Entrevista com Jerónimo de Sousa, Secretário-geral do PCP
«Temos que lutar o tempo que for preciso»

 

Num momento em que o País atravessa uma situação como não há memória – marcada por uma ofensiva sem precedentes do grande capital, por intermédio do PS e do PSD, contra os direitos e as condições de vida dos trabalhadores e do povo e, ao mesmo tempo, por uma intensa luta que cresce e se intensifica –, Jerónimo de Sousa referiu ao Avante! que a manifestação de sábado, que considerou um marco na história do movimento operário e sindical, terá necessariamente de ter continuidade. E reafirmou a determinação dos comunistas em persistir no combate pela ruptura e pela mudança, demore o tempo que demorar.

Avante! – Comecemos pelas «medidas de austeridade»... Uns consideram-nas «inevitáveis» e falam de «sacrifícios repartidos», ao passo que o PCP refere-se a «roubo nos salários» e ao favorecimento dos grandes grupos económicos. Queres explicar melhor esta diferença?

 

As chamadas «inevitabilidades» e a chamada «repartição dos sacrifícios» são um embuste. Elas visam conduzir os trabalhadores à resignação e à abdicação da luta e branquear as responsabilidades da política de direita, bem como do capital financeiro, na crise.

Quanto aos sacrifícios «repartidos», exige-se que se denuncie, por um lado, a injustiça e, por outro, a mentira. Injustiça porque desde logo esta ideia da «sentença de Salomão» veio apagar que quem vive do seu salário é chamado a pagar uma crise para que não contribuiu em nada. Mentira porque a parte de leão vai ser paga pelos trabalhadores, pelos reformados e pelas populações.

Demonstrativo disto é a captura de parte dos salários por via do IRS, acompanhada do congelamentos na dedução específica e na dedução à colecta com despesas de saúde e educação; no aumento do IVA, com todas as consequências que isto tem no aumento do custo de vida. Tudo isto somado com o que o Governo quer – ou diz querer – cobrar ao capital, demonstra a dimensão do embuste.

E ainda está por contabilizar o aumento do preço dos transportes, dos medicamentos, da água, o aumento dos spreads nos empréstimos... Há que denunciar e desmascarar esta propaganda que afirma que é inevitável e que todos vamos ter que fazer sacrifícios.   

 

O PS já disse que aceita tributar as mais-valias e que vai aumentar também o IRC...

 

No concreto, veremos no dia 2 (hoje), pois será debatido na Assembleia da República. O que sabemos desde já é que, em relação à taxação da banca – que deveria pagar tanto, em termos percentuais, como qualquer outra empresa – e das operações bolsistas, isso fica claramente de fora. Esta é uma opção de fundo.

Está indiciada alguma taxação sobre os capitalistas, mas sobre o capital financeiro e os grandes grupos económicos não há uma vontade política de responsabilizar quem foi o responsável principal por esta crise.

 

O Governo justifica as medidas apresentadas com o ataque especulativo de que o País está a ser alvo, com a necessidade de acalmar os mercados e com as agências de notação ou rating. Para a maioria das pessoas, estas palavras significam pouco ou mesmo nada. De que se fala quando se usam estas expressões?

 

São expressões criadas pelo léxico ideológico do capitalismo precisamente para que os povos não definam com precisão quem foi o responsável da crise e quem está a ganhar com ela. Os mercados são os megabancos, nomeadamente os alemães, os suíços e os norte-americanos, que ganharam à «tripa-forra» com o jogo da bolsa e da especulação e que, quando foram apanhados, exigiram dos estados transferências colossais, aumentando assim os défices e dívidas desses países. Posteriormente, com os estados mais vulneráveis, esse mesmo capital, com a capa de mercado, soltou os cães, usando as tais agências de notação, para criar as condições que conduziram ao autêntico roubo por via do aumento dos juros da dívida. São formas cientificamente consideradas para, por via dos adjectivos, esconder os responsáveis e as suas responsabilidades.

