«O Governo não quer saber dos reformados»
Protesto e luta em concentração nacional
Reformados mostram indignação

Junto à residência oficial do primeiro-ministro, centenas de reformados, pensionistas e idosos manifestaram, dia 25, o seu repúdio e indignação face à política do Governo e reclamaram melhores condições de vida.

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A concentração nacional, em Lisboa, convocada pela Inter-Reformados, da CGTP-IN, e a Confederação Nacional de Reformados, Pensionistas e Idosos (MURPI) pretendeu alertar para a brutal degradação das condições de vida daqueles que, após uma vida de trabalho, sofrem agora os efeitos de uma política de cortes cegos nas pensões, nas prestações sociais e nos medicamentos.

Vindos de todo o País, empunhando bandeiras negras e das organizações promotoras, e entoando palavras de ordem pelo direito à Saúde, a pensões dignas e a serviços públicos com qualidade, os participantes montaram uma praia artificial, para lembrarem ao Governo que cada vez mais reformados nem em pleno Verão podem ir à praia e ter férias.

Maria Vilar, activista do MURPI em Carnide, recitou um poema de Bertolt Brecht, «O elogio da dialética», adequado ao sentimento de indignação dos participantes, que em coro gritaram palavras de ordem, entre canções de Abril de apelo à luta.

Uma delegação entregou a um assessor do primeiro-ministro uma moção, aprovada por unanimidade e aclamação durante a iniciativa.

Na moção reivindica-se um aumento extraordinário de 25 euros nas pensões mínimas; de mais cinco por cento nas restantes, para que seja mantido o poder de compra; o não aumento das taxas moderadoras do SNS, mantendo os critérios de isenção; a garantia da gratuitidade dos medicamentos genéricos para os portadores de doenças crónicas; a gratuitidade dos transportes de doentes, clinicamente justificados; e a garantia e reforço da Carta Social, definindo equipamentos sociais e o seu acesso com justiça social.

Convictos da razão que lhes assiste, os reformados garantiram que ampliarão e intensificarão esta luta, que consideram ser de todo o povo português.

 

Medidas ultrajantes

 

Antes de terminar a acção, intervieram os dirigentes da Inter-Reformados, Fátima Canavezes; do MURPI, Casimiro Menezes; e da CGTP-IN, Maria do Carmo Tavares.

Todos recordaram as reformas cujo valor torna praticamente impossível a sobrevivência e garantiram que prosseguirão com o trabalho de mobilização, de acção e de luta contra as medidas do Governo que estão a agravar ainda mais as suas condições de vida.

Maria do Carmo Tavares considerou «ultrajante que o Governo pretenda aplicar, em 2012, um aumento das pensões muito inferior ao valor da inflação, e apenas no primeiro escalão das pensões agrícolas e sociais mínimas. Sem quaisquer acréscimos ficarão os restantes três escalões das pensões mínimas, já de si muito baixos (a mais elevada destas pensões é de 374 euros e corresponde a uma carreira contributiva superior a 31 anos).

A dirigente da CGTP-IN lembrou os cortes nos apoios sociais, o aumento dos transportes e dos impostos sobre bens de primeira necessidade, e o chamado Programa de Emergência Social do Governo, repudiando a «caridade pública» e avisando que, «se os reformados e os trabalhadores não se unirem na luta contra estas medidas, iremos ficar numa situação muito parecida com a anterior ao 25 de Abril de 1974, com critérios que foram derrotados com a Revolução, o que seria totalmente inadmissível», considerou.

«À banca e aos grandes grupos económicos não são impostos quaisquer sacrifícios», protestou, salientando a fuga de capitais para paraísos fiscais, o caso do BPN e os benefícios à banca, e o corte de 480 milhões de euros previsto para a Segurança Social, devido à redução da Taxa Social Única das empresas, salientando que, «se os trabalhadores e os reformados não lutarem e derrotarem esta política, estas medidas vão agravar-se com as imposições das troikas».

 

Sentimentos de revolta

 

Vindos de todo o País, os reformados, pensionistas e idosos deram largas à indignação provocada por uma política que atira para a pobreza, a miséria e a fome cada vez mais idosos.

«Vim a esta luta porque as pensões estão cada vez mais baixas, está tudo a aumentar, ainda ontem tive de pagar, por inteiro, medicamentos para problemas de depressão e das pernas, cuja comparticipação foi cortada», explicou ao Avante! - Cezete Viegas, natural de Aljustrel. «O Governo não quer saber dos reformados, pelo contrário, tudo faz para nos enterrar mais cedo», acusou, salientando que «temos de o derrubar para derrotar esta política».

«Estou a lutar contra os cortes nas pensões de reforma devidos ao brutal aumento do custo de vida, que deixa cada vez mais gente só com uma sopa como refeição», explicou Bento Luís, presidente da Comissão de Reformados, Pensionistas e Idosos de São João dos Montes.

«A vida está cada vez mais cara, e a gente já nem ganha para comer, com aumentos nos medicamentos que custam 57 euros e mais, impostos a quem, como eu, recebe só 200 euros, veja lá o que me sobra para comer», acrescentou a aljustrelense Carina Santos.

«Falta-me muita coisa, não tenho médico e trabalho, porque só tenho 15 anos de descontos, nem reforma tenho, sou obrigada a continuar a trabalhar», revelou Constantina Moreira, natural da Marinha Grande, com 67 anos de idade.

«Fui toda a vida padeiro, a trabalhar de noite, e agora tenho pouco mais de 300 euros por mês para me governar», explicou David Paixão, igualmente marinhense, acusando «este e os anteriores governos, que têm roubado este País ao ponto de estarmos quase tão mal como no tempo do fascismo».

«Após uma vida de trabalho e de descontos, cada vez estamos pior, médicos não há, medicamentos cada vez mais caros, o valor das reformas é um insulto que me faz dizer aos governantes que basta de tirar ao pobres, tirem antes aos ricos, tirem-lhes, a eles, o dinheiro, que foram eles que o gastaram», desabafou Manuel Domingues, de Pataias, Leiria. Começou a trabalhar antes de completar 12 anos e só parou com 77, chegou a fazer cinco turnos, 12 horas por dia, sete dias por semana, como vidreiro. A escola até à quarta classe. «Nunca faltei com um tostão para os descontos e agora só falta estes governantes pagarem-me o que tenho direito. Esses é que estão em falta para com o povo de idade avançada que tanto trabalhou», acusou.

«O que me faz vir a este protesto é o evidente agravamento do custo de vida», explicou, na concentração, um reformado metalúrgico, natural do distrito do Porto, onde «as condições de vida para os reformados estão cada vez piores, péssimas». «Depois do que prometeu, este Governo está a retirar o pouco que o Estado tem, para dar aos ricos, deixando os pobres ainda mais pobres», acusou. Trabalhou «45 anos, para agora ter uma reforma que é injusta, por não proporcionar um nível de vida digno». «Protesto pelos direitos dos reformados, contra as pensões de miséria e as desgraçadas condições de vida que estamos a viver e que se vão agravar», disse, sem querer dar o nome, mas revelando ter uma reforma de 420 euros.


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