- Edição Nº1912  -  22-7-2010

Conferência de Cabul
Ocupação eternizada

A conferência internacional de Cabul, realizada na terça-feira na capital afegã, admitiu a entrega de algumas zonas às forças do país, mas tanto Clinton como a Nato deixaram claro que não sairão do território.

Representantes de cerca de 60 países e organizações internacionais proclamaram o objectivo de entregar o controlo de todas as províncias às autoridades afegãs até ao final de 2014, segundo se afirma no comunicado final desta «conferência de doadores».

Contudo, Hilary Clinton, confirmando a data de Julho do próximo ano para o início de uma retirada das tropas norte-americanas, fez questão de esclarecer que «esta data é o princípio de uma nova fase, não o fim do nosso envolvimento».

E para que não ficassem dúvidas, a chefe da diplomacia do EUA acrescentou: «Não temos qualquer intenção de abandonar a nossa missão a longo prazo com vista a um Afeganistão estável, seguro e pacífico».

A presença norte-americana no país a «longo prazo» é assim o objectivo da administração Obama que, numa fase pós-guerra, pretende «prosseguir a ajuda ao desenvolvimento económico, o apoio ao treino, equipamento e assistência das forças de segurança afegãs», reforçou ainda Clinton.

De resto, mesmo a data para a dita «transição» também não é um dado adquirido. Clinton referiu-a como «uma transição para as forças de segurança afegãs responsável e associada a condições», ou seja, tudo dependerá da evolução da situação militar no terreno.

Em sintonia com as palavras da senhora Clinton, o secretário-geral da NATO afirmou que «a transição será feita gradualmente, com base numa avaliação da situação política e de segurança, de modo a que seja irreversível». Após o seu termo, prosseguiu Anders Fogh Rasmussen, «as forças internacionais não partirão. Passarão simplesmente a um papel de apoio».

Retirada sem data

A incerteza das potências ocupantes é de tal modo grande que a retirada das tropas não passa de uma mera declaração de intenções, sem data marcada, destinada apenas a acalmar as opiniões públicas internas.

A prová-lo está a resposta evasiva do primeiro-ministro britânico, David Cameron, que se limitou a dizer que pretende que o regresso das tropas do país comece a ser organizado antes das eleições de 2015 no Reino Unido.

Após nove anos de combates, no Afeganistão encontram-se actualmente 150 mil militares de vários países que integram a NATO. Os combates prosseguem com uma intensidade crescente provocando baixas sem precedentes nas forças da «coligação».

No próprio dia da conferência dois soldados das forças internacionais foram vitimados por minas no Sul do país. Durante a noite travaram-se intensos combates em Cabul. Vários rockets atingiram o bairro do aeroporto, afectando o tráfego aéreo e impedindo alguns representantes de aterrarem na capital, como foi o caso do secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, e do chefe da diplomacia sueco, Carl Bildt, que tiveram de recorrer à base americana de Bagram, a 50 quilómetros a Sul da capital.

Desde o início do mês 60 militares estrangeiros encontraram a morte em terras afegãs, depois de em Junho as baixas se terem elevado a 102, um número recorde. Só este ano perderam a vida 302 militares da coligação. As forças talibãs actuam em quase todo o território apesar do reforço contínuo dos contingentes internacionais, em particular do americano.