 

Fala-se da necessidade de o Estado poupar, mas para o BCP, BPN e BPP o dinheiro não faltou...  

 

Hás-de reparar que nunca mais ninguém falou disso. Há que lembrar que só para o BPN foram transferidos cerca de 4 mil milhões de euros, que é uma verba superior à que resultará de todos estes sacrifícios que estão a fazer pagar aos trabalhadores e às populações. Mas nunca mais ninguém falou destes casos que, como é sabido, são a causa funda que levou a que um défice de cerca de 2,9 por cento tenha disparado para 9 por cento.

 

No comício da Voz do Operário, falaste de uma «teia de chantagens» em que se pretende enredar o País, em torno do fim do euro ou da ruptura do sistema financeiro, urdida pelas «forças de concertação estratégica do capital». Que forças são estas? Como se tece esta teia?

 

Trata-se de um processo que passou pela financeirização das economias; pela criação da União Económica e Monetária; pela aplicação das políticas neoliberais, impondo de forma draconiana nomeadamente o Pacto de Estabilidade e Crescimento e as políticas comunitárias para a agricultura e pescas, que levaram à destruição dos aparelhos produtivos, designadamente o nosso; foram as negociações da OMC, com consequências dramáticas para os nosso têxteis... Foi uma teia, conscientemente urdida, que criou, nesta situação concreta, espartilhos, e uma chantagem que foi livremente aceite e apoiada por cada governo dos países da UE, de direita ou de formação social-democrata. Ao directório do grande capital juntou-se o directório das grandes potências da União Europeia.

Quero sublinhar este elemento político relevante: o de termos em muitos países uma social-democracia rendida aos interesses do grande capital financeiro, dos grandes grupos económicos, como é o caso dos governos PS de José Sócrates.

 

Ainda na Voz do Operário afirmaste que hoje a situação revela a actualidade da luta de classes e que a «linha que separa os lados é cada vez mais nítida». Isto significa que há mais campo para afirmar o socialismo?

 

Hoje não há dúvida de que a concentração e a centralização da riqueza à escala planetária em grandes grupos económicos e financeiros – que arredam do progresso e de uma repartição mais justa dessa riqueza produzida pelos trabalhadores e todas as camadas e classes antimonopolistas e que levam ao comprometimento das soberanias de povos e de países – deram mais visibilidade àquilo que sempre existiu: a luta de classes. A sua actualidade é hoje uma evidência, como evidente começa a ser para milhões de trabalhadores que o capitalismo não é nem será o sistema final da humanidade. Há um caminho a percorrer ao nível da evolução da consciência das massas e, consequentemente, na luta pela alternativa ao capitalismo, que é o socialismo.

A um Partido Comunista como o nosso compete, na sua luta concreta, nesta situação concreta, ter sempre presente o nosso projecto e ideal como linha de horizonte. Acumulando forças, desenvolvendo e potenciando as condições objectivas e subjectivas, entendendo a construção do socialismo não como um acto súbito mas como um processo, com etapas, afirmando o socialismo como alternativa ao capitalismo. Do nosso ponto de vista, hoje a situação no mundo demonstra que não há uma verdadeira alternativa ao capitalismo que não seja o socialismo.

 

Já em Outubro de 2008, o Comité Central, analisando a crise que então despontava, afirmava que a não serem invertidas as políticas que estiveram na origem da crise, os seus efeitos acentuar-se-iam e prolongar-se-iam no tempo e a expressão e dimensão da crise na esfera produtiva afectaria sobretudo os trabalhadores e camadas mais desfavorecidas. Estamos perante uma crise prolongada?

