• Texto: Hugo; Fotos: Inês Seixas e Lusa

«Se a Líbia é dirigida por Kahdafi ou não, compete aos líbios decidir»
Conversa com Silas Cerqueira sobre a agressão à Líbia
O imperialismo quer subjugar<br>um país rico e soberano

Recentemente regressado da Líbia, onde participou numa Conferência Internacional promovida pela Associação de Advogados e Juristas do Mediterrâneo, Silas Cerqueira sublinhou ao Avante! a necessidade da mobilização pelo fim imediato dos bombardeamentos, alertou para a possibilidade do início de uma terceira fase na agressão ao povo líbio, e salientou algumas das razões que estão na base da campanha imperialista contra o território.

 

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«Não estamos no fim de uma guerra fria,

estamos talvez na véspera de uma guerra quente»

 

 

 

Silas Cerqueira,

Jornal de Angola,

25 de Janeiro de 1990


A conversa com o professor, investigador e militante comunista com mais de meio século de actividade em defesa da paz, do progresso, da solidariedade e da cooperação entre os povos ocorreu um mês e meio depois da sua presença na Líbia. Mas não é por isso que Silas Cerqueira deixa de conservar intactas a indignação para com a barbárie que o imperialismo ali comete desde 19 de Março, a acutilância dos factos que revelam as consequências e as verdadeiras razões de mais uma campanha militar liderada pela NATO, e a nítida análise da situação que naquele país se tem vivido.

Apesar do perigo que sempre representa uma deslocação a um «teatro de guerra», Silas Cerqueira enfatizou a importância da sua viagem, realizada na última semana de Maio, a Tripoli. «Foi pioneira e teve como objectivo quebrar algum do isolamento que o imperialismo estava a conseguir impor à Líbia com as campanhas de desinformação mediática e os bombardeamentos. Depois da conferência, muitas outras delegações se têm deslocado a Tripoli para observar a situação com total liberdade».

Acresce que «os povos árabes estão habituados a ser anavalhados pelo imperialismo. Quando realizámos em Portugal, em 1979, uma conferência internacional de solidariedade para com a causa palestiniana, os líbios empenharam-se demonstrando até grande simpatia pelo povo português, uma vez que também eles lutaram contra o colonialismo de um regime fascista [o de Mussolini]. Esta era a hora de lhes mostrar confiança», disse.

«Ter ido à Líbia é independente das diferenças de apreciação de cada um quanto seu regime e ao papel histórico do seu principal dirigente», esclareceu. «O que está em causa é a solidariedade para com o povo líbio, a condenação de uma agressão de consequências mortíferas, a exigência do fim dos bombardeamentos, a recusa de tão grave violação do direito internacional e da perversão do Conselho de Segurança da ONU. Estava e está em causa a aplicação de um plano de paz, como o que a União Africana propõe, isto é, cessar-fogo, diálogo entre os líbios e, dentro de um ano, eleições. Kahdafi já o aceitou e garantiu que, se perder nas urnas, abandona o poder. Se amanhã a Líbia é dirigida por Kahdafi ou não, compete aos líbios decidir».

 

Agressão crescente

 

Os obstáculos colocados pela agressão começaram logo na viagem, testemunhou Silas Cerqueira. «Não pudemos viajar de avião de Tunes, por isso fomos de carro até Djerba [ilha turística no Sul da Tunísia], onde se verificaram imediatamente as perturbações provocadas pela guerra, dado que os operadores turísticos não podem garantir a segurança dos voos.

«De Djerba partimos para Tripoli», continuou, uma viagem que considerou «normal para as circunstâncias, com fiscalização fronteiriça do lado da Tunísia e da Líbia, e cerca de 40 postos de controle até Tripoli para evitar infiltrações por terra».

O trajecto então percorrido no Litoral-Oeste da Líbia não desvendou, no entanto, sinais evidentes dos bombardeamentos, cenário que mudou radicalmente quando Silas Cerqueira chegou à capital da Líbia, onde teve oportunidade de visitar várias infraestruturas civis destruídas, e confirmar que os bombardeamentos da Aliança Atlântica também se direccionavam contra complexos do aparelho produtivo nacional (centrais eléctricas, fábricas, pontes, estradas, universidades, clínicas).

