Governo recua na decisão de encerrar as pediatrias de Setúbal e do Barreiro
Vitória das crianças e dos utentes

Depois da luta persistente das populações, a Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo voltou a trás na sua pretensão e anunciou, segunda-feira, momentos antes da realização de duas manifestações, que as urgências pediátricas do Centro Hospitalar Barreiro-Montijo e do Centro Hospitalar de Setúbal vão voltar a estar asseguradas 24 horas por dia.

Apesar do anúncio de que as urgências pediátricas não iriam apenas funcionar, no período da noite, no Hospital Garcia de Orta, mais de 200 pessoas manifestaram-se, ao final da tarde, junto ao Centro Hospitalar Barreiro-Montijo. «Quem luta pode ganhar, mas quem não luta perde sempre. Temos que estar vigilantes», disse, em declarações à comunicação social, Eduardo Marques, da Coordenadora das Comissões de Utentes dos Serviços Públicos do Barreiro. Esta acção de luta e de reivindicação contou com a presença de Carlos Humberto, presidente da Câmara Municipal.

Também em Setúbal mais de uma centena de pessoas concentrou-se junto ao hospital, mostrando a sua indignação por aquilo que a ARS pretendia fazer, agravando ainda mais a prestação dos cuidados de saúde da população, em particular das crianças de Setúbal, Alcácer do Sal, Grândola, Palmela, Santiago do Cacém e Sines.

«Esta é a prova provada do que vale a luta das populações deste e de outros concelhos. O povo que em 29 de Maio falou nas ruas e praças e em 8 de Julho falará de novo, as autarquias, os trabalhadores dos serviços públicos, têm condições de se opor ao encerramento de escolas, das maternidades, dos SAP e dos SADU, das urgências, dos postos de correio e das instalações consulares que tanto afectam os nossos emigrantes», disse, na concentração, Carlos Jorge, presidente da Junta de Freguesia de São Sebastião, valorizando a «vitória das crianças e dos utentes», a «coragem dos médicos pediatras e do rigor do distrito médico de Setúbal da Ordem dos Médicos, do pessoal de enfermagem, dos setubalenses e do povo contra o encerramento dos serviços públicos e contra as políticas neoliberais do PS e dos que querem, desde há 35 anos, apagar da história a gesta heróica da madrugada de Abril e da conquista de direitos dos quais o Serviço Nacional de Saúde é um magnífico legado que defenderemos e deixaremos aos nossos filhos e netos».

Maria das Dores Meira, presidente da Câmara de Setúbal, também presente no protesto, exigiu que a ARS assuma «responsabilidades» e que «apresente, quanto antes, o pedido de desculpas que os setubalenses e as populações da Península de Setúbal merecem».

 

Utentes em luta

 

Os utentes de saúde da Península de Setúbal realizaram, quinta-feira, na Quinta do Conde, Sesimbra, um Encontro Regional e decidiram fazer, ainda sem data prevista, uma acção de protesto junto ao Ministério da Saúde para «exigir o que é de direito da população».

Uma iniciativa que serviu para contestar, entre outros problemas, a demora da construção do Hospital do Seixal e a interrupção dos trabalhos de construção da extensão de saúde de Quinta do Conde. O encontro contou com a presença de Paula Santos, deputada do PCP na Assembleia da República.

No dia 8 de Junho, as comissões de saúde da cidade de Lisboa concentraram-se em vigília à porta do Ministério da Saúde, onde entregaram uma carta-aberta à ministra, Ana Jorge, exigindo, entre outros, a «colocação de enfermeiros e médicos de família nos centros e extensões de saúde», a «abolição das taxas moderadoras», a «reabertura dos serviços encerrados» e «uma politica de medicamentos que tenha em consideração a situação económica e os rendimentos das famílias, reduzindo as margens de lucros das empresas da indústria farmacêutica».

Na sexta-feira foi a vez do Movimento de Utentes de Defesa dos Serviços Públicos de Alcochete (MUSPA) condenar o fim do serviço móvel dos CTT que servia as freguesias de Alcochete, São Francisco e Samouco. «Com esta decisão, os utentes destas localidades ficam sem mais um serviço público fundamental para a sua vida e passam a ter de se deslocar a uma estação dos CTT (Alcochete ou Montijo), com todas as consequências resultantes da já conhecida má qualidade dos transportes públicos e que vem afectar especialmente os mais idosos - como sabemos os mais dependentes deste tipo de serviço», afirma o MUSPA.


Contra privatização da Linha do Sado

 

Organizações de trabalhadores e utentes realizaram, no dia 8 de Junho, várias iniciativas de defesa do carácter público da Linha do Sado, posto em causa com o anúncio da privatização de empresas e exploração de linhas do sector ferroviário.

«A ofensiva privatizadora de longa duração dos sectores básicos da economia nacional e dos serviços públicos - trave mestra do processo de recuperação capitalista - procura agora, como o chamado Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC), novos alvos, em particular nas linhas ferroviárias suburbanas da Área Metropolitana de Lisboa, acusaram, na Estação do Pinhal Novo, autarquias locais, a Comissão de Utentes da Linha do Sado, a Comissão de Utentes dos Transportes da Margem Sul do Tejo, o Sindicato Nacional dos Trabalhadores do Sector Ferroviário e a União dos Sindicatos de Setúbal.

A alteração de estatutos da CP e a correspondente permissão da CP Carga ao sector privado e a exploração do transporte de passageiros, entre Lisboa e Setúbal, pela Fertagus, empresa que pratica preços que rondam o dobro da empresa pública e que é favorecida por uma política de indemnizações e compensações caso os seus lucros não atinjam metas pré-estabelecidas, foram algumas das críticas avançadas pelos utentes e organizações de trabalhadores, que defendem «o fim da concessão desta linha aos privados».

Em todas as estações ferroviárias da Linha do Sado os utentes assinaram um postal, a enviar ao Primeiro-ministro, José Sócrates, onde se exige que todas as estações «sejam equipadas com máquinas automáticas de bilhetes nos dois cais de embarque» e que «tenham WC a funcionar». Com esta acção, pretende-se ainda que «sejam resolvidos os problemas de circulação dos passageiros de um lado para o outro da linha, reparando os elevadores avariados e pondo a funcionar os que se encontram parados» e que «não seja cobrada qualquer taxa ou tarifa nos parques de estacionamento existentes nas estações ferroviárias».



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