 

O que é novo nesta situação não é a ofensiva – esta dura há mais de 30 anos no nosso país concreto – mas a sua intensidade e profundidade. Trata-se de uma crise em que o capitalismo revela contradições e os seus próprios limites históricos, mas da qual pretende sair com a receita clássica de atirar as suas consequências para os ombros dos trabalhadores aumentando a exploração, procurando aproveitar a actual correlação de forças para desferir golpes demolidores em tudo o que foi conquista social e resultou da luta de gerações inteiras de trabalhadores.

A luta de resistência contra todas e cada uma destas medidas do Governo do PS, em coligação com o PSD, é sem dúvida de grande importância e para agora! Mas vai ser uma luta tendente a ser prolongada exigindo do nosso Partido todo o empenhamento, militância, determinação e confiança nos trabalhadores e no povo português. Vai ser um combate de grande fôlego...

 

A manifestação de 29 de Maio

Um marco na história
do movimento operário

 

Que avaliação faz o Partido da grande manifestação de sábado? Esteve à altura da intensidade da ofensiva?

 

Foi uma magnífica luta que ficará como um marco na história do movimento operário e sindical português pela sua dimensão, pela sua combatividade, pela exigência de ruptura e de mudança, pela afirmação dos direitos de quem trabalha. E já alcançou uma vitória: a vitória contra o medo e contra a chantagem que antecedeu esta manifestação convocada pela CGTP-IN. Mas sendo um marco, e sendo necessário recuar no tempo para encontrar algo semelhante (e eu não encontro outra comparação que não seja o primeiro 1.º de Maio, em 1974), esta luta não foi um ponto de chegada.

 

Depois do 29 de Maio, muita gente já pergunta: e agora, que fazer?

 

Tendo em conta a determinação do Governo em prosseguir a ofensiva, esta luta exige continuidade sob as diversas formas que os trabalhadores têm para lutar. Cremos nós que foi um ponto alto mas vai ter seguimento e desenvolvimento.

Da parte do nosso Partido, que se empenhou no esclarecimento e na mobilização dos trabalhadores, dos comunistas, dos democratas para esta participação, também se afirma a necessidade da continuação da luta e da iniciativa do Partido. Nós consideramos que o mês de Junho, com todas as suas especificidades, com a proximidade de férias, é um tempo durante o qual é preciso continuar a desenvolver essa luta, nomeadamente concretizando as «500 acções contra o PEC» e convocando os trabalhadores e as populações – designadamente de Lisboa, Évora e Porto – a darem expressão de rua a esse protesto e a essa luta.

 

A semana passada ficou marcada, no plano institucional, pela moção de censura apresentada pelo PCP. Foi importante tomar esta iniciativa, mesmo tendo sido chumbada por PS, PSD e CDS-PP?

 

A moção de censura não fez vencimento institucional, mas não calou a censura e muito menos a luta. Foi uma iniciativa de grande oportunidade, na medida em que demos expressão institucional à censura popular que hoje se sente contra a política de desastre social e nacional realizada pelo Governo do PS com a assinatura e o apoio do PSD. Nós verificámos que Sócrates com muita dificuldade nos acusou de irresponsabilidade por pormos em causa o Governo. A censura tinha essencialmente uma dimensão política, mas também rejeitamos a ideia de que o Governo de Sócrates seja «ou eu ou o caos». Antes cair o Governo do que cair o País, não esquecendo que o povo em democracia tem sempre oportunidade de encontrar outra solução governativa.

 

Sem investimento
não há desenvolvimento

 

Uma das críticas feitas pelo PCP às medidas previstas na segunda versão do PEC é o adiamento do investimento público, precisamente uma das exigências da direita...

 

Em primeiro lugar, convém sublinhar que lendo cada uma das medidas apresentadas não encontramos uma única ideia estratégica que vise o crescimento e o desenvolvimento do País. O que vai significar que, a manter-se este rumo, a atirar dinheiro para o sorvedouro insaciável do sector financeiro, não se resolve os problemas estruturantes que temos. O Governo tomou uma opção, a de sacralizar de novo a questão do défice das contas públicas.

