«Nós não vamos partir», diz o secretário-geral da NATO
Guerra imperialista iniciada a 7 de Outubro de 2001
Dez anos de terror no Afeganistão

Uma década depois de iniciada a guerra imperialista contra o Afeganistão, os EUA e os seus aliados da NATO são responsáveis pela devastação e sofrimento infligido ao povo afegão no seu próprio território, e pela instabilidade em toda a região.

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A «data redonda» do arranque das operações «Liberdade Duradoura» e «Herrick», levadas a cabo por EUA e Grã-Bretanha, cumpriu-se no passado dia 7 de Outubro. O facto de o actual presidente dos EUA, Barack Obama, ter assinalado a «efeméride» com uma singela declaração escrita, ilustra a dificuldade em desembaraçar-se não apenas das promessas feitas aos eleitores antes de suceder a George W. Bush no governo norte-americano, mas, igualmente, do cenário de atoleiro em que se tornou o conflito na Ásia Central.

Cálculos divulgados por uma universidade californiana indicam que pelo menos 40 mil pessoas terão morrido no Afeganistão desde 2001 em resultado directo de combates, atentados ou operações militares. O número apresenta-se conservador, sobretudo se tivermos em conta que as Nações Unidas sublinham o aumento constante da violência, particularmente nos primeiros oito meses deste ano.

Diz a ONU que até Agosto de 2011 já morreram mais de 1500 pessoas, entre as quais pelo menos 971 civis, correspondendo a um crescimento de 40 por cento no total de incidentes violentos face ao mesmo período de 2010, e de 15 por cento no total de mortos e feridos civis. 130 mil pessoas foram forçadas ao exílio só nestes primeiros meses do ano.

Foi o próprio Ban Ki-moon, secretário-geral das Nações Unidas, quem qualificou estas cifras como recordes, e ainda que os governantes dos EUA não tenham pejo em criticar ou até mesmo mandar calar Ki-moon, o facto é que as estatísticas mais recentes são difíceis de digerir perante a opinião pública.

 

Crime sem castigo

 

Mas os dados e as consequências da guerra imperialista no Afeganistão vão mais além. O conflito é já o mais duradouro da história dos EUA e seguramente o mais caro, absorvendo, só desde 2004, pelo menos 3 biliões de dólares, junto com a guerra do Iraque, de acordo com os cálculos do economista Joseph Stiglitz publicados no Washington Post.

Em dez anos, o Afeganistão voltou a ser monopolista na produção mundial de ópio (90 por cento do total) e um dos maiores consumidores (desde 2005 os consumidores de ópio cresceram 53 por cento, e os de heroína 140 por cento), dizem as Nações Unidas.

Em 2010, 2421 civis foram mortos e quase 3300 resultaram feridos ou estropiados, isto é, uma média de 6 a 7 civis mortos e 8 a 9 feridos por dia em consequência da barbárie.

De 2008 a meio de 2010, pelo menos 1795 crianças foram mortas no conflito. 2753 soldados estrangeiros morreram no Afeganistão em 10 anos. Os EUA perderam 65 por cento do total dos militares abatidos, seguidos da Grã-Bretanha, Canadá e França.

Nos primeiros anos de conflito, perderam a vida, de acordo com dados oficiais, cerca de uma centena de soldados. Desde 2009, o número de militares mortos no Afeganistão tem aumentado sempre, sobretudo após a implementação por Obama da chamada «nova estratégia militar».

Às primeiras horas da manhã de quinta-feira da semana passada, uma multidão de afegãos manifestou-se em Cabul contra a guerra, a ocupação e os crimes da Aliança Atlântica. O presidente títere Hamid Karzai admitiu nesse mesmo dia que o seu governo falhou em garantir a segurança e estabilidade no Afeganistão. As bases dos EUA são amiúde bombardeadas e alvo de atentados – nos últimos dias cinco estruturas foram atacadas com contundência, incluindo a embaixada dos EUA em Cabul – mas o secretário-geral da NATO insiste que a organização permanecerá no Afeganistão para lá de 2014. «Não se enganem. Transição não é abandono. Nós não vamos partir mesmo quando os afegãos assumirem o comando [da segurança no país]», disse.


Nova era de barbárie

 

O início da guerra no Afeganistão assinala igualmente o recrudescimento da agressividade imperialista em todo o mundo. Depois de levar a guerra para a Ásia Central, os EUA atacaram e invadiram o Iraque, país onde já morreu pelo menos um milhão de civis em consequência directa da guerra, estima o projecto «Censurado».

Engana-se quem acha que os norte-americanos estão a abandonar o território médio-oriental, pois são oficiais os planos para albergar 16 mil funcionários na maior embaixada do mundo, em Bagdad, guardados por pelo menos 5500 seguranças privados e um número entre 3 a 10 mil soldados.

Esta infra-estrutura custa anualmente seis mil milhões de dólares, uma gota no total gasto por Washington na guerra do Iraque, donde se destaca a absorção pelas empresas mercenárias de 22 por cento do total do orçamento anual.

Neste momento, os EUA procuram garantir total imunidade para os seus militares no país, o que está a gerar dificuldades ao governo colaboracionista iraquiano, incapaz de justificar tal pretensão à luz dos crimes cometidos.

Mas a guerra iniciada em 2001 abriu ainda uma nova era de total impunidade, arbitrariedade e assassinatos. No Paquistão, país com o qual os EUA não estão em guerra, a média de ataques com aviões não-tripulados supera os 20. Entre Janeiro de 2009 e Fevereiro de 2010, os EUA lançaram pelo menos 250 mísseis e outros projécteis contra supostos «militantes talibãs», matando milhares de pessoas.

O episódio recente em torno do ex-presidente afegão Burhanuddin Rabbani ilustra a desestabilização levada pelos EUA ao seu antigo aliado. Cabul, fazendo eco do departamento de Estado, acusa os serviços secretos de Islamabad de serem responsáveis pelo assassinato do então negociador com os talibãns. O Paquistão responde à letra, afirmando, sem pudor, que a limitação recente dos movimentos aos diplomatas norte-americanos no país teve o condão de baixar drásticamente o número de incidentes violentos na fronteira com o Afeganistão.

Esta acusação directa aos EUA de estarem por trás da violência extremista no Afeganistão e Paquistão foi acompanhada pela denúncia, por parte das autoridades paquistanesas, dos vínculos dos EUA com o «terrorismo islâmico».

Jalaluddin Haqqani, o mais perigoso chefe de um grupo talibã activo – segundo classificação das próprias altas patentes norte-americanas –, foi formado e financiado por Washington para combater o governo popular afegão e as tropas soviéticas que auxiliavam a defesa do país na década de 80.

Haqqani foi durante anos «o menino dos olhos dos EUA», afirmou o actual ministros dos Negócios Estrangeiros do Paquistão, Hina Khar, trazendo aos escaparates a fotografia do mujahedine com Ronald Reagen na Casa Branca.

Finalmente, se a guerra do Afeganistão foi o início de uma nova era de barbárie, os tempos que correm perpetuam a agressividade e impunidade imperialista. Sublinhe-se o assassinato recente do imã muçulmano Anwar al-Aulaqi, cidadão norte-americano a residir no Iémen.

O New York Times e a France Press falam de um documento secreto e de uma autorização presidencial sem precedentes para matar um nacional dos EUA sem direito a julgamento, módus operandi que os imperialistas repetem, por exemplo, na Somália, onde, só a semana passada, os drones norte-americanos mataram dezenas de civis apontados como alegados jihadistas.


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