«Mas isto foi no final de Maio. Entretanto a situação evoluiu muito, e para muito pior. Durante este período, intensificaram-se os bombardeamentos», nota consubstanciando, amiúde, as suas afirmações com informações obtidas em comunicações, quase quotidianas, com amigos líbios.

«Na altura – frisou ainda – os bombardeamentos aéreos e com mísseis de cruzeiro eram feitos de noite e de madrugada. Agora, a guerra entrou numa segunda fase. Decidiram, em 1 de Junho, numa reunião da NATO em Bruxelas, prolongá-la até Agosto-Setembro com bombardeamentos de outra natureza, nomeadamente recorrendo a helicópteros franceses e ingleses, e a disparos sistemáticos de artilharia por parte de vasos de guerra franceses. Bombardeiam todo o dia e atingem cada vez mais zonas residenciais em Tripoli», relatou.

«Há que assinalar o raciocínio monstruoso dos dirigentes dos EUA, UE e NATO», esta «obsessão histérica e irresponsável de tentar matar Kahdafi», diz com indignação depois de explicar que os ataques a bairros de Tripoli visam atingir igualmente outros dirigentes líbios e espalhar o terror.

«Quando estive em Tripoli, o Ministro da Cultura queria falar comigo e pediu-me para permanecer mais dois ou três dias. Mas eu não pude e depois de partir soube que ele havia escapado a um bombardeamento contra a sua casa. Perdeu 15 familiares», relatou.

Em suma, insiste o militante comunista, «actualmente o nível de destruição é muito maior e a vida é muito mais difícil para as pessoas. Quando lá estive, já não era fácil. Havia filas dia e noite para os combustíveis porque os imperialistas bloquearam o porto de Tripoli. Nos souks [áreas de comércio tradicional], observava-se a subida dos preços. Creio que ainda não há dificuldades com o fornecimento de luz e água potável, mas percebe-se o objectivo dos agressores: criar descontentamento entre a população para que esta exija a demissão de Kahdafi. Tem acontecido o contrário».

 

Vítimas da própria propaganda

 

Para Silas Cerqueira, as potências imperialistas foram, de certo modo, vítimas da própria propaganda. «Disseram que havia na Líbia uma ditadura, uma tirania. Erraram. Numa ditadura não se distribui mais de um milhão de armas ligeiras ao povo, como aí foi feito recentemente».

«A senhora Clinton, os senhores Obama, Cameron e Sarkozy julgaram que bombardeando intensamente o país, destruindo-o, acabariam por provocar, em poucos dias, o colapso do regime e a fuga de Muammar Kahdafi. Enganaram-se. Em Tripoli, observei manifestações diárias contra a NATO e de apoio aos governantes», insiste na conversa mantida com o Avante!, realizada justamente quando um milhão e meio de líbios se manifestava na capital do país contra a agressão [sexta-feira, dia 2].

Neste contexto, o membro da Presidência do Conselho Português para a Paz e a Cooperação e membro da Direcção do Movimento Pelos Direitos do Povo Palestino e Pela Paz no Médio teme que «entremos num novo patamar da guerra. Se os imperialistas parassem agora os bombardeamentos, se recuassem sem ser obrigados pela pressão da opinião pública, já viste a derrota que seria?», questiona.

Ora, admitir «o que muitos especialistas ingleses, franceses e norte-americanos já dizem abertamente – que foi uma fasquia demasiado alta impor a saída de Kahdafi como condição para o fim da agressão», seria uma prova da falência do belicismo e da sua argumentação.

Neste quadro, Silas Cerqueira considera como um real perigo uma terceira fase da guerra, que pode consistir «na infiltração de comandos», aos quais se juntam «grupos agressivos e militarizados de correntes islâmicas» com o intuito de «tentar um levantamento em Tripoli».

