• Miguel Inácio

«Sei que ainda há muita gente que gosta de me ouvir cantar»
Espectáculo de Luísa Basto, dia 21 de Junho, no Politeama
«40 anos a cantar o povo e a liberdade»

Luísa Basto está a comemorar 40 anos de carreira, tendo editado, recentemente, um CD que dá nome ao espectáculo que no dia 21 de Junho vai estar no Teatro Politeama, em Lisboa. Uma oportunidade única de ver e ouvir uma cantora excepcional, com uma das melhores vozes da música portuguesa.

Dias antes do espectáculo, que promete ser um dos grandes momentos da carreira de Luísa Basto, o Avante! foi encontrar-se com esta artista e saber mais sobre o que vai acontecer no próximo dia 21 de Junho, no Politeama. Recebeu-nos na sua segunda casa, o Restaurante «Forno de Cima», no Pragal (Almada), com um sorriso que irradiava alegria e transmitia uma imensa felicidade.

Falámos do passado, do presente e do futuro. Recordámos que Luísa Basto, cujo o seu verdadeiro nome é Ursula Lobato, nasceu em 1947 na Aldeia de Vale de Vargo, perto de Serpa. Com apenas 10 anos, sentiu na pele o que era a vida da clandestinidade, uma vez que os seus pais asseguravam uma tipografia, onde se imprimia o Avante!, o jornal da classe operária e de todos os trabalhadores, e onde nasceu o Tribuna Livre.

«A vida na clandestinidade era muito rigorosa, tínhamos outros nomes, não podíamos ter grande convívio com os vizinhos. Lembro-me, sobretudo, da verdadeira solidariedade, onde as pessoas zelavam umas pelas outras. Eram sentimentos puros e verdadeiros. Foram tempos complicados mas que marcam a vida de uma pessoa», recordou, Luísa Basto, que, três anos mais tarde, foi estudar para a União Soviética.

«O Partido mandou-me estudar para Moscovo, como o fazia com outros jovens que estavam em casas clandestinas»,revelou, explicando que os «estrangeiros» iam dois anos para a faculdade preparatória para aprender a língua, que «não era difícil, uma vez que a fonética é muito parecida com a nossa». «Vivia no 14.º andar de uma das torres da Universidade de Moscovo», acrescentou.

Lá, sem os seus pais, que posteriormente vieram a ser presos em Portugal, Luísa Basto «andava sempre a cantarolar», uma maneira «de estar acompanhada». «A malta ouviu-me a cantar e pediu-me para participar num espectáculo do Clube Internacional da Amizade», lembrou.

Ao mesmo tempo que tudo isto acontecia – sob o olhar atento de Álvaro Cunhal, de Manuel Rodrigues da Silva, de Carlos Aboim Inglês, Maria Adelaide, entre outros militantes do PCP - iniciavam-se as emissões da Rádio Portugal Livre, para além da Rádio Voz da Liberdade que já existia. «O Partido achou que eu deveria gravar um disco, com a Orquestra da Rádio Televisão Soviética, para ser transmitido na rádio, que depois acabou por chegar clandestinamente a Portugal», lembrou a cantora.

 

Mais perto da Revolução

 

Todo este processo foi acompanhado de perto por Álvaro Cunhal, uma pessoa que Luísa Basto recorda com um grande carinho. «As pessoas olhavam para o Álvaro e pensavam que ele tinha um feitio muito severo, mas era precisamente o contrário. Preocupava-se muito connosco. Aos fins-de-semana, acompanhadas pela sua família, convidava-nos para ir patinar à volta do Estádio Lenine ou no Parque Gorki», recordou.

Uma amizade que se prolongou no tempo. «Mesmo depois do 25 de Abril, já eu tinha os meus dois filhos, íamos passar o Natal à Soeiro Pereira Gomes, com o Álvaro e os camaradas do apoio. Falávamos de tudo. São imagens de um homem sensível, que faz falta a todos nós e a este País, cada vez mais negro. Há pessoas que deixam uma grande saudade e o Álvaro é uma dessas pessoas», acentuou.

Luísa Basto acabou a faculdade em 1973 e em 1974 vai para Paris, onde se encontrou com Álvaro Cunhal, Sérgio Vilarigues, entre outros camaradas, para estar mais perto de Portugal e da Revolução que acabou por acontecer em Abril. No dia 3 de Maio regressou finalmente ao seu País.

«Hoje tenho um diploma de um país que já não existe. A União Soviética foi, de facto, uma segunda pátria para mim, aquele povo era extraordinário, acolheram-me de uma maneira aberta, mas a minha ideia foi sempre de voltar para Portugal», confessou.

O seu primeiro concerto foi no Porto, a convite de Carlos Costa, dirigente do PCP. «Naquela altura a história acontecia de segundo a segundo, como se fosse um vulcão a eclodir, eram comícios, manifestações, eu sei lá, foi uma altura incrível da nossa história. Eu cantei em todo o lado, no País todo, e no estrangeiro também».

Funcionária do PCP e cantora de formação, Luísa Basto participou em vários espectáculos no Teatro Aberto, em Lisboa, e foi convidada para integrar o grupo «Os Amigos», que participou no Festival da Canção, em 1977. Mais recentemente participou em algumas actuações do musical «Amália», onde interpretou a figura principal.

Uma carreira que se distanciou de todas as outras e que sofreu uma imensa discriminação e incompreensão, nomeadamente da comunicação social. «O meu caminho, os textos que cantava tinham que ter um conteúdo. Cantar é uma profissão como outra qualquer, mas há pessoas que não pensam assim», criticou.

 

Espectáculo a não perder

 

Entretanto, para o próximo dia 21 de Junho, às 21 horas, Luísa Basto vai realizar um concerto do Politeama, em Lisboa, um espectáculo que vai integrar algumas músicas do seu novo álbum, composto por nove temas, todos com poesia de António Henrique. As músicas são de João Fernando, Manuel Gomes, José Alberto e Fernando Gomes.

«Há 30 anos que não faço um espectáculo só meu aqui em Lisboa», revelou, valorizando a qualidade e a amizade dos sete músicos que a acompanham.

Ao Avante! confessou ainda que, para além algumas cantigas «de muitos anos», vai interpretar temas em espanhol, francês e italiano. O espectáculo, apresentado por Cândido Mota, que vai declamar poesia, conta ainda com um convidado especial: Manuel Loureiro, um jovem que foi finalista do «Chuva de Estrelas», que ganhou o «Microfone de Cristal». Os arranjos e orquestra serão de Manuel Gomes.

«Gostava de ver a sala do Politeama cheia, com os nossos amigos, com os meus camaradas. Vai ser uma noite muito bonita. Sei que ainda há muita gente que gosta de me ouvir cantar», disse, emocionada. No final agradeceu a Filipe La Féria, que lhe cedeu o espaço onde se vai realizar o concerto, e a João Fernando, o homem que a acompanha há 30 anos, o pai dos seus filhos, o seu companheiro. «Um abraço para ele», disse.



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