Mas para o nosso Partido, o défice das contas públicas, sendo um problema, não é o problema. O problema maior é a dívida externa global, pública e privada, que resultou e cresceu na razão directa da destruição do nosso aparelho produtivo, da produção nacional e do emprego. Ora sem investimento público não há crescimento nem desenvolvimento económico.

Nós vemos o capital sempre a investir em sectores protegidos, designadamente em empresas que já existem e são rentáveis, e em áreas como a saúde. Mas não arrisca um cêntimo em termos de investimento privado no nosso aparelho produtivo e na nossa produção nacional. O Estado deveria assumir essa responsabilidade.

 

O que se diz é que o País «não tem dinheiro»...  

 

Não há dinheiro, dizem. Mas então como é que houve milhares de milhões para acudir ao BPN, ao BCP ao BPP? Não há dinheiro, dizem, mas a banca, a EDP, a GALP, a PT continuam a apresentar lucros fabulosos... Isto coloca sempre a mesma questão: qual a lei económica que determina que o défice das contas públicas tem que ser 3 por cento? Porque não 4 ou 5?... Nós precisamos de investimento público, de criar riqueza, de aumentar a produção...

É evidente que a resposta é dada pelos centros de decisão da União Europeia, que determinaram de forma draconiana que até 2013 o défice das contas públicas tem que estar abaixo dos 3 por cento, mesmo que isso determine mais recessão, mais atraso, mais destruição do emprego e do aparelho produtivo. 

 

Ou seja, o PCP vê o investimento como uma alavanca para o desenvolvimento...

 

Sim, uma alavanca fundamental. Vê-se sempre o combate ao défice do lado dos cortes – nos salários, nos direitos, na despesa. Nunca se vê o outro lado, pela via da criação de mais riqueza, de produzirmos mais e melhor, dinamizando o nosso mercado interno e também, obviamente, fomentando as exportações. Mas esta visão não cabe nestas medidas  que o Governo tenta levar por diante.

 

No caso da Alta Velocidade Ferroviária, tínhamos a Sorefame e a Siderurgia Nacional, que podiam ser de grande importância neste projecto. Actualmente, já nada disto existe...   

 

É um exemplo gritante. Nós consideramos a Alta Velocidade um investimento válido, desde que tenha em conta a modernização e reforço da nossa linha ferroviária tradicional, que tenha um carácter público e que incorpore produção nacional – são as condições que nós colocamos. E entendemos que não deve ser utilizada apenas para o transporte de passageiros, pois a questão do transporte de mercadorias parece-nos também uma questão essencial para o desenvolvimento económico.

O Governo age um pouco a trouxe mouche, com esta definição de trajecto a terminar no Poceirão. Não tem racionalidade, não tem uma lógica. Com as condições que colocamos, este é um projecto que pode contribuir para o nosso crescimento económico. 

 

Também em torno das privatizações se agita a ideia da necessidade que o Estado tem de obter receita. Mas, se há a receita que vem, também há a que deixa de vir, por via dos lucros e dos impostos...

 

Eu creio que é importante afirmar que o rol de privatizações que o Governo tem em carteira corresponde a um crime previamente anunciado. Só em duas empresas – a GALP e a EDP – o Estado, com a participação que detém, arrecadou em cinco anos 163 milhões e 592 milhões, respectivamente. Com a privatização, no futuro próximo, o Estado ficará sem esta receita mas, simultaneamente, perde capacidade de intervenção nestas empresas estratégicas. Isto não é perder os anéis, é perder os dedos. E mesmo do ponto de vista orçamental, isto tem consequências: quando o Estado não tiver mais nada para vender, só lhe resta ir aos salários e aos impostos.

