Em milhões de portugueses cresce um sentimento de indignação e protesto
Jerónimo de Sousa em Alpiarça
Resposta à ofensiva de direita

Mais de duas centenas de pessoas participaram, sábado, em Alpiarça, numa festa/comício do PCP, que contou com a participação de Jerónimo de Sousa. Nesta terra ribatejana, símbolo da resistência ao fascismo, o Secretário-geral do PCP alertou para as gravosas «medidas de austeridade» aprovadas pelo PS, em aliança com o PSD, e valorizou a luta dos trabalhadores e das massas populares para garantir e melhorar as suas condições de vida.

 

«Tal como no passado, os trabalhadores e as massas populares travam hoje uma grande batalha pela defesa das suas condições de vida e de trabalho», afirmou, em Alpiarça, Jerónimo de Sousa, valorizando a manifestação de 29 de Maio, a maior das últimas décadas, para responder à ofensiva do Governo que tem em curso «um programa de severas e injustas medidas de austeridade que atingem todos os domínios da vida dos portugueses, particularmente dos que vivem do seu trabalho».

«Em milhões de portugueses cresce um sentimento de indignação e protesto face à imposição do pagamento de uma crise que não é a sua, nem para ela contribuíram e que devia ter como destinatário o grande capital económico e financeiro que a criou e de que tem sido o principal beneficiário», referiu.

O Secretário-geral do PCP acusou ainda o Governo do PS de prosseguir e agravar a política de direita dos anteriores governos, dando como exemplo o aumento do desemprego e da precariedade do trabalho, a desvalorização crescente dos rendimentos do trabalho, a destruição de direitos sociais, a privatização de serviços públicos essenciais ao bem-estar das populações, o encerramento de empresas com a contínua liquidação de postos de trabalho e dos sectores produtivos nacionais, nomeadamente da agricultura e da indústria. «Uma política desastrosa que agrava os problemas nacionais e que torna cada vez mais difícil a vida dos portugueses», lamentou.

 

Cresce o desemprego

 

Dificuldades que estão bem presentes em todo o distrito de Santarém com o desemprego a atingir 21 mil trabalhadores e a crescer o número de empresas encerradas e em dificuldade, como é o caso da Platex, da Manuel Freitas Lopes ou da Fiação e Tecidos de Torres Novas. «Problemas que tenderão a agravar-se se for para a frente o Programa de Estabilidade e Crescimento e as suas medidas de ataque aos salários, às reformas, às prestações sociais, de redução ao investimento e de privatização dos serviços e de empresas essenciais ao País», alertou Jerónimo de Sousa, que não concorda com a «redução do valor dos salários e reformas, quer pela via do imposto adicional no IRS, do aumento do IVA em todos os produtos, incluindo sobre os bens de primeira necessidade, do congelamento da dedução específica em sede de IRS e de nova limitação nas deduções à colecta com despesas de saúde e educação, mas também pela via do aumento dos preços».

Medidas que atingem de forma escandalosa as principais prestações sociais, nomeadamente o subsídio de desemprego e os apoios aos trabalhadores desempregados, numa altura que o desemprego atinge cerca de 10,8 por cento. «Depois de anunciar estes cortes decide agora [o Governo] também retirar um conjunto de medidas sociais do chamado plano anti-crise, destinadas aos desempregados mais desfavorecidos e no preciso momento em que decide também manter as medidas extraordinárias de apoio ao sector bancário, que envolvem perto de 10 mil milhões de euros», revelou o Secretário-geral do PCP, expondo a «verdadeira natureza de classe» da política do PS, que «corta em quem mais precisa e abre a bolsa àqueles que só no primeiro trimestre deste ano tiveram um lucro de 5,5 milhões de euros por dia».

 

Dar mais força à luta

 

Perante esta situação, o que o País precisa é de uma outra política, patriótica e de esquerda, de defesa dos interesses nacionais e de ruptura com o rumo neoliberal e federalista da União Europeia. «Não se resignem, nem acreditem em fatalismos, engrossem a corrente de luta que dê uma forte resposta à ofensiva que ai está», frisou Jerónimo de Sousa, prometendo: «Nós não desarmaremos e muito menos renunciaremos. Porque este é o caminho que é necessário percorrer, porque é a única solução para dar volta à situação a que o País chegou».

