O espectáculo do espectáculo

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«Espectacular» é um termo que, há uma dúzia de anos, se introduziu no léxico das gerações mais novas. Impropriamente, pois que muitas vezes não se alude a algo que tenha a ver com um espectáculo propriamente dito, mas à qualidade de um acontecimento, de um objecto, de uma pessoa, de uma ideia. Espectacular como poderia dizer-se antes «porreiro», «fixe», «bestial», «fabuloso», «espantoso». É usado sempre com um sentido positivo e adjectiva quase sempre algo a que a gente adere sem reservas ou com muito poucas.

«Espectacular» é palavra que há muitos anos ouvimos dizer a quem visita ou participa na Festa do Avante! e pode aplicar-se a um petisco, a um debate, a uma exposição, a um convívio e... também a um espectáculo propriamente dito.

O repórter, claro, deixa-se tentar pela espectacularidade desta iniciativa ímpar («espectacular») em Portugal (e na Europa, e no mundo) que são os três dias da Festa, nos planos culturais, políticos e de convívio. E, de passo em passo, vai-se apercebendo do espectáculo que a Festa toda é e assiste – e tantas vezes participa – no espectáculo, recolhendo-se outras tantas vezes para apreciar o espectáculo do espectáculo.

Isto é: desde a primeira hora, arredando-se um pouco para a penumbra onde toma notas – sobretudo recolhendo impressões, emoções e percepções várias.

Portanto, vejamos a Festa «de fora», assistindo ao espectáculo do espectáculo. Desde a primeira hora, em que o Secretário-geral do Partido, com vários membros dos organismos executivos do CC e da Direcção da Festa, fura a multidão que já se aglomerava na Praça da Paz enquanto mais gente ia descendo pela avenida juntando-se aos que aguardavam as palavras do dirigente comunista. Entre os muitos que procuravam perceber se estavam já mais ou menos visitantes do que no ano passado nesse primeiro momento e olhando em redor se iam «reconfortando» com a força que ali brotava, o repórter não fazia vaticínios, certo como estava, com tantas edições na memória de que a força da Festa vem em crescendo de há anos a esta parte. Mas o espectáculo mais «espectacular» era a grande participação da juventude. Hoje já não vale a pena sublinhar que nos três dias de Setembro, a Atalaia recebe a maior festa da Juventude. É a própria Festa da Juventude.

A abertura oficial, às 19 horas de sexta, já não é sequer um momento de partida para milhares de camaradas e de amigos que há meses labutam, em festa, na construção desta cidade do futuro. Mas aceitemos que o seja e vamos ver então o espectáculo massivo dos visitantes a folhear livros no grande pavilhão, ou a procurar CD’s ali ao lado; vamos andando e adiando uma refeição para mais tarde, para nos apercebermos das longas filas que rapidamente se desfazem e refazem, com a civilidade própria de uma iniciativa preparada por comunistas. Vamos discretamente apreciar os petiscos através dos cheiros vários e pelas expressões vivas dos que se sentam, copo numa das mãos, prato na outra, sorriso pronto e palavra audaz a falar de tudo o que vem à alma. Sigamos depois num passeio que se vai tornando difícil, até ao Palco 25 de Abril, onde os primeiros acordes clássicos da música nos contam como os eruditos vão às profundas origens buscar os sons mais populares e remotos e perenes para construir a obra e reparemos na vibração que atravessa a vasta praça onde muitos milhares de espectadores usufruem da arte e da cultura e atentemos na sua viva atenção, nos aplausos que fazem a multidão ondular. E, ao final dessa noite, a primeira, assistamos, bem abrigados da exuberância juvenil, ao «assalto» de milhares de jovens que, aos primeiros acordes da Carvalhesa, avançam impetuosamente para o centro do mundo que ali fora criado, para dançar a sua alegria e o seu espírito de luta. Deixemos então, para as reportagens das páginas seguintes, tudo o resto que, com sincero empenhamento, os nossos repórteres procuram mostrar ao leitor. Conscientes de que, por mais e melhor que tenham feito, não chegam aos calcanhares da realidade que ali foi vivida. Um adjectivo? Espectacular!

LM



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