• Correia da Fonseca

Como bichos

Lembro, ainda que não com exactidão quanto às palavras e mesmo quanto ao enquadramento do episódio no fluxo narrativo, que em certa página do romance «Alcateia», de Carlos de Oliveira, um dos personagens, apercebendo-se de que a vida se lhe iria acabar em lugar ermo, pensava que «iria morrer sozinho, como um bicho». Não posso garantir o rigor da citação que deixo aqui porque «Alcateia» há muito tempo desapareceu do mercado, creio que até por opção do autor, e da estante onde guardo os meus livros, neste caso seguramente contra a vontade do proprietário, mas não tenho dúvidas quanto à fidelidade da memória que guardo da frase, mais palavra, menos palavra. E foi precisamente essa memória que me revisitou agora, quando a televisão começou a informar-nos de que foram recentemente encontrados dois, três, cinco idosos que morreram sozinhos, não em descampados mas em suas casas, se é que em todos os casos a palavra «casa» se justifica plenamente. Que morreram, pois, como bichos, como lucidamente reflectira a figura criada por Carlos de Oliveira. E a mesma memória voltou e reforçou-se quando a televisão me deu conta de um comunicado da PSP em que se informava o País de que muitas mais mortes em circunstâncias idênticas, isto é, em velhice e solidão, ocorrem regularmente sem que a comunicação social dê por elas. Pelo que, bem se vê, à solidão e à velhice se acrescentam o silêncio e a consequente indiferença do resto da comunidade que nem sequer dá pelo acontecido.

 

O que se sabe

 

É claro que por esse Portugal fora haverá mais gente que morre sozinha. Alguns por vontade própria, e quanto a esses casos é adequado lembrarmos que tem vindo a subir a taxa de suicídios no Alentejo, terra onde é antiga e tristíssima tradição que uns tantos, talvez muitos, sempre de mais, prefiram a morte à esmola. Outros por acidente, e entre esses é preciso lembrar os que a si próprios involuntariamente se vitimizam por overdoses. Mas não é desses que a televisão tem vindo a falar-nos, embora porventura devesse fazê-lo, é dos que morrem velhos e de tal modo sós que, como é sabido, num dos casos noticiados a descoberta do corpo, ou melhor, dos seus restos mortais, só ocorreu uns nove anos mais tarde. Num outro dos casos, se bem me lembro, decorreram trinta dias entre a morte e o macabro encontro. Dos muitos restantes não se sabe quanto tempo os mortos tiveram de esperar, digamos assim, para que os vivos tratassem de lhes dar o destino último. Mas sabe-se qualquer coisa. Sabe-se que a solidão dos velhos não resulta da sua própria vontade, salvo eventuais excepções, mas do facto de serem factualmente expulsos da sociedade que durante décadas integraram: os que ainda não são velhos (e que em certos casos parecem supor que a velhice nunca lhes baterá à porta) não têm condições para cuidar deles ou rendem-se, por vezes apressadamente, ao convencimento dessa impossibilidade; a comunidade representada pelo Estado paga-lhes uma reforma insuficiente ou miserável e muitas vezes por aí se fica; os filhos e parentes próximos, quando os haja, frequentemente se acantonam na tarefa aliás muitas vezes difícil de tratar das suas próprias vidas. Mas sabe-se mais. Que muitas vezes os velhos se isolam entre quatro arruinadas paredes como numa toca porque não têm os cêntimos mínimos que os estimulariam a sair delas; que neste nosso País europeu há meio milhão de velhos imersos na condição técnica de pobreza; que tem vindo a crescer a pressão implícita ou explícita para que se aceite que o problema dos velhos sós e pobres seja uma questão a resolver pela solidariedade privada, isto é, pelos bons corações se os houver e quantos haja. E vai-se sabendo ainda mais, não por uma via claramente explícita mas em consequência de informações e notícias quotidianas que vão construindo os nossos convencimentos ainda que não demos por isso: que o Estado crivado de dívidas, à beira de uma falência que seria um horror, não pode nem pensar em gastar com os velhos mais dinheiro do que já gasta, ou dispensar-lhes atenções que afinal resultariam em despesas, ele, o «Estado despesista» todos os dias denunciado pelos medinas carreiras que não abdicam de interessantes reformas. Isto além de saber-se, é claro, que «o País está envelhecido», quer dizer, que há velhos a mais que são factor negativo, peso improdutivo, estorvo. Pelo que a única solução na verdade à vista é que morram. Depressa. Ainda que sozinhos. Como bichos.



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