Para além do escândalo que é o facto de o Governo pretender privatizar empresas que constituem monopólios, como os CTT. Com todas as consequências que isto tem, por exemplo em termos do aprofundamento de assimetrias que já não são sociais mas territoriais ou regionais. Não se está a ver uma multinacional que tome conta dos Correios a estar preocupada com a distribuição postal numa aldeia de Castelo Branco ou de Viseu...

O combate contra as privatizações também é um combate na defesa dos interesses do País. Já para não falar o golpe que isto constitui na nossa Constituição económica, que define claramente a existência de uma economia mista com um sector público forte e dinâmico ao serviço da economia nacional.

 

O que sobrará desse sector público, caso se confirmem estas privatizações?

 

Aparentemente não vão à parte financeira da Caixa Geral de Depósitos, mas até querem privatizar a área seguradora, que representa uma grande carteira da CGD. Pouco escapa a esta fúria, sem qualquer racionalidade económica, visando tapar buracos. Mas, simultaneamente, alguém vai ganhar com isto: os grandes accionistas, os grupos económicos nacionais e estrangeiros.

 

O que se pretende privatizar são as partes rentáveis das empresas, como se vê na CP, com a intenção de privatizar as linhas suburbanas e a CP Carga, deixando-se de parte as linhas regionais, por exemplo...

 

É fácil verificar isso, a intenção de vender aquilo que dá lucro, aquilo que na linguagem popular se poderia considerar o «bife do lombo». Daquilo que dá prejuízo, o Estado encarrega-se. A ANA ou a REN, por exemplo, são também empresas altamente rentáveis e apetecíveis.

 

Na reunião de Abril do Comité Central foram aprovadas as linhas essenciais da nova política que o País precisa. Entre elas, constam o reforço do sector público e a adopção de um programa de industrialização do País... 

 

Era fundamental que o País fosse municiado de alavancas económicas fundamentais, pela via da nacionalização ou aquisição de empresas e sectores estratégicos, no quadro de respeito pela economia mista que a Constituição comporta. Não estamos aqui a propor uma medida revolucionária, mas uma medida em conformidade com a Constituição da República e com o interesse nacional. A nacionalização da banca comercial ou dos sectores energéticos, procurando assim que de uma perspectiva de crescimento e desenvolvimento económico o Estado tivesse o papel que a Constituição lhe reclama. Não é uma invenção do PCP.

Consideramos que para sair da crise e para a existência de uma outra política económica isto é um elemento fundamental. Isso e a industrialização do País. Nós não temos dúvidas: os primeiros países a sair da crise são aqueles que estão com uma base industrial forte.

 

Como a Alemanha...

 

Sim, e não é por acaso que o próprio Sarkozy recentemente afirmava que a França precisa de fábricas. E Portugal precisava de facto de um plano de industrialização, pensando não só no mercado interno mas também na potencialidade de exportação...

 

Mas há pouco disseste que o grande capital aposta em sectores protegidos, sem concorrência... Teria de ser o Estado a assumir o papel central?

 

Evidentemente... Mas também apoiando os pequenos e médios empresários. Infelizmente, são aqueles que arriscam, nem sempre bem, é verdade, mas arriscam. E temos grandes exemplos de resistência de micro, pequenos e médios empresários que hoje, com grandes dificuldades, fazem tudo para manter as suas empresas. Com uma visão de desenvolvimento e de apoio do Estado e com as tais nacionalizações de que falámos – que deveriam servir também para apoiar estas micro, pequenas e médias empresas (e estou a citar a Constituição) – seria possível apoiar aqueles que persistem em manter as suas empresas, em criar e defender empregos.

 

Com a banca e as empresas de energia e transportes a assumirem um papel destacado...

 

O grande problema das micro, pequenas e médias empresas não é o peso dos salários. Não é esse o elemento preponderante. As suas dificuldades residem fundamentalmente nos custos dos factores de produção. Estamos a falar dos combustíveis, da energia, dos transportes e das comunicações. Estes são os elementos que fundamentalmente lhes dificultam a vida, para além das dificuldades de acesso ao crédito, com spreads elevadíssimos cobrados às pequenas empresas. Com a introdução das portagens nas SCUT do Norte do País, o Governo procura dar mais uma machadada na capacidade competitiva das pequenas empresas nacionais.