«Não é que se anteveja um triunfo sobre as forças regulares e as milícias populares que guardam a capital», referiu. «A questão é que o regime derrotaria essa insurreição, dando aos imperialistas o pretexto de um “banho de sangue”, para justificar a preparação de uma invasão terrestre», possibilidade para a qual, aliás, o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo chamou a atenção na sexta-feira passada.

«A conversa vai demasiado longa, acrescenta ainda Silas Cerqueira, mas peço ao Avante! para terminar com um alerta e um apelo aos leitores. O desfecho do que está em causa na Líbia – quarto perigoso teatro de guerra lançado pelo imperialismo na região do Mediterrâneo e Médio Oriente, a acrescentar aos da Palestina, Iraque, Afeganistão, e quem sabe se outros em breve – é de decisiva importância desde logo para o seu povo. Assim como para os demais povos árabes e africanos; para o equilíbrio energético e geoeconómico internacional, e em definitivo para o equilíbrio e paz mundiais quando o capitalismo enfrenta a sua maior crise de sempre.

«Ao resistir o povo líbio luta também por nós. E nós? Urge inserirmos a solidariedade democrática para com este povo na agenda da nossa luta pela paz e a independência nacional», conclui.

 

Castigo pelo patriotismo

 

A agressão à Líbia enquadra-se num processo histórico que não pode ser apagado. Essa foi um dos pontos nodais da conversa com Silas Cerqueira, para quem «o imperilaismo teve duas grandes desilusões com a Revolução levada a cabo por Khadafi e outros jovens militares a partir de 1969. Logo em 1970, a primeira foi a expulsão das bases militares estrangeiras dos EUA e Grã-Bretanha, a segunda a criação da National Oil Company e a gestão dos recursos petrolíferos», afirmou.

«Com o investimento nacional e a redistribuição dos rendimentos, a Líbia saltou, em cerca de duas décadas, de um dos países mais pobres e atrasados do mundo para o lugar de nação africana com os melhores índices de desenvolvimento humano, de acordo com os anuários das Nações Unidas.

«Muitíssimas infraestruturas foram construídas para o país, entre as quais se destaca o Great Man-Made River», precisou.

O projecto, iniciado em 1984 com recurso exclusivo a fundos próprios, resgata a maior reserva aquífera fóssil do mundo, partilhada pelo Chad, Sudão Egipto e Líbia. Com o que chamam de oitava maravilha do mundo, os líbios podiam passar de um país importador de alimentos frescos a território auto-suficiente através de um «projecto de irrigação fantástico das zonas semidesérticas», bem como das tradicionais «áreas costeiras onde se situa a produção agrícola do país».

Mas é o ouro negro, de que a Líbia tem as maiores reservas do Continente Africano, o alvo da cobiça mais imediata do imperialismo. Após um longo período (iniciado em 1986 por um bombardeamento ordenado por Reagan) de duras sanções internacionais, devido a supostas responsabilidades ou apoio a actos terroristas, a Líbia entendeu resolver os diferendos aceitando pagar indemnizações. «Esses processos foram resolvidos recentemente», e o governo líbio fê-lo devido «ao enorme travão que as sanções constituíam para a economia».

«É neste contexto que se restabelecem relações comerciais com as empresas petrolíferas ocidentais», explica Silas Cerqueira antes de garantir que «americanos e ingleses correram atrás do lucro fácil proveniente do petróleo líbio, de elevada qualidade e muito fácil de extrair».

No entanto, não só tiveram a concorrência de italianos, franceses, russos e chineses, como encontraram em Khadafii «um parceiro negocial difícil», que lhes impôs «contratos menos vantajosos do que os celebrados pelas multinacionais noutros países árabes».

Mais, conta Silas Cerqueira, «a dada altura, em 2009, e no meio de escândalos de corrupção no seio do regime, Khadafi propôs distribuir parte dos rendimentos do petróleo pelo povo. Instalou-se o pânico entre as empresas ocidentais. Aliás, entre quadros dirigentes líbios essa proposta não foi aceite.

A tudo isto acresce a recusa lapidar de Kahdafi, em 2008, em acolher na Líbia o Comando Norte-Americano para a África. «Os EUA terão tentado instalar o AFRICOM na Líbia, mas Kahdafi recusou-lhes a pretensão em termos que penso não terem sido muito agradáveis».

