• Daniele Ganser

Os exércitos secretos da NATO
A guerra secreta em Portugal (conclusão)

Nesta última parte do seu trabalho dedicado à rede Gládio em Portugal, Daniele Ganser recorda-nos que a sua existência nunca foi objecto de investigação pelas autoridades portuguesas. Contudo, os factos e declarações recolhidos pelo historiador suíço revelam uma intensa actividade da Aginter Press, que teve sede em Lisboa.

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Não contente por lutar contra o comunismo na Itália, o capitão Guérain-Sérac estava firmemente disposto a travar o combate à escala mundial. Com esse objectivo, agentes da Aginter, entre os quais o americano Jay Sablonsky, participaram ao lado da CIA e dos «Boinas Verdes» [EUA] na tristemente célebre contra-guerrilha da Guatemala que, entre 1968 e 1971, fez cerca de 50 mil mortos, na sua maioria civis. Os homens da Aginter estiveram também presentes no Chile em 1973, onde participaram no golpe de estado em que a CIA substituiu o presidente socialista democraticamente eleito, Salvador Allende, pelo ditador Augusto Pinochet.(1) A partir do refúgio que era a ditadura de extrema-direita de Salazar, a Aginter Press podia assim enviar os seus soldados de sombra para combaterem em muitos países do mundo inteiro.

Esta situação perdurou até à Revolução dos Cravos de 1974, que pôs termo à ditadura e abriu caminho ao restabelecimento da democracia em Portugal. Os combatentes de sombra sabiam que a sobrevivência da sua organização estava estreitamente ligada à do regime fascista. Quando souberam que oficiais de esquerda do exército português preparavam um golpe que iria iniciar a Revolução dos Cravos, os agentes da Aginter conspiraram com o general Spínola a fim de eliminar os centristas portugueses. Previam invadir o arquipélago dos Açores, tornando-o independente, com vista a utilizarem-no como uma base de retaguarda para lançamento das suas operações no continente.

Como este projecto falhou, a Aginter foi varrida ao mesmo tempo que a ditadura pelos oficiais de esquerda que assumiram o poder, pondo assim fim a cerca de 50 anos de fascismo. A 22 de Maio, por ordem dos novos dirigentes do País, unidades especiais da polícia portuguesa irromperam no quartel-general da Aginter Press, na Rua das Praças em Lisboa, para encerrar a sinistra agência e apreender todo o material. Mas quando chegaram ao local, já estava tudo vazio. Graças aos seus contactos no seio dos serviços de informações, os agentes da organização tinham sido prevenidos a tempo e desapareceram, sem que nenhum deles fosse preso. Porém, na sua precipitação, esqueceram alguns documentos. As forças policiais acabaram por recolher grande número de provas que documentavam a responsabilidade da Aginter Press, filial da CIA, em numerosos actos de terrorismo.

 

O dossier perdido

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Como a jovem democracia tentava acabar com o antigo aparelho de segurança herdado da ditadura, a PIDE, serviços secretos militares e a Legião Portuguesa foram dissolvidos. O Serviço de Coordenação da Extinção da PIDE/DGS e Legião Portuguesa em breve descobriu que a PIDE, com a conivência da CIA, tinha dirigido um exército secreto baptizado de Aginter Press; exigiu consultar os dossiers sobre a Agência, reunidos na sequência da busca, que continham todas as provas necessárias. Pela primeira vez, a história do exército secreto português ia ser objecto de um inquérito. Mas, subitamente, todos os dossiers se volatilizaram. «O dossierAginter Press” foi subtraído ao Serviço de Coordenação da Extinção da PIDE/DGS e Legião Portuguesa e desapareceu definitivamente», lamentava o diário O Jornal, uns anos mais tarde, num artigo consagrado à rede Gládio.(2)

Como é que isso pôde acontecer? Porque é que a comissão foi tão negligente perante informações tão essenciais? O italiano Barbachetto, que trabalha para a revista política milanesa L’Europeo, escreveu a este propósito: «Estavam presentes três dos meus colegas quando foram apreendidos os arquivos da Aginter. Só puderam fotografar alguns fragmentos da quantidade considerável de elementos recolhidos naquele dia.» Sob os títulos de «Mafia» e «Contribuintes financeiros alemães», os documentos revelavam os nomes de código dos parceiros da Aginter. «Os documentos», indicou Barbachetto, «foram destruídos pelo exército português, que procurou evidentemente evitar incidentes diplomáticos com os governos italiano, francês e alemão, incidentes que surgiriam inevitavelmente se as actividades da Aginter nesses países tivessem sido desvendadas».(3)

