Editorial

«Um ameaça e chantageia, o outro chantageia e ameaça»

A FARSA E OS FARSANTES

As «zangas» entre José Sócrates e Passos Coelho continuam a ocupar parte considerável do tempo e do espaço da comunicação social dominante: ditos e contra-ditos, ataques e contra-ataques, frases e contra-frases têm, todos os dias, honras de primeira página e são, por efeito de intencional manipulação, transformadas no que de mais importante acontece no País.

De quando em quando, uma (suposta) inconfidência parece baralhar um pouco a engrenagem manipuladora, mas logo todos se apressam a dar ao caso o tratamento adequado e tudo volta a entrar nos eixos – regra geral apimentando ainda mais a farsa. Foi o caso da revelação sobre os encontros secretos, entre os dois farsantes, que negociavam às escondidas enquanto, em público, representavam a farsa da «zanga» - contudo, num caso como no outro, sempre fiéis à sua dama de eleição: a política de direita.

Como já aqui sublinhámos, estas picardias não passam de um instrumento de diversão em relação às questões fulcrais que devem preocupar os portugueses. Na verdade o que acontece é que o PS/Sócrates quer o aval do PSD/Passos Coelho especialmente em relação às medidas mais gravosas; por seu lado, o PSD/Passos Coelho, estando totalmente de acordo com essas medidas, não quer, por razões que ele bem sabe, manifestar publicamente esse acordo, e tudo faz para vender a ideia de insuperáveis divergências. Assim, um ameaça e chantageia e o outro chantageia e ameaça.

Ambos sabem que o OE será aprovado e, com ele, virá o agravamento da situação do País e das condições de trabalho e de vida dos trabalhadores e do povo. Como aconteceu com o PEC e as suas medidas adicionais, que ambos aprovaram no meio da gritaria habitual – esse PEC que, tal como o PCP na altura sublinhou, não só não resolveu nenhum problema do País como os agravou todos.

Com esses duelos de saliva, e com a projecção nacional que os média dominantes lhes dão, o que pretendem é desviar a atenção dos portugueses das questões essenciais; incutir nos trabalhadores e no povo preocupações direccionadas num sentido contrário aos seus interesses; situar as causas dos problemas existentes em pretensas divergências partidárias, escondendo que as verdadeiras causas se situam na política que PS e PSD, alternadamente, têm vindo a fazer há 34 anos.

 

Para dar novo brilho à representação, chegou agora a OCDE que, em operação visivelmente articulada com o Governo, veio dizer o que os executantes da política de direita queriam ouvir e que os portugueses já não podem ouvir: que é imperioso impor aos trabalhadores e ao povo mais, maiores e mais pesados sacrifícios, sem beliscar minimamente os interesses dos grandes grupos económicos e financeiros – pelo contrário, assegurando a continuação do seu bem-estar, ou seja, o aumento dos seus lucros.

E como não podia deixar de ser, a OCDE fez questão de decretar que tais medidas são uma «inevitabilidade»...

A ideia da «inevitabilidade» é uma linha fundamental da ofensiva da ideologia dominante, com a qual pretende inculcar nos trabalhadores e nos cidadãos o tem-que-ser em que se sustenta a política de direita. A «inevitabilidade» é o desemprego, a precariedade, os baixos salários, os salários em atraso, as pensões e reformas de miséria, o roubo de direitos conquistados ao longo de décadas pela luta dos trabalhadores e consagrados na Constituição da República, a venda a retalho da independência e da soberania nacionais – e é, também, e sempre, sempre, o aumento dos lucros dos grandes grupos económicos e financeiros.

O vocábulo «inevitabilidade» passou a ser a cassete de todos os que, directa e indirectamente e das mais diversas formas, são protagonistas da política de direita.

A propósito das recomendações da OCDE, o editorial do Público de terça-feira passada, valorizava esta «ajuda que vem do estrangeiro para fazer sair do armário as medidas que toda a gente sabe serem inevitáveis».

Seria caso para perguntar ao editorialista, em primeiro lugar: «quem é toda a gente?»...- e, em segundo lugar: «inevitáveis para quê?».

Esta generalização da «inevitabilidade» como coisa assente e aceite por «toda a gente» constitui porventura o mais perigoso instrumento da actual ofensiva ideológica.

É na base dessa «inevitabilidade» que justificam a criação na generalidade das empresas de um ambiente de perseguições, ameaças, chantagens, represálias, com o qual, em frontal e ostensivo desrespeito pela Constituição da República Portuguesa, pretendem roubar aos trabalhadores todos os direitos, inclusive o direito de lutarem pela defesa dos seus direitos.

 

É enfrentando este quadro económica, social e politicamente complexo e cheio de atropelos à democracia, que os trabalhadores portugueses unem esforços e forças e prosseguem a sua luta contra a política ao serviço do grande capital e por uma política ao serviço dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País.

Uma luta que, não obstante as circunstâncias particularmente difíceis em que se desenvolve, tem vindo a fortalecer-se, a atrair mais e mais trabalhadores – particularmente jovens trabalhadores – num processo que nos permite dizer, mesmo escrevendo na véspera da jornada de 29, que ela foi seguramente uma poderosa manifestação da força dos trabalhadores, organizados na sua central sindical de classe, a CGTP-IN.

E que foi, para além disso, um ponto de partida para as importantes lutas do futuro imediato – lutas necessárias, indispensáveis, face à situação existente.

Lutas, essas sim, inevitáveis - para acabar com as «inevitabilidades» que sustentam a política de direita.


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