A intervenção de Jerónimo de Sousa, que encerrou a festa/comício que teve lugar no Parque do Carril, foi precedida por um momento musical da responsabilidade de Samuel Quedas, um cancioneiro de Abril, que interpretou músicas e poemas de, entre outros, António Gedeão, Manuel Freire, José Afonso e Adriano Correia de Oliveira, que fizeram muitos recordar  e outros, mais novos, ambicionar por um mundo mais justo e mais fraterno.

No palco, com o Secretário-geral do PCP, estiveram João Vítor Osório, da Comissão Concelhia e da Direcção Nacional da JCP; João Osório, da Comissão Concelhia e da Direcção da Organização Regional de Santarém; António Moita e Paula Matias, da Comissão Concelhia; Mário Fernando Pereira, da Comissão Concelhia e da Direcção da Organização Regional de Santarém; e presidente da Câmara de Alpiarça; António Filipe, deputado do PCP na Assembleia da República; Manuel Pinto Ângelo, do Secretariado; e Octávio Augusto, da Comissão Política.

 

O PCP tem alternativas para a agricultura

 

Numa região com condições excepcionais para a produção agrícola, Jerónimo de Sousa criticou o «contínuo desprezo» e a diminuição, em todo o distrito, do número de pessoas ligadas à agricultura.

«Cada vez mais é assim porque não existem garantias de preços compensadores para a actividade agrícola, enquanto os factores de produção aumentam todos os anos. Vemos que crescem os terrenos ao abandono ou subaproveitados, porque o rendimento dos agricultores cai anualmente e o seu esforço não é compensado», lamentou, prometendo colocar como «questão de fundo», no debate sobre a Política Agrícola Comum para 2013 que agora se inicia, a «redistribuição das ajudas entre países, produções e agricultores».

«Defendemos uma política agrícola que respeite e considere estratégica a agricultura familiar e os pequenos e médios agricultores, que respeite a soberania alimentar dos povos, que não distribua fortunas anualmente a quem nem sequer produz um quilograma de alimentos, uma política que respeite os agricultores e que não sirva apenas para engordar mais os senhores do agro-negócio das grandes multinacionais da transformação e distribuição de alimentos», salientou o Secretário-geral do PCP.

 

O fascismo não vergou o povo de Alpiarça

 

No comício, Jerónimo de Sousa lembrou o resistente antifascista Alfredo Lima, assassinado pela GNR a 4 de Junho de 1959, quando com outros trabalhadores agrícolas de Alpiarça, concentrados na praça de jorna, protestavam contra os salários de miséria e exigiam melhores condições.

«Alfredo Lima, que o povo converteu num símbolo da luta dos trabalhadores e do povo de Alpiarça contra o fascismo, era um jovem na flor da vida, militante comunista, que assumia como muitos outros esse combate consciente e determinado que vinha de longe contra a vida de miséria que o sistema de exploração e o fascismo impunham aos homens, às mulheres e aos jovens da sua condição», recordou o Secretário-geral do PCP, acrescentando: «Nesse dia 4 de Junho, a brutal violência fascista que fez tombar para sempre Alfredo Lima, para juntar o seu nome à extensa lista de comunistas e antifascistas assassinados pelo regime fascista, estendeu-se a outros trabalhadores, uns ficaram feridos, outros foram presos. Esta era a lei de um odioso regime que só conhecia a linguagem da repressão, da tortura, da prisão e do assassinato, mas que nunca conseguiu intimidar, nem vergar o povo trabalhador de Alpiarça.»

Jerónimo de Sousa, ao evocar a figura de Alfredo Lima, frisou ainda que aquele não foi um acontecimento isolado, «ele foi um de entre os muitos combates travados ao longo dos anos pelos trabalhadores agrícolas e pelo povo de Alpiarça, por melhores salários, contra o desemprego, pela redução do horário de trabalho, contra a repressão, pela libertação dos presos e nas mais variadas batalhas políticas contra a ditadura».

«Um percurso que se projectou com a Revolução de Abril na luta pela concretização de uma ampla democracia política, económica, social e cultural e que hoje permanece como um objectivo da luta não só do nosso Partido, como de amplas massas da classe operária, dos trabalhadores e do nosso povo», acentuou.



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