• Gustavo Carneiro

O comunista António Tavares morreu há 60 anos
Um crime premeditado do fascismo

Por mais que o tentem esconder alguns notáveis «historiadores» da nossa praça, o fascismo de Salazar e Caetano assassinou muitos daqueles que se lhe opunham de forma consistente e organizada, em particular os comunistas. Os métodos eram variados e iam da tortura até à morte ao assassinato a tiro em plena rua. Mas houve outro método, porventura mais hipócrita mas igualmente letal: com a saúde arrasada em resultado das violentas torturas ou da falta de assistência médica, muitos antifascistas foram mandados para casa para morrer. O vilafranquense António Tavares (Tomé) foi um destes mártires. Ainda não tinha 29 anos.

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Provavelmente o nome não é familiar a muitos dos leitores do nosso jornal, mas António de Assunção Tavares foi um dedicado militante comunista de Vila Franca de Xira que o fascismo assassinou na força da vida. Com apenas 29 anos, Tomé (nome que adoptou na clandestinidade) tinha um valioso percurso de luta em prol da classe operária, que era a sua, e da transformação do PCP no grande partido da resistência antifascista.

As torturas que sofreu e a falta de assistência médica na prisão encurtaram-lhe a vida – mas a causa a que se dedicou desde tenra idade prosperou. Vila Franca de Xira continuou a dar, como até aí, valiosos combatentes ao Partido Comunista Português e à luta antifascista, inspirados também pelo seu exemplo, confirmando o que escreveria mais tarde José Dias Coelho, também ele assassinado pela PIDE: «de todas as sementes deitadas à terra, é o sangue derramado pelos mártires que faz levantar as mais copiosas searas.»

 

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Um assassinato da PIDE

 

As circunstâncias da morte de António Tavares são contadas por António Dias Lourenço, também ele vilafranquense, no seu livro Vila Franca de Xira – um Concelho no País (editado pela Câmara Municipal). Relata o histórico dirigente comunista que «um jovem operário da Cimento Tejo e natural de Vila Franca tuberculizou na Cadeia do Forte de Caxias de onde foi libertado para que a sua morte não ocorresse na prisão».

Numa sessão realizada recentemente pela Comissão Concelhia de Vila Franca de Xira do PCP, Domingos Abrantes, do Comité Central, corroborou aquela opinião: «Apesar do seu grave estado de saúde, a PIDE recusou-se a prestar-lhe qualquer assistência médica ou medicamentosa». António Tavares terá pedido com insistência que lhe fossem entregues os medicamentos de que carecia e que tinha em seu poder na altura em que foi preso, mas sempre a polícia política se recusou a fazê-lo com o argumento de que os medicamentos, por pertencerem à organização subversiva denominada Partido Comunista Português, tinham que ser apreendidos.

Ao negar a assistência a António Tavares, a PIDE matou-o. E sabia que o fazia, pois outros morreram da mesma causa, antes e depois dele. Carlos Pato, por exemplo, seu companheiro de luta e de Partido, também ele de Vila Franca de Xira, depois de violentamente torturado, agonizou durante dias sem qualquer assistência – acabando por sucumbir de uma crise cardíaca agarrado às grades da prisão de Caxias, segundo conta Dias Lourenço. À memória vem o aviso do primeiro médico do Campo de Concentração do Tarrafal, Esmeraldo Pais Prata: «Não estou aqui para curar, mas para passar certidões de óbito.» E passou muitas.

Após sair da prisão, António Tavares tinha a saúde arrasada, recolhendo a casa dos seus pais, onde viria a morrer a 1 de Fevereiro de 1951. Tal como sucedeu com as cerimónias fúnebres de Carlos Pato e também de Soeiro Pereira Gomes, o funeral de António Tavares constituiu uma grande manifestação de dor e pesar do povo de Vila Franca de Xira, mas também de ódio ao fascismo. O mesmo Dias Lourenço conta que o cortejo (que chegou a ser referido no Diário de Notícias) foi filmado por agentes da PIDE e que mesmo altos dirigentes fascistas locais, para sacudir a sua responsabilidade, decidiram participar no funeral e fizeram mesmo um dos turnos junto à urna. «Um grito se ouviu então na multidão: “Amnistia! Amnistia!”», refere-se no livro. O orador que estava indicado para falar no funeral não o quis fazer devido à forte presença policial, mas um jovem de nome Jorge Tarracha assumiu a responsabilidade de tomar da palavra para exaltar o «exemplo de valor e modéstia de António Tavares», descreve ainda Dias Lourenço.

Uma vida combativa e combatente

 

Parte importante da sua curta vida (morreu à beira de completar 29 anos) consagrou-a António de Assunção Tavares à luta da classe operária e do seu Partido, o PCP. Nascido em Fevereiro de 1922 em Vila Franca de Xira, começou a trabalhar cedo, mal terminou a instrução primária, na fábrica Cimentos Tejo, em Alhandra. Foi aí, testemunhando e sofrendo ele próprio as duras condições de trabalho e reforçando os laços com os seus companheiros de classe, que forjou a sua consciência social e política. Tal como Soeiro Pereira Gomes, por exemplo. A adesão, no final dos anos 30, à Federação da Juventude Comunista, e ao PCP, em 1940, dão solidez à opção que há muito tomara.

Segundo afirma António Dias Lourenço na obra já referida, António Tavares «foi um dos organizadores e activistas das greves e 8 e 9 de Maio de 1944» naquela região. O Avante! da primeira quinzena de Maio desse ano referiu-se deste modo a essa jornada: Dezenas de Milhares de Operários e Camponeses Lutam pelo Pão. Já na segunda quinzena desse mês, o órgão central do PCP especificava que «os operários de Sacavém, Alhandra, Santa Iria e Póvoa colocaram-se, nas jornadas de 8 e 9 de Maio, na vanguarda da classe operária portuguesa», lembrando as paralisações do trabalho em diversas fábricas, entre as quais a Cimentos Tejo. Foram mais de 1500 operários a declarar-se em greve em Alhandra logo no dia 8.

O movimento grevista culminou com uma vitória, pelo menos parcial, noticiou o Avante! da primeira quinzena de Junho: para além de aumentos salariais em várias fábricas, Salazar anunciou a 28 de Maio o aumento da quantidade de pão fornecido aos trabalhadores.

Foi precisamente durante esta jornada de luta que António Tavares foi preso pela primeira vez. Juntamente com outros 300 manifestantes, foi encerrado na Praça de Touros de Vila Franca e depois no Campo Pequeno, antes de ser transferido para Caxias. Submetido a violentas torturas e maus-tratos, começa a debater-se com graves problemas de saúde.

Libertado em finais desse ano de 1944, passa à clandestinidade sob o nome de Tomé e, em Maio de 1945, está à frente da organização das Grandes Marchas da Vitória contra o Fascismo, por ocasião da derrota do nazifascismo na guerra. Em Agosto desse ano, cai novamente nas garras da PIDE. Ficaria preso durante três anos, ao longo dos quais a sua saúde se degrada rapidamente. O resto da história já conhecemos.

António Assunção (Tomé) deixa ainda o seu nome ligado ao movimento associativo e cultural da sua terra, que viu nascer o neo-realismo e florescer nomes como Soeiro Pereira Gomes ou Alves Redol. António Tavares praticou futebol no Operário Vilafranquense e distinguiu-se na criação e nas actividades da Comissão Pró-Biblioteca e na organização dos Serões Culturais que marcaram aquela época em Vila Franca de Xira.



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