Editorial

«Pela primeira vez, desde o 25 de Abril, um governo corta nos salários dos trabalhadores»

A RESPOSTA DOS TRABALHADORES

Um Orçamento de Estado que sirva os interesses dos trabalhadores, do povo e do País: eis o que deseja a imensa maioria dos portugueses. Quanto aos restantes, a imensa minoria composta pelos grandes grupos económicos e financeiros, o que querem é um OE que sirva os seus interesses exclusivos, que hipócrita e insolentemente designam por «interesse nacional».

Os partidos da política de direita – que há 34 anos andam a fazer e a aplicar OE’s à medida dos desejos do grande capital – simulam, agora, discordâncias e divergências insanáveis entre si, trocando acusações, ameaçando-se, um sacudindo a água do capote em relação às suas reais responsabilidades; o outro fazendo-se de vítima com a aprovação ou a rejeição do OE – ambos atirando areia para os olhos dos portugueses e procurando uma vez mais iludi-los, ou seja, ambos representando na perfeição os papéis que a cada um estão confiados.

E a prova de que estão ambos de acordo com o fundamental da política seguida e à qual o OE pretende dar continuidade agravada, é que, em toda esta guerra verbal não se lhes ouviu, nem a um nem a outro, uma só palavra sobre o corte nos salários, no subsídio de desemprego, no abono de família, o aumento do IVA, isto é, sobre qualquer das medidas que fazem recair sobre os trabalhadores e o povo as terríveis consequências da política de direita.

Essas são medidas com as quais ambos concordam plenamente, porque constituem a essência da política de direita comum aos dois, portanto medidas que serão aplicadas quer o governo seja de maioria PS quer seja de maioria PSD.

E, nessa matéria, como afirmou o secretário-geral do PCP, na importante intervenção proferida nas Jornadas Parlamentares do Partido, em Santarém, em última análise quem decidirá se o OE é ou não viabilizado, não são os executantes mas os mandantes – consoante o cavalo em que, na actual conjuntura, decidirem apostar…

 

Entretanto, enquanto PS e PSD gritam e esbracejam, as consequências dos sucessivos PECs fazem-se sentir drasticamente no agravamento das condições de trabalho e de vida dos portugueses. Registe-se que o PEC 3 vai mais longe do que todos os pacotes de medidas que o antecederam e entra por caminhos bem elucidativos sobre as intenções futuras da política de direita e do seu OE: pela primeira vez, desde o 25 de Abril, um governo decide cortar nos salários dos trabalhadores, o que constitui um novo e grave passo em frente da política de direita. Acresce que eles próprios reconhecem que as medidas tomadas não resolveram nem resolverão nenhum dos grandes problemas existentes. Eles próprios dizem que tudo se agravará em 2011, e em 2012, e…

Tudo se agravará para os trabalhadores e para povo, claro; porque para os grandes grupos económicos e financeiros as perspectivas continuam a ser risonhas – como o são desde que, em1976, o governo PS/Mário Soares iniciou a política de recuperação capitalista, agrária e imperialista.

Da parte do PS como do PSD, a única política que se pode esperar é o mais do mesmo com que há 34 anos ambos têm vindo a flagelar Portugal e os portugueses, conduzindo à dramática situação actual. E é certo que quando se acusam um ao outro de responsáveis por essa situação, ambos estão cheios de razão. Pode dizer-se, mesmo, que têm a razão toda do lado deles, porque de facto, são eles – e só eles – que há mais de três décadas sucessivas ocupam o poder. Um e outro mostraram o que valem: e o que valem é o estado de desgraça a que fizeram chegar o País.

Percebe-se, assim, o interesse que têm os executantes e mandantes da política de direita, em fazer crer que não há alternativa ao mais do mesmo, em difundir a falsa ideia de que esta política de afundamento de Portugal é uma «inevitabilidade» à qual não há alternativa.

Ora, como o PCP tem vindo a demonstrar, há uma alternativa. Como afirmou Jerónimo de Sousa na intervenção acima referida, «apoiar e valorizar prioritariamente o Portugal que produz, assegurando uma justa repartição da riqueza criada é a grande alternativa à política de contínuo empobrecimento dos portugueses, de endividamento do País, de destruição do seu património colectivo, de direitos e vidas a que assistimos».

Assim, lutar pela concretização dessa política alternativa e pela construção da necessária alternativa política é a grande tarefa que se coloca aos portugueses.

 

Neste contexto, a Greve Geral convocada pela CGTP-IN para o dia 24 de Novembro, assume enorme relevância.

Trata-se da resposta dos trabalhadores face à brutal ofensiva dos sucessivos PEC’s; contra tudo o que de muito grave e negativo está em preparação a partir do OE; e por uma mudança de rumo que conduza o País na senda do desenvolvimento, do progresso, da justiça social, da independência e da soberania nacionais – uma resposta que as circunstâncias exigem que seja forte e massiva.

Trata-se, também, de uma resposta inequívoca dos trabalhadores às teses da resignação e da passividade exaustivamente difundidas pelos ideólogos da política de direita.

Trata-se, por isso, de uma jornada de luta cuja preparação requer a prioridade das atenções e dos esforços das diversas organizações representativas dos trabalhadores, de forma a assegurar o seu êxito e a, simultaneamente, criar condições para as necessárias e indispensáveis lutas futuras.

Como sempre, o colectivo partidário comunista encontra-se na primeira fila desse esforço de preparação da Greve Geral, com o empenhamento, a determinação e a confiança que são a sua maneira específica de se entregar à luta – e com a consciência da importância determinante do seu contributo.


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