Nós temos uma visão diferente e uma alternativa que quase  nos leva a dizer: cumpra-se e efective-se a Constituição da República! Estamos a falar não só de uma perspectiva de desenvolvimento económico mas também da criação de emprego. Nós temos em Portugal um problema, e que o próprio PEC acaba por reconhecer, que o desemprego se vai manter na casa dos 10 por cento nos próximos tempos.

O que era importante que todos os portugueses percebessem é que estes sacrifícios não são para ficar pior agora para ficar melhor mais à frente. Não! É ficar pior agora para ficar pior mais à frente. A economia tem leis, que determinam a sua evolução, e se não há investimento, se não há produção, se não há criação de emprego, o País vai andar para trás.

 

Empréstimo à Grécia é para os bancos

«A nossa solidariedade
é para com os que lutam»

 

A Grécia tem sido uma presença assídua nos noticiários e nas páginas dos jornais devido à situação que esse país enfrenta e à possibilidade de uma comparação com a situação portuguesa. Que avaliação faz o PCP da chamada crise grega?

 

A Grécia, os trabalhadores e o povo grego, foram o alvo prioritário escolhido pelo capital financeiro. A raiz dos problemas é idêntica embora existam diferenças entre a situação dos dois países. Por exemplo, a banca alemã, pelo nível da dívida da Grécia (resultante, designadamente das encomendas de seis submarinos e de armamento para as forças armadas), era a primeira interessada na aplicação das violentas medidas em curso. O que não quer dizer que aqui no nosso país os alemães também não sejam parte interessada, mas naquele caso concreto a decisão alemã pesou significativamente. Quer recuperar aquilo que foi investido de forma especulativa e agora, sentindo o perigo de não ter esse investimento de volta, exige estas medidas.

 

Entretanto, o grupo parlamentar do Partido votou contra o empréstimo à Grécia ao mesmo tempo que manifestou a sua solidariedade com os trabalhadores desse país... Não haverá muita gente a ver isto como uma contradição?

 

Esse empréstimo não é para ajudar os trabalhadores e o povo grego, mas para transferir para os banqueiros. A nossa solidariedade não é para com o grande capital. A nossa solidariedade é para com aqueles que hoje, na Grécia, lutam contra o roubo nos seus salários e dos seus direitos. É para com o esforço do Partido Comunista da Grécia, que mobiliza para a luta, na defesa dos interesses e direitos do povo grego. Nesse sentido, não percebemos as posições de alguns que aqui estiveram contra a transferências de dinheiros públicos para a banca mas que depois são a favor de pôr o Estado português a transferir verbas para a banca alemã, suíça, francesa, norte-americana...

Esta é uma contradição e nós fomos coerentes: toda a ajuda e solidariedade aos trabalhadores e aos povos! Mas a nossa solidariedade não se estende aos responsáveis pela crise e àqueles que estão a ganhar com a crise.

 

É crucial ter um Partido
preparado para tudo

 

Em muitas intervenções e em vários documentos do Partido, salienta-se a importância de existir um Partido Comunista firme, combativo e influente e a necessidade do seu reforço. Que importância tem isto, no momento que vivemos?

 

Nós temos um conceito integrado disto, e pensamos que o reforço da intervenção e da iniciativa do Partido é inseparável do reforço da sua organização. Sendo o PCP o único Partido que sem hesitações protagoniza o esclarecimento e mobilização dos trabalhadores e das populações para fazer frente a esta ofensiva imensa, é crucial ter um Partido preparado para todas as circunstâncias – com mais intervenção, mais organização e mais iniciativa.