Finalmente, «num célebre discurso na Assembleia das Nações Unidas, em Nova Iorque, em 2009, Kahdafi chamou ao Conselho de Segurança da ONU o “conselho do terror” denunciando as guerras de agressão desde a guerra da Coreia e do Vietname, ao Afeganistão e ao Iraque. Os dirigentes ocidentais tomaram nota, é claro», frisou Silas Cerqueira, para quem a opinião pública internacional não tomou conhecimento do conteúdo da intervenção do dirigente líbio porque os média dominantes pegaram apenas em aspectos “excêntricos”».

Ocultaram o fundamental do que disse um dirigente que lhes continua «atravessado na garganta», o qual, «apesar de ter procedido à abertura da economia ao capitalismo, cedido de mais ao neoliberalismo, desguarnecido a vigilância quanto ao Ocidente, permaneceu um nacionalista intransigente e hoje resiste ao imperialismo».

 

A fraude e os factos

 

A agressão imperialista contra a Líbia ocorre no contexto de revoltas populares em vários países árabes. Não obstante, no entender de Silas Cerqueira não podem ser permitidas confusões.

«Houve manifestações de massas na Tunísia e no Egipto. Nesses países, os interesses do imperialismo foram abalados, mas não derrotados. Repara que no Egipto o núcleo do poder manteve-se nas forças armadas, que há 40 anos são formadas pelos EUA. Os militares impediram que Hosni Mubarak esmagasse o povo, mas também impediram que o povo esmagasse Mubarak», sintetizou.

«Os egípcios, tal como os tunisinos, puseram em causa os regimes, exigiram reformas democráticas e derrubaram os ditadores, mas não apontaram ao carácter de classe do Estado. Ou seja, arriscam a ter um 25 de Novembro sem ter feito um 25 de Abril!», concluiu.

«Portanto – continuou – a táctica do imperialismo para tentar lançar na Líbia um processo inverso, contra-revolucionário, era fazer pensar que também tinha havido aí levantamentos democráticos de massas violentamente reprimidos. Isto é uma fraude. O que houve, no seguimento de uma manifestação de familiares de presos islâmicos vítimas da repressão em anos anteriores, foi uma insurreição e contra-revolução [em Bengasi] longamente preparada com assaltos a esquadras, quartéis e edifícios estatais por parte de núcleos armados e orientados».

Silas Cerqueira vai mesmo mais longe e acusa os chamados rebeldes de integrarem uma amálgama de elementos burgueses liberais, outros agentes do imperialismo, com grupos islâmicos agressivos e sectores racistas e xenófobos, elementos do lumpen do proletariado e jovens desgarrados.

Parece paradoxal que tendo a Líbia uma parte de população negra, se manifeste o racismo e a xenofobia, mas Silas Cerqueira lembra que «antes da guerra os trabalhadores imigrantes eram cerca de 4 milhões na indústria e nos serviços. Destes, mais de um milhão oriundos da África negra», aos quais se somavam centenas de milhares de asiáticos, sobretudo chineses, nos complexos petrolíferos.

«Os imigrantes trabalhavam no que os líbios recusavam, dada a redistribuição da renda petrolífera. Daí não existir na Líbia uma classe operária autóctone, ou existir só em embrião. A falta de um movimento operário organizado é uma séria debilidade na defesa do País e das suas realizações».

 

Onde estão os que acompanharam Kahdafi?

 

Na conversa com Silas Cerqueira, sobressaíram ainda factos que vale a pena não esquecer quanto às mudanças de campo por parte dos políticos burgueses.

Um dos exemplos recordados pelo professor e investigador foi que «Kahdafi era recebido, até há poucos meses, nas altas esferas europeias. Como presidente da União Africana esteve no G8 do Verão de 2009, em Itália, inclusive com Obama. Agora é um «tirano» e um «ditador».

«Montou a sua tenda de beduíno em Paris, e também o fez em Lisboa. Gostava, aliás, de saber onde estão agora os que o acarinharam na sua visita a Portugal. Porque é que não se pronunciam?».



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