Editorial

«A opinião do PCP é tratada de acordo com o critério informativo dominante»

DESINFORMAÇÃO ORGANIZADA

Numa situação caracterizada por uma profunda crise económica e social, por um violentíssimo ataque aos direitos dos trabalhadores e da imensa maioria dos portugueses, e por sistemáticos atentados à independência e soberania nacional – e cujas perspectivas futuras se apresentam mais do que sombrias, especialmente se tivermos em conta o recente entendimento entre o PS e o PSD em torno dos famigerados PEC’s – o PSD desencadeou mais um processo de revisão constitucional, o oitavo desde que a Constituição da República Portuguesa foi aprovada em 2 de Abril de 1976.

Tal facto passou a ser, desde o início, tema preferencial e destacado da generalidade da comunicação social dominante, relegando para segundo plano todas as grandes questões decorrentes da grave situação que o País atravessa.

Os analistas, politólogos e comentaristas de serviço – todos com lugar cativo nos média dominantes para, aí, produzirem opinião comum favorável à política de direita – deitaram mãos à tarefa de debater a proposta de revisão do PSD e, convergindo ou divergindo nas opiniões expressas (para o caso tanto faz), chegaram, mais ou menos consensualmente, à conclusão (e isso é que interessava) de que todos os males que flagelam Portugal e os portugueses têm origem na actual Constituição da República. Portanto...

Ao mesmo tempo, o PS aproveitou a ocasião para exibir a sua máscara de esquerda – que tantos e tão bons serviços tem prestado, nos últimos 34 anos, à farsa da «alternativa» com a qual a política de direita tem vindo a impor-se - e responder com um indignado «não!» ao projecto de revisão apresentado pelo PSD –  o «não!» ao qual, à semelhança do que aconteceu nas anteriores revisões, se sucederá o habitual e inevitável «sim!»…

E estas têm sido as grandes notícias dos últimos dias.

 

É claro que a opinião do PCP sobre o assunto tem sido tratada pelos média dominantes de acordo com o critério informativo dominante no que respeita à actividade política e às propostas dos comunistas – propostas que são, regra geral, ocultadas, menorizadas ou deturpadas; actividade política que, não obstante ser maior do que a soma das actividades de todos os restantes partidos, é criteriosa e organizadamente silenciada; propostas e actividade submetidas aos tratos de polé da desinformação organizada reinante.

Vimos, há dias, o tratamento dado à conferência de imprensa na qual o PCP analisava a política cultural do Governo PS/José Sócrates e denunciava a manobra do falso recuo do Governo: silêncio geral e absoluto em todos os jornais, rádios e televisões, como se em todos eles vigorasse a glosa de um  célebre dito: «mal ouço falar de cultura, puxo logo… pela censura».

Vimos, logo a seguir, o tratamento dado à informação, transmitida em conferência de imprensa, sobre a Festa do Avante: na maioria dos casos, meia dúzia de linhas bem escondidas e só visíveis para quem, com muita paciência e forte lupa, tenha procurado a notícia.

E no entanto, estamos a falar daquela que é, incontestavelmente, a maior iniciativa política, cultural e convivial realizada no nosso País, uma realização que, durante três dias, faz da «Quinta da Atalaia o espaço com maior índice de fraternidade por metro quadrado existente em Portugal».

Mas são os comunistas – com o seu trabalho voluntário, a sua criatividade, a sua militância – que fazem a Festa. E isso é coisa que os média do grande capital não perdoam.

 

Voltando ao tema do momento e que tem feito as delícias dos média dominantes, ou seja ao projecto de revisão constitucional apresentado pelo PSD: acima se disse que os média não falam de outra coisa – e agora se acrescenta, quase desnecessariamente: salvo se for o PCP a pronunciar-se sobre a matéria.

Veja-se o silenciamento (quase) total a que a generalidade desses média remeteu as declarações do Secretário-geral do PCP, proferidas na conferência de imprensa da passada quinta-feira.

Percebe-se que não lhes interesse que os portugueses sejam alertados para o facto de, como sublinhou Jerónimo de Sousa, a grave situação em que o País se encontra não decorrer da existência da Constituição mas sim da sua constante violação e incumprimento e, portanto, de mais de três décadas de governos PS e PSD (às vezes com o CDS-PP) a praticarem uma política contrária ao espírito e à letra da Lei Fundamental do País, tanto no domínio económico como social e cultural.

Percebe-se que não lhes convenha que se saiba que a saída de grave crise em que Portugal e os portugueses estão mergulhados não só não passa pela ruptura com a Lei Fundamental do País, mas passa, isso sim, por uma ruptura com a política de direita que conduziu Portugal à dramática situação económica e social existente.

Percebe-se que não lhes agrade ver desmascarada a farsa de que PS e PSD são protagonistas, fingindo divergências e simulando desacordos para melhor levarem a água ao moinho dos dois através dos habituais acordos em todas as questões essenciais.

E percebe-se que, acima de tudo, fujam a sete pés da confirmação de que o PCP está na primeira linha da luta pela defesa da Constituição da República Portuguesa o que, nas circunstâncias actuais, significa estar na primeira linha da luta contra a política de direita com a qual o Governo PS/José Sócrates, com a apoio activo do PSD/Passos Coelho, aprofunda as injustiças sociais, aumenta o desemprego e a precariedade, agrava as condições de trabalho e de vida dos trabalhadores e do povo, entrega a soberania e a independência nacional nas garras do grande capital internacional – e enche os bolsos aos chefes dos grandes grupos económicos e financeiros.


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