A resolução de muitos dos problemas ultrapassa o âmbito sectorial
Para responder ao ataque do Governo e do patronato
e para corresponder ao crescente descontentamento
Ampliar a luta dos trabalhadores

Após a jornada nacional de ontem - com duas grandes manifestações a perspectivarem-se para o Porto e para Lisboa, com início marcado para depois da hora de fecho da nossa edição -, reúne-se hoje o Conselho Nacional da CGTP-IN, que deverá decidir o prosseguimento da luta. Ao Avante! os coordenadores das duas uniões de sindicatos dos distritos onde o protesto ia mostrar-se nas ruas salientaram, como sentimento expresso durante a preparação desta jornada, a necessidade de prosseguir e ampliar a luta, dando-lhe outra dimensão.

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«A greve geral está na cabeça dos trabalhadores», sintetizou Libério Domingues. O coordenador da União dos Sindicatos de Lisboa considerou, anteontem à tarde, que as iniciativas de esclarecimento e mobilização para a jornada nacional de 29 de Setembro permitem fazer «um balanço positivo e muito forte». Se «a informação é difícil de cruzar», para dar fundamento a uma previsão objectiva, confiava que a participação na manifestação iria comprovar o que foi notado nas «muitas centenas de plenários e contactos» em locais de trabalho, no distrito.

Lisboa iria ter ontem a sua parte na greve nacional dos CTT (o SNTCT apresentou pré-aviso para esta empresa, bem como para a PT Comunicações e todas as outras onde tem associados) e concentrações sectoriais de trabalhadores da hotelaria e restauração, e dos estabelecimentos fabris do Exército. Libério Domingues referiu que «muitas greves» foram convocadas também noutros sectores, mas «privilegiando o período da tarde, para permitir a participação dos trabalhadores na manifestação».

Já no distrito do Porto, «com base nos plenários, nos contactos e nos compromissos assumidos pelos trabalhadores», João Torres elencou algumas empresas e esperados índices de adesão às greves de ontem, desde a Sakthi (90 por cento), até à Socometal, à Soares da Costa, à Groz-Beckert, à Inapal ou à Manitowoc (prevendo para estas duas a adesão de cerca de 40 por cento do pessoal). Dos oito distritos do Norte e Centro (Coimbra, Aveiro, Braga, Viana do Castelo, Bragança, Vila Real, Viseu e Guarda) onde o movimento sindical unitário apelou à participação na manifestação na Praça General Humberto Delgado, estava confirmada a deslocação em mais de 60 autocarros.

 

Muito trabalho realizado

 

O coordenador da União dos Sindicatos do Porto destacou o «muito trabalho sindical» realizado no período de preparação da jornada de ontem, com «centenas» de plenários realizados no distrito. João Torres - que, tal como Libério Domingues, faz parte do Comité Central do PCP - assinalou a «muita disponibilidade para a luta, em crescendo» e também «o muito repúdio pelas medidas em prática e outras que estão a ser negociadas» pelo Governo.

Nos plenários, estiveram em análise problemas sectoriais e de cada empresa ou serviço. Mas, acrescentou o dirigente da USP/CGTP-IN, «estes problemas são vistos pelos trabalhadores como reflexo das políticas que estão a ser seguidas e que funcionam como ancoradouro das posições patronais».

A este propósito, Libério Domingues deu conta de outra observação surgida nas reuniões: «A evolução da luta geral não pode estar dependente do andamento da luta sectorial», porque «a luta geral cria um momento de enlace, para dar expressão ao descontentamento dos trabalhadores» face a tudo o que ultrapassa o âmbito da sua empresa, serviço ou sector.

«Havia, em geral, dois pontos na ordem de trabalhos» dos plenários de trabalhadores, referiu o coordenador da USL/CGTP-IN, explicando que, primeiro, «tratava-se da reivindicação própria» e, de seguida, naturalmente se entrava na jornada de 29 de Setembro, pelos objectivos mais gerais, com os participantes a expressarem a ideia de ser necessário «ir mais além», embora com «diferenças, de uns sectores para outros». «A greve geral não foi tratada como única solução, ninguém disse "greve geral ou nada", mas a manifestação de disponibilidade para aderir é maior», precisou, admitindo que possa haver casos em que dizer «se todos fizerem greve, eu também faço» seja uma maneira de fugir à assunção de responsabilidades próprias. Mas, perante um contexto em que muito do que está em causa ultrapassa o âmbito sectorial ou da empresa, os trabalhadores «depois de dizerem "sim, nós aqui vamos para a luta", perguntavam "e os outros?".

Para Libério Domingues, «estão criadas condições para uma forma superior de luta», «a greve geral está a ganhar força no sítio onde ela se constrói, nos locais de trabalho» e «a decisão cabe à direcção, por muito difíceis que sejam as condições concretas».

É também na direcção da central que João Torres coloca a expectativa expressa na preparação desta jornada nacional, ou seja, «que o Conselho Nacional decida como continuar a luta e como a subir para um nível mais elevado, que até pode ser a greve geral».

Certamente com mais ânimo para prosseguir e ampliar a luta terão ficado os muitos milhares de trabalhadoras e trabalhadores que ontem saíram à rua, em Lisboa e no Porto, dando assim mais um passo na batalha pela mudança de política e pela construção de uma alternativa que sirva os interesses de quem trabalha e deixe de privilegiar o interesse de quem acumula cada vez mais riqueza, à custa da exploração do trabalho.

 

Objectivos justos

 

As palavras de ordem que marcaram a mobilização para 29 de Setembro reflectem objectivos justos, desenvolvidos mais recentemente pela CGTP-IN na definição da política reivindicativa para 2011.

Ao apelar à luta por «emprego, salários e serviços públicos, contra o desemprego e as injustiças», a central coloca na voz de muitos milhares de trabalhadores as suas reivindicações e propostas para combater a crise, criar emprego com direitos; assegurar o direito de contratação colectiva e pôr termo à caducidade das convenções; aumentar os salários, como imperativo nacional; combater a precariedade e melhorar a qualidade do emprego; efectivar as normas de trabalho; melhorar a protecção social, combater as desigualdades; apostar na educação, defender e consolidar o Serviço Nacional de Saúde; tornar o sistema fiscal mais justo.

E dá assim mais força ao combate contra o agravamento das condições de vida e a redução dos salários, por via de «políticas alternativas de efeitos opostos, no contexto de uma nova estratégia de desenvolvimento».

 

Marcar o tempo

 

Para amanhã, dia em que passam 40 anos desde a criação da CGTP-IN - assinalados com várias iniciativas, sob o lema «Marcamos o tempo com a luta de quem trabalha», que noticiamos na página seguinte -, está convocada uma grande assembleia de dirigentes e activistas sindicais. Vai decorrer na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, a partir das 10 horas e até cerca das 17.30. Com esta reunião, pretende-se que «se faça a afirmação do projecto sindical desta grande central sindical, se assumam os compromissos necessários para o seu prosseguimento e se afirmem os compromissos de acção e luta sindicais dos tempos próximos», como referia a resolução do Conselho Nacional de 13 Julho, que aprovou as acções a realizar, no seguimento do «dia nacional de protesto e luta», a 8 daquele mês.



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