• João Ferreira

Comentário
O charco e a diferença

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1. A um mês e meio das eleições, escurecem as águas do charco em que se movem protagonistas e figurantes da política que conduziu o País ao desastre.

A farsa, a mentira e a vulgar encenação sobrepõem-se ao exame rigoroso dos problemas nacionais e ao debate informado sobre as suas causas e soluções.

A realidade é convenientemente truncada, deformada, dramatizada, com o intuito de inculcar na generalidade da população a ideia da inevitabilidade das políticas que irão degradar (ainda mais) as suas condições de vida; e que são, afinal de contas, as mesmas que foram prosseguidas até agora, mas em dose reforçada.

Multiplicam-se as manobras para encaminhar por vias inconsequentes a torrente de justa indignação e de revolta que percorre o País. São os apelos à «greve à democracia», à abstenção ou ao voto em branco dos descontentes; para que os outros – os que razões têm para estarem satisfeitos com a actual situação – continuem levando a água ao seu moinho, votando, eles sim, nos mesmos que ao longo dos últimos 35 anos têm diligentemente defendido os seus interesses.

A televisão pública, dia sim dia sim, dá a palavra a banqueiros e milionários – cuja riqueza foi edificada, nuns casos, sobre o esbulho do património público e, sempre, à custa da exploração e da miséria de muitos – que, compungidos, debitam receitas para «tirar o país da crise». Ao mesmo tempo, silencia-se as vozes que apontam um caminho diferente, que não passe pela intervenção externa do FMI e da União Europeia.

Multiplica-se os apelos à «união nacional», visando a aceitação pacífica e ordeira da ingerência externa, do esbulho, da injustiça e da exploração, tudo a fazer lembrar outra «União Nacional» e o «tudo pela nação, nada contra a nação» que, noutros tempos, serviram os mesmos interesses...

 

2. As circunstâncias da vida nacional e o contexto europeu e mundial em que se inserem, e que são delas indissociáveis, conferem ao tempo que vivemos um carácter excepcional. Impõe-se reconhecê-lo, compreender as suas determinantes, ler as suas contradições e nele agir, de forma decidida e combativa. Lutando por objectivos imediatos, sem perder de vista a luta política e ideológica mais ampla, por uma alternativa de fundo, que abra caminho à concretização do projecto libertador e de emancipação de que somos portadores: o socialismo.

A agudização do confronto de classes, que marca este tempo, comporta uma inquietante possibilidade real de agravamento das condições de vida de amplas camadas da população; uma possibilidade mesmo de regressão civilizacional, procurando forçar um novo patamar, mais elevado, de exploração dos trabalhadores e dos povos.

Mas, inevitavelmente, esta agudização do confronto elevará também a própria luta de classes a um outro patamar. Por esta razão, ela comporta também, indiscutivelmente, possibilidades de avanço libertador, progressista e democrático.

À entrada desta segunda década do século XXI, são por isto tremendos os desafios que se colocam aos comunistas e a todos quantos lutam para transformar o mundo e a vida.

 

3. A política patriótica e de esquerda, que o PCP e os seus aliados no quadro da CDU propõem ao povo português, resulta da análise que fazemos da realidade nacional, indissociável da situação e evolução da União Europeia e da fase actual de desenvolvimento da crise do capitalismo. É neste contexto que as tentativas de submissão nacional – patentes na chamada «governação económica», no «Pacto para o Euro Mais» ou nas intervenções FMI-UE ditas de resgate – se revestem de capital importância, sendo agora levadas mais longe do que nunca até aqui. Para o capital (nacional e transnacional) torna-se imperioso retirar aos povos tanta margem de decisão quanto possível nas escolhas a efectuar nos planos económico, social e político; torna-se premente limitar e impedir todo e qualquer desenvolvimento fora ou contra a lógica do sistema, seja na Grécia, na Irlanda, em Portugal ou em qualquer outro país.

Esta política patriótica e de esquerda, que agora apresentamos, reflecte a compreensão – sublinhe-se, única no quadro partidário nacional – desta realidade.

A sua concretização, como um objectivo imediato, está intimamente associada ao trabalho que o Partido tem vindo a desenvolver de fortalecimento da luta de massas, de alargamento da frente social de luta e de construção das alianças sociais que permitam abrir caminho à alternativa política que a viabilize. É um trabalho que exige firmeza, persistência e sobretudo coragem – para uma luta que prossegue para lá do dia 5 de Junho.



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