O Serviço de Informações Militares português investigou a Aginter e chegou à conclusão de que a sinistra organização tivera quatro missões. Antes de mais, tinha servido como «escritório de espionagem dirigido pela polícia portuguesa e, através dela, pela CIA, pelo BND [Serviço Federal de Inteligência] da Alemanha ocidental conhecida como “Organização Gehlen”, pela Direccion General de Seguridad espanhola, pelo BOSS sul-africano e, mas tarde, pelo KYP grego». Paralelamente à função de recolha de informações, a Aginter Press serviu também de escritório do «centro de recrutamento e de treino de mercenários e de terroristas especializados em sabotagens e assassínios». Segundo o relatório do Serviço de Informações Militares português, a agência também tinha sido um «centro estratégico para operações de doutrinamento de extrema-direita e neofascista na África subsaariana, na América do Sul e na Europa, realizadas em colaboração com regimes fascistas ou similares, figuras bem conhecidas da extrema-direita e grupos neofascistas activos a nível internacional». Finalmente, a Aginter era a capa de um exército secreto anticomunista, uma «organização fascista internacional baptizada de "Ordem e Tradição" com o seu braço militar, a OACI, Organização Armada contra o Comunismo Internacional».(4)

 

Sob a protecção de Franco

 

Depois da queda da ditadura, Guérain-Sérac e os seus activistas anticomunistas fugiram de Portugal para a Espanha onde, sob a protecção de Franco, instalaram o seu novo quartel-general em Madrid. Em troca do asilo político, os combatentes da Aginter, fiéis ao seu compromisso, puseram-se à disposição dos serviços secretos espanhóis para procurar e eliminar os dirigentes do movimento separatista basco ETA. Prosseguiram com as suas operações clandestinas no estrangeiro e trataram especialmente de desacreditar a Frente de Libertação Nacional argelina. «Posso citar-vos outro exemplo particularmente interessante», declarou o juiz Salvini aos senadores italianos e revelou-lhes como, em 1975, a partir da sua base espanhola, os homens de Guérain-Sérac, assistidos pelo americano Salby e por extremistas franceses, italianos e espanhóis, organizaram uma série de atentados, que assinavam SOA, a fim de comprometer os Soldados da Oposição Argelina.(5)

«As bombas foram colocadas nas embaixadas argelinas em França, na Alemanha, na Itália e na Grã-Bretanha» e deterioraram a imagem da oposição argelina quando na realidade «os atentados eram obra do grupo de Guérain-Sérac, o que dá uma ideia das suas capacidades de dissimulação e de infiltração». A bomba colocada frente à embaixada argelina em Frankfurt não explodiu e foi cuidadosamente examinada pela polícia alemã. «Para compreender as ligações a Guérain-Sérac e à Aginter Press, basta observar a complexidade do engenho explosivo», sublinhou o juiz Salvini. «Continha C4, um explosivo utilizado exclusivamente no exército americano de que não se encontra rasto em nenhum atentado efectuado por anarquistas. Repito, era uma bomba muito sofisticada. Ora a Aginter possuía C4, podemos pois facilmente deduzir os apoios de que beneficiava.(6)

Quando o regime ditatorial se desmoronou com a morte de Franco, a 20 de Novembro de 1975, Guérain-Sérac e o seu exército secreto foram mais uma vez obrigados a fugir. A polícia espanhola levou tempo a investigar os vestígios que a Aginter deixou para trás, e foi apenas em Fevereiro de 1977 que fez uma busca ao número 39 da Rua Pelayo, o quartel-general da organização, descobrindo um verdadeiro arsenal composto por espingardas e explosivos. Mas Delle Chiaie, Guérain-Sérac e os seus soldados já tinham fugido há muito de Espanha para a América Latina, onde muitos deles escolheram o Chile como nova base para as suas operações. Guérain-Sérac foi visto pela última vez em Espanha em 1997.(7)

 

Uma história por desvendar

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O exército secreto anticomunista português voltou a dar que falar em 1990, quando o primeiro-ministro Giulio Andreotti revelou que existiam em Itália e noutros países exércitos stay-behind [de retaguarda] montados pela NATO. A 17 de Novembro de 1990, a vaga atingiu Lisboa, onde o diário Expresso, num artigo intitulado «Gládio – os soldados da guerra fria» noticiou que «o escândalo atravessou as fronteiras da Itália visto que a existência de redes secretas Gládio foi confirmada oficialmente na Bélgica, em França, na Holanda, no Luxemburgo, na Alemanha e semi-oficialmente na Suécia, na Noruega, na Dinamarca, na Áustria, na Suíça, na Grécia, na Turquia, em Espanha, no Reino Unido e em Portugal».(8)

Muito preocupado, o ministro português da Defesa, Fernando Nogueira, declarou publicamente a 16 de Novembro de 1990 que não tinha conhecimento da existência do ramo da rede stay-behind em Portugal e afirmou que nem o seu Ministério nem o Estado-maior das forças armadas portuguesas dispunham «de informações, quaisquer que fossem, relativas à existência ou à actividade duma “estrutura Gládio” em Portugal».(9) O jornal Diário de Notícias lamentou que «as declarações lacónicas de Fernando Nogueira sejam corroboradas, duma maneira ou de outra, por antigos ministros da Defesa, como Eurico de Melo e Rui Machete, assim como por Franco Nogueira [antigo ministro dos Negócios Estrangeiros] e pelo marechal Costa Gomes, que nos confirmaram não saberem absolutamente nada sobre essa questão. A mesma posição foi adoptada por parlamentares da oposição, membros da Comissão Parlamentar da Defesa».(10)