 

Na reunião de Novembro de 2009, o Comité Central apontou medidas concretas de reforço do Partido, com especial concretização este ano. Estamos em Junho... Já se avançou? Em que áreas?

 

A análise que resulta do balanço feito pela Comissão de Organização permite afirmar que estamos a dar passos adiante na realização de assembleias, nomeadamente de organizações de base; no recrutamento; na responsabilização de quadros e na criação de organização do Partido nas empresas e locais de trabalho.

No entanto, estamos longe de estar satisfeitos ou descansados. Persistem dificuldades e atrasos, designadamente na compreensão política sobre a situação financeira ou sobre a importância da imprensa do Partido. Mas verificamos que a orientação determinada pelo Comité Central está a ser levada adiante de forma sólida e segura, podendo-se dizer, sobre as assembleias, que há muito que não se realizavam tantas, e sobre o recrutamento, que está ao nível dos melhores anos da última década.

 

No XVIII Congresso, o PCP definiu as condições fundamentais para a concretização de uma alternativa política de esquerda, resumidamente: o reforço do PCP; o desenvolvimento da luta de massas; e a alteração, no plano institucional, da correlação de forças, em favor do PCP. Tendo em conta o desenvolvimento da situação neste ano e meio desde o congresso, estamos mais perto dessa alternativa?

 

Há uma questão primeira que é a política alternativa. Nós afirmamos a necessidade de uma política alternativa e de uma alternativa política. As eleições legislativas passadas tiveram o facto relevante da derrota da maioria absoluta do PS, mas o PS não só persistiu como aprofundou a política de direita. Aliás, logo na noite das eleições Sócrates foi claro: iria manter o rumo da sua política. Fez uma encenação, ao convidar todos os partidos a contribuírem com propostas com vista à «governabilidade», mas não passou de uma encenação, já que tudo partiu da sua afirmação de que iria manter o rumo. Então, seria nos partidos de direita que encontraria, particularmente nos momentos cruciais e estratégicos para o capital, essas alianças, entendimentos e acordos.

Do nosso ponto de vista, a alternativa política é possível com a ruptura e com a mudança da política de direita e das forças políticas e sociais capazes de assumir a política ao serviço do povo e do País.

Mais do que definir no tempo – se está mais perto ou se está mais longe – nós temos que lutar o tempo que for preciso para a concretizar. Nesse sentido, a luta pela alternativa, por uma política patriótica e de esquerda, parece-nos ser, no momento, crucial. E essa luta não é separável do desenvolvimento da luta de massas; do envolvimento, em primeiro lugar, da classe operária e dos trabalhadores, mas também de outras camadas duramente atingidas por esta política de direita. Há que trazer à luta muitos portugueses, muitos democratas e patriotas preocupados com o seu país, e criar as condições para que também no plano político, e resultante desse desenvolvimento, se encontrem alternativas capazes de realizar uma política diferente, capazes de protagonizar esta ruptura e esta mudança...    

 

Mas teria de ser com um «arranjo» totalmente diferente daquele que hoje existe...

 

Neste quadro é difícil. O PS sabe que mesmo que tivesse oferecido lugares no Governo, nunca contaria com o PCP como cúmplice de uma política que é contrária aos interesses dos trabalhadores, do povo e do País. A questão não se prende na composição do governo mas na política que esse governo pretenda concretizar.

As contradições estão-se a acentuar. Nós vemos hoje quem está a ser prejudicado: os trabalhadores, em primeiro lugar. Mas e os pequenos e médios comerciantes e industriais, os pequenos agricultores, os pescadores? Estão também a ser vítimas da política de direita. E quando ganharem consciência que não têm que alinhar com a grande burguesia mas sim com aqueles que estão dispostos a uma política diferente, obviamente que se criarão as condições para essa alternativa. Mas, como disse, é um processo. E vamos lutando, com esta disposição combativa, acreditando que é possível uma vida melhor para Portugal e para os portugueses.



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