Carlos Pato dá nome a um largo da sua terra natal, Vila Franca de Xira
Carlos Pato morreu na prisão há 60 anos
Um coração grande que sucumbiu à tortura

A morte de Carlos Pato no forte de Caxias, a 26 de Junho de 1950, em resultado das violentas torturas a que foi submetido, é mais um hediondo crime do fascismo que é necessário lembrar, para que não caia no esquecimento.

Eram aproximadamente seis e meia da manhã do dia 26 de Junho de 1950 quando, na prisão de Caxias, o coração do militante comunista Carlos Alberto Rodrigues Pato, de 29 anos, deixou de bater. Uma morte que poderia ter sido evitada não fosse a recusa da PIDE em facultar-lhe tratamento médico. Mas as responsabilidades da sinistra polícia política não se ficam por aqui.

Como disse a sua mãe, Maria Rodrigues Pato, à jornalista Gina de Freitas, numa entrevista publicada no Diário de Lisboa em Setembro de 1974, «foi das torturas que ele morreu», especificando que estas incluíram «mais de 130 horas de “estátua”». A violência, essa começara muito antes, logo na altura da sua prisão: «de madrugada, como é costume, invadiram a casa, entraram nos quartos e destaparam as pessoas que se encontravam na cama, incluindo a mulher grávida de cinco meses.» Ao longo das suas duas prisões (em 1947 e depois em 1949), Carlos Pato «sofreu muito, muito, muito. Teve muitas torturas. A primeira vez que o vi contou-me que o tinham torturado muito, mas havia coisas que só me queria dizer quando saísse. Mas como nunca mais saiu...»

 Um crime do fascismo

 Quando soube da morte do filho, através de um telegrama enviado pelo advogado de um preso, que conseguiu que a notícia ultrapassasse os muros do cárcere, Maria Rodrigues Pato e a nora foram imediatamente para Caxias: «Ficámos lá a tarde toda e de meia em meia hora vinha um dos presos que estava com ele, sentava-se um de cada lado e nós perguntávamos sempre o que tinha acontecido. Que tinha começado a queixar-se de um braço, depois de uma perna, que tinha também muita falta de ar e que eles punham-no junto da janela de grades, mas a sentinela da rua não o deixava lá estar. Bateram na porta, bateram para cima, mas ninguém acudia. Também os guardas não queriam barulho, porque não estava lá o senhor director que tinha vindo para Lisboa. Estava tudo em alvoroço pois como podiam iam contando aos outros presos o que se passava.»

Luísa Duarte Santos, que mais do que uma vez acompanhou a mulher de Carlos Pato, Clotilde, à prisão (onde também tinha o marido preso), relatou, mais tarde, o último encontro do casal: «Era um domingo de sol, e subíamos a custo o carreiro íngreme, até ao Forte. No final da visita – nesse dia, em comum – os presos regressariam às salas, após serem revistados. Numa porta, ao topo da recepção, onde estivéramos, reparei, enquanto esperava, que o Carlos falara com o chefe dos guardas, e pedira-lhe para dar um recado à mulher. Notei e impressionou-me – ainda hoje o recordo – a intensa palidez do seu rosto. A Clotilde saiu comigo e disse-me: “O Carlos pediu-me que trouxesse no próximo domingo os filhos, que os queria ver.” A palidez, que tanto me impressionou, seria a morte a rondá-lo. Poucas horas após essa visita, nessa noite, o Carlos falecia: o seu coração sucumbiu ao desgaste torturante da estátua.» 

O seu funeral, em Vila Franca de Xira, foi uma emocionante manifestação de apreço por uma vida breve, mas intensamente vivida. Em 1975, foi dado o seu nome a um largo na sua Vila Franca natal. Marcaram presença na cerimónia, entre outros, o seu irmão, Octávio Pato, e António Dias Lourenço.

 Vida breve mas intensa

 Nascido a 21 de Dezembro de 1920, Carlos Pato despertou cedo para a actividade antifascista, aderindo em 1937 ao Partido Comunista Português. Pouco depois, tornava-se membro do Comité Local de Vila Franca de Xira. No processo de reorganização do Partido do início da década de 40, Carlos Pato está entre os elementos mais activos, integrando, juntamente com António Dias Lourenço e Soeiro Pereira Gomes, o Comité Regional do Ribatejo.

A nível associativo, desempenhou igualmente uma intensa actividade, chegando a ser presidente do Ateneu Artístico Vilafranquense, entre 1945 e 1949. Membro do Movimento de Unidade Democrática, destacou-se também na comissão de apoio à candidatura presidencial do General Norton de Matos.

Maior que todas as poesias

 Carlos Pato foi um participante activo no movimento neo-realista, que se desenvolveu em Vila Franca de Xira. Juntamente com Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes e outros (entre os quais Álvaro Cunhal), discutiu o contexto e as características desse movimento cultural e artístico, que deu às artes e às letras nacionais nomes incontornáveis.

O seu primeiro – e único – livro foi dado à estampa um ano depois da sua morte, com o título Alguns Contos (reeditado em 1974).

No prefácio, Alves Redol lembrava o autor com estas comoventes palavras: «Vejo-te ainda... Vejo-te sempre. Compreensivo e digno, amoroso e forte, aberto às melhores promessas dos nossos dias, sensível à dor alheia, rebelde para as injustiças e bom, sempre bom, com esse sorriso tão suave que era a imagem de ti próprio, que era o reflexo de um coração onde não cabia o ódio nem a cobardia.» Mais à frente, acrescentava: «Vejo-te ainda... e sempre! Como um desses homens que traz o futuro no coração, e para quem o futuro não é essa coisa mesquinha do egoísmo individual.»

Sobre ele escreveram também talentosos poetas: José Gomes Ferreira – «Volta-te e olha para a terra – a carne da tua sombra de flores acesa/ Céu para quê?/ O céu é para os que esperam./ E tu morreste por uma certeza.»; Carlos de Oliveira – «Mais vivo porque sofreste/ a morte não veio, foi-se./ A eternidade constrói-se/ na beleza com que viveste.»; e Sidónio Muralha – «Largos versos irrompem do teu silêncio de granito./ e tu vives inteiro em cada grito/ tu que foste maior que todas as poesias.»



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