«A Coreia do Sul admitiu ter disparado primeiro»
Península Coreana
Washington e Seul elevam tensão

Os EUA e a Coreia do Sul iniciaram, domingo, manobras militares no Mar Amarelo, operações consideradas pela Coreia do Norte como uma «provocação». A China não encontra eco no apelo para o reinício do diálogo.

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Foto LUSA

Quase uma semana depois da troca de tiros entre a Coreia do Sul e a República Popular Democrática da Coreia, Washington e Seul iniciaram manobras navais ao largo da Península Coreana.

Os «jogos de guerra» envolvem o porta-aviões norte-americano George Washington, com capacidade para lançar armas nucleares. O vaso de guerra transporta ainda 75 aviões, entre os quais um par de caças-bombardeiros, e é acompanhado por outras cinco embarcações armadas com dispositivos de lançamento de mísseis, e por um avião de comando e vigilância de alvos terrestres. A Coreia do Sul acompanha o seu aliado com seis navios de guerra.

Em face deste dispositivo, o governo da República Popular Democrática da Coreia (RPDC) considerou os exercícios militares «uma provocação e um crime» que precipitam a região para a guerra, para mais quando o Mar Amarelo é um «local crítico» e o contexto é potencialmente «explosivo».

As autoridades de Pyongyang advertem ainda que responderão «sem piedade» a qualquer ataque ou violação do seu espaço marítimo por parte dos EUA e da Coreia do Sul.

 

Ameaça à China

 

Assumindo uma postura de contenção, a China procurou, domingo, aliviar a tensão regional chamando os envolvidos ao diálogo. As consultas de emergência a seis (coreias do Sul e do Norte, EUA, Japão, Rússia e China) teriam lugar no início de Dezembro, e serviriam para «partilhar pontos de vista».

«Embora as consultas propostas não signifiquem a retoma das negociações entre os seis países, esperamos que elas criem condições para esse reinício», explicou um responsável diplomático chinês. Mas o apelo de Pequim não encontrou eco.

A Coreia do Sul não considerou o encontro de delegações oportuno, enquanto que o Japão se comprometeu a examinar a questão sem, embora, ter dado um sinal de celeridade ou empenho. Os EUA, por seu lado, dizem que tal representaria uma recompensa para a Coreia do Norte que, consideram, demonstrou «mau comportamento».

Mas por de trás destas recusas parece estar mais que a RPD da Coreia. Nos últimos dias, Washington e Seul têm vindo a pressionar a China para que adopte «um outro comportamento» face a Pyongyang, o que Pequim rejeitou prontamente.

Acresce que os exercícios navais no Mar Amarelo são igualmente delicados para a China, de tal forma que o governo deste país sentiu a necessidade de alertar que não toleraria «qualquer acção militar não autorizada dentro da sua Zona Económica Exclusiva».

Muito embora o Pentágono tenha sublinhado que as manobras eram de carácter defensivo, o Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês reiterou que, dada a sensibilidade da situação, «todas as partes devem dar provas de contenção, trabalhando para a manutenção da paz e da estabilidade, e não o contrário».

 

Versões diferentes

 

O conflito na Península Coreana agravou-se no início da semana passada depois da Coreia do Sul e de a RPD de a Coreia terem trocado tiros de canhão. A versão mais amplificada induz que a Coreia do Norte terá bombardeado a ilha de Yeonpyeong sem qualquer motivo que não o de provocar o vizinho do Sul.

No ataque morreram dois civis e dois soldados, e outras 20 pessoas terão ficado feridas. As cerimónias fúnebres dos marinheiros foram transmitidas em directo pela televisão sul-coreana, entre promessas de vingança e apelos à guerra vindos das mais altas chefias militares de Seul.

Começando pelas vítimas, a RPD da Coreia veio lamentar as mortes e acusou a Coreia do Sul de usar civis como escudos humanos com o objectivo de «dar a impressão de que civis indefesos foram expostos a um “bombardeamento cego”». Para Pyongyang, este é o resultado da colocação de habitações junto a campos de artilharia.

Outro dado importante nesta história é que as águas em torno da ilha de Yeonpyeong são alvo de disputa entre as duas coreias, e, por isso, qualquer exercício militar na região é uma potencial provocação. Ora foi isso que, dizem os norte-coreanos, aconteceu na terça-feira, 23 de Novembro.

Após o bombardeamento da ilha, a RPDC emitiu um comunicado dando nota de que «apesar das nossas repetidas advertências, os títeres sul-coreanos agravaram a situação na península coreana, realizando um exercício bélico denominado Hoguk, cometendo a imprudente provocação militar de disparar, a partir das 13h00, dezenas de obuses contra as águas jurisdicionais da nossa parte nos arredores de Yeonpyeong».

Mas não foi apenas o governo da RPD da Coreia quem notou que os primeiros a disparar foram os sul-coreanos. De acordo com informações (pouco) difundidas por meios de comunicação social três dias após o incidente, o próprio executivo de Seul reconheceu que, na zona de fronteira, as suas forças armadas realizavam testes de tiro, os quais, ao caírem nas águas territoriais da República do Norte, «podem ter sido interpretados como um ataque».

Acresce que a resposta da RPD da Coreia ocorreu mais de uma hora e meia após os disparos sul-coreanos, tempo suficiente para, em caso de engano, comunicar o erro e reparar o sucedido, evitando a escalada da violência a que agora assistimos.



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