máximo quatro anos», acusou Papariga avisando que, «mesmo que a Grécia pudesse sair a breve prazo do ciclo da crise, as coisas não melhorariam para o povo».

E respondendo às crescentes pressões contra os comunistas por parte do governo, que procura limitar a sua acção exigindo «respeito e obediência à Constituição», a dirigente esclareceu: «Declaramos mais uma vez claramente a nossa firme orientação desde 1918: lutar a qualquer custo não apenas pela resolução dos problemas quotidianos do povo, mas também para convencer o povo de que o seu futuro é o socialismo e o comunismo».

Lembrando que todos os governos burgueses violam normas fundamentais das suas próprias constituições, Papariga frisou que «a Constituição é um resultado da correlação de forças em cada período. Quando a situação tende para a reacção, a Constituição muda para pior. Quando a correlação de forças tende a alterar-se a favor do povo, então pode ser melhorada e tornar-se menos escandalosa; e quando o povo vencer, fará a sua própria Constituição».

E mais adiante: «Hoje não é suficiente que o povo elabore uma lista de exigências, petições e pedidos. As reivindicações, os objectivos da luta, as propostas concretas devem demonstrar a possibilidade de resolver os problemas do povo. No entanto, só poderão ganhar dinâmica e ser efectivos se fizerem parte da estratégia da luta pelo derrubamento dos monopólios, da luta pelo poder e por uma economia do povo, se estiverem ligados a uma aliança e à luta comum com o KKE», convergência que segundo se sublinha no documento não implica necessariamente total acordo com a concepção do KKE do socialismo e do comunismo.

Todavia, os comunistas gregos insistem em que «há condições objectivas que possibilitam uma organização diferente da sociedade caracterizada pela decisão do povo de transformar a propriedade dos monopólios em propriedade social.»Legenda: Vários sectores da sociedade grega convergem na necessidade de lutar por uma sociedade que socialize os monopólios


Por uma frente popular e social


Dias antes da gigantesca manifestação em Atenas, a secretária-geral do KKE, Aleka Papariga, apresentou ao povo grego as propostas do partido para sair da crise.

No documento, os comunistas consideram que chegou o momento para a formação de uma «frente popular e social» para a acção política de massas, que tome uma forma diferente e permita «multiplicar as forças militantes».

«As premissas de uma tal frente existem hoje como o demonstram a Frente Militante dos Trabalhadores (PAME) , o Movimento Grego Antimonopolista dos trabalhadores independentes e dos pequenos comerciantes (PASEVE), o Movimento Militante dos Camponeses (PASY), a Frente Militante dos Estudantes (MAS) e outras forças do movimento social. Outras formações emergirão ao longo do caminho.»

Esta frente deverá «reforçar a proposta alternativa de um poder e uma economia do povo, tendo como palavra de ordem central a socialização dos monopólios, a formação de cooperativas populares em sectores onde a socialização não é possível, a planificação nacional sob controlo do povo e dos trabalhadores a partir da base».

O KKE considera que uma retoma da economia será sempre fraca e que tal não evitará uma nova crise cíclica ainda mais intensa do que a actual. Isto porque «a gestão da crise, seja pela UE seja pelo FMI, não pode superar as contradições da produção capitalista cuja finalidade e motor é o lucro. Tudo o que é apresentado como um meio de resolver um problema, por exemplo a dívida da Grécia, pode exacerbar fortemente outros problemas.»

Sobre a dívida da Grécia, o KKE sublinha que se trata de uma «grande farsa», já que a sua causa não é como se afirma um problema de má gestão, mas «o resultado de um declínio progressivo de longo prazo da produção industrial e agrícola, com o aprofundamento das contradições ao nível da UE e ao nível internacional».

Neste quadro de aprofundamento da crise geral do capitalismo, o KKE defende a ruptura com o sistema, considerando que o país «tem as condições prévias para constituir e desenvolver uma economia popular autónoma».

«Não há senão uma única escolha: uma mudança nas relações sociais de propriedade historicamente ultrapassadas, que determinam igualmente o sistema político.» (…) «Temos desenvolvido posições e reivindicações para cada problema e questões isoladas que têm surgido. Contudo, doravante isto não é suficiente. Uma proposta alternativa de progresso é necessária para que a luta tenha uma finalidade, um objectivo, um sentido e finalmente possa exercer pressões suplementares em todas as suas fases.»25 linhas


Um abraço solidário


«Recebam um forte e caloroso abraço de Portugal, dos trabalhadores e do povo português em luta. Um abraço amigo e solidário dos comunistas portugueses e do seu Partido – o Partido Comunista Português», disse Ângelo Alves, membro da Comissão Política do PCP, que participou no comício em Atenas a convite do Partido Comunista da Grécia.

Este abraço, prosseguiu o dirigente do PCP, é «todos os dias forjado na partilha do objectivo de trilhar, por via da luta, os caminhos da real alternativa de fundo ao capitalismo e à sua crise que se aprofunda – o socialismo.»

«A todos vós queremos deixar uma mensagem de estímulo e de confiança. Queremos dizer-vos que não estão sós na vossa luta. Em Portugal – confrontados com os mesmos ataques, as mesmas chantagens, as mesmas mentiras – existe também um povo e um Partido Comunista que, lado a lado com as massas trabalhadoras e populares, com o movimento sindical de classe, defendendo as conquistas da Revolução libertadora de Abril, não se verga e não desiste de lutar.» Em Portugal existe um Partido e um povo trabalhador que, apesar da distância geográfica que nos separa, está do vosso lado na luta de classes». (…)

«Aqui estamos ao vosso lado afirmando que existe uma saída. E que é por essa saída, construída pelo povo, para o povo e com o povo que os comunistas estão dispostos a fazer sacrifícios e a lutar. E sempre com uma imensa alegria, por mais difícil, longa e exigente que seja a luta de emancipação dos trabalhadores e dos povos!».



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