Costa Gomes, que fora oficial de ligação junto da NATO, insistiu que nunca tivera conhecimento de uma rede clandestina, apesar de ter «assistido entre 1953 e 1959 a todas as reuniões da Aliança». Ao mesmo tempo reconheceu que não era impossível que tenha existido uma Gládio portuguesa, com o apoio da PIDE e de certas pessoas estranhas ao governo. «Essas ligações», explicou Costa Gomes, «se é que existiram de facto, não poderiam ter funcionado a não ser paralelamente às estruturas oficiais», e portanto ser-lhe-iam totalmente desconhecidas. Do mesmo modo, Franco Nogueira, que fora ministro dos Negócios Estrangeiros no tempo de Salazar, declarou: «Nunca suspeitei da existência dessa organização. Nem quando estive nos Negócios Estrangeiros, e me dava amiúde com responsáveis da NATO, nem mais tarde». Afirmou que, se a Gládio tivesse operado em Portugal, «essa actividade certamente seria do conhecimento do Dr. Salazar». Nogueira dava a entender que Salazar teria certamente comunicado essa informação ao chefe da diplomacia: «Tenho muita dificuldade em acreditar que essa rede tenha tido ligações com a PIDE ou com a Legião Portuguesa. É por isso que estou convencido de que a Gládio nunca existiu no nosso País embora, claro, na vida nada seja impossível».(11)

Enquanto os representantes do governo se recusavam a divulgar quaisquer informações sobre a guerra secreta, a imprensa portuguesa não podia senão constatar a evidência e deplorar que «visivelmente, vários governos europeus haviam perdido o controlo dos seus serviços secretos», denunciando ao mesmo tempo, a «doutrina de confiança limitada» adoptada pela NATO. «Uma doutrina destas implica que alguns governos não teriam feito o suficiente para combater o comunismo e que portanto não era necessário mantê-los informados sobre as actividades do exército secreto da NATO».(12) Apenas um alto graduado do exército português consentiu revelar alguns pormenores do segredo, a coberto do anonimato. Um general, que tinha sido chefe do Estado-maior português, confirmou a um jornalista de O Jornal que «havia existido de facto em Portugal e nas colónias um serviço de informações paralelo, cujo financiamento e controlo não pertenciam ao domínio das forças armadas, mas dependia do Ministério da Defesa, do Ministério do Interior e do Ministério do Ultramar. Além do mais, esse serviço paralelo estava directamente ligado à PIDE e à Legião Portuguesa».(13) Não houve nenhuma investigação oficial sobre este assunto, nem mesmo um simples relatório parlamentar. Por conseguinte, o mistério aflorado por estas vagas confirmações permanece intacto.

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Tradução de Margarida Ferreira (Resistir.info)

Revisão e subtítulos da responsabilidade da redacção do Avante!

Daniele Ganser é um historiador suíço, especialista em relações internacionais contemporâneas. É professor na Universidade da Basileia.

Este artigo, publicado em www.voltairenet.org/a170466, foi extraído do livro Armées secrètes de l’OTAN, ed. Demi-lune (2007).

 

Notas
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 (1) Peter Dale Scott, «Transnational Repression: Parafascism and the US», periódico britânico Lobster Magazine, n.° 12, 1986, p.16.

(2) João Paulo Guerra, «Gladio actuou em Portugal», O Jornal, 16 de Novembro de 1990.

(3) Koch e Schröm, Aginter, p.8.

(4) Stuart Christie, Stefano delle Chiaie, p.28.

(5) O movimento SOA (Soldats de l’opposition algérienne) foi criado em 1973 por Mouloud Kaouan, antigo dirigente da Frente de Libertação Nacional da Argélia, fundador da Frente Democrática e Social em 1963, preso entre 1965 e 1969. (N.R)

(6) Commissione parlamentare d’inchiesta sul terrorismo in Italia e sulle cause della mancata individuazione dei responsabili delle stragi. 9ª sessão, 12 de Fevereiro de 1997.

(7) Koch e Schröm, Aginter, pp.11 e 12.

(8) Expresso, 17 de Novembro de 1990.

(9) Diário de Noticias, 17 de Novembro de 1990.

(10) Sem autor especificado, «Ministro nega conhecimento da rede Gladio. Franco Nogueira disse ao DN que nem Salazar saberia da organização», Diário de Noticias, 17 Novembro de 1990.

(11) ibidem.

(12) Sem autor especificado, «Manfred Woerner explica Gladio. Investigadas ligações à extrema-direita», Expresso, 24 de Novembro 1990.

(13)João Paulo Guerra, «Gladio actuou em Portugal», O Jornal, 16 de Novembro de 1990.



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