• Modesto Navarro

«Contos da Memória que Falece» de Francisco Silva Dias

Foi na Voz do Operário, numa homenagem a Francisco Silva Dias, que lhe pedimos a escrita deste livro – «Contos da Memória que Falece». Na sua intervenção, ele tinha contado episódios da Lisboa da sua infância, na zona histórica, e de como descobrira as avenidas novas a nascerem, na mudança da família para as terras então a serem desbravadas e habitadas.

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Foi esse encantamento que nos deixou mais enriquecidos na memória e na progressão de Lisboa e que nos levou ao desafio feito. «Escreva tudo isso, por favor, Silva Dias». E ele escreveu. Meses depois, entregou-nos um conjunto de histórias e contos que nos entusiasmaram e que vieram a constituir a base deste livro.

Francisco Silva Dias é arquitecto, é cidadão interventivo, com inteligência, nobreza de carácter e capacidade de nos mostrar como é e pode ser Lisboa, a cidade e o País – na memória produtiva e benéfica, na identidade e na progressão harmoniosa do património, em articulação com o desenvolvimento económico e social, na justiça e na igualdade por que lutamos.

Há uma opção de classe em Francisco Silva Dias que desde criança tomou forma. Há algo de existencial e há uma ética e um rigor desde muito cedo construídos na sua vida. Ler estes contos, é entender como pode uma criança, oriunda de família com algumas condições de vida, estar atenta aos que o rodeiam, aos que não têm pão em casa, aos que lutam pela sobrevivência com as armas de que dispõem. A púrria da Madalena, esse bando de garotos de Lisboa de que faz parte, nas disputas com a rapaziada do Castelo e doutros bairros, é uma das suas escolas de aprendizagem e de solidariedade activa, nos primeiros anos de vida.

A infância, o olhar irónico e amigo, o amor à cidade e às pessoas, fazem-nos mais vivos, na leitura destes contos, na memória, na identidade e no envelhecimento inteligente e interventivo em que a escrita de Silva Dias é exemplar e estimulante.

Dou aqui alguns tópicos de conteúdos que são apenas isso:

O Largo do Caldas, o Salão Lisboa e o Martim Moniz. A cidade envelhecida que Francisco Silva Dias tem lutado para renovar, sabendo cerzir e realizar ideias e propostas, preservando o património, fazendo pedagogia e ensinando.

A Escola oficial da Câmara, a vida de miudezas do bairro e da rua. A polícia de costumes e a ida ao Governo Civil. A gastronomia popular, o chispe e como se deve comer e beber. A Dona Preciosa e a agressão a uma criança, na memória de um arquitecto a trabalhar em África. A descrição da queima de uma aldeia pelos nazis e os fuzilamentos da população na frente leste, na União Soviética. O Dakota da Segunda Grande Guerra e o governador colonial a dizer que a subversão se mata no ovo, assassinando a tiro dois patriotas angolanos. A festa dos emigrantes em França, contra a guerra colonial. O regresso a Portugal de um muito conhecido democrata burguês e de um maoista, no mesmo comboio, ambos para, mais cedo ou mais tarde, lançarem a confusão e atacarem o 25 de Abril. A mudança das pessoas das barracas para casas, as torres em construção e a vontade de ter alguém para amar. As madrugadas da memória e a idade que pesa. A noite de segurança no Centro Vitória e o camarada que não disparou contra o guerrilheiro, na guerra colonial. Como é viver numa barraca em Lisboa, os pais a querer fazer amor e o filho que não ia brincar lá para fora... «Sabe agora porque é que quero ter uma casa, senhor arquitecto?», pergunta o filho, já homem, na luta pela habitação nos bairros de Lisboa.

O piolho verde da Legião, o padre, a foice e o martelo desenhados a giz na porta da escola e o servente que foi despedido por apagar as evidências da subversão. O assalto à rádio do bairro para cantar «Não entres na igreja ó cavador». Como eram os provocadores do fascismo nos comícios e como se levava propaganda para dentro do estaleiro. O avô e o direito de pernada brutal dos velhos tempos. As casas de passe, a mudança para outro bairro e deixar de estar no centro da cidade para viver nas avenidas e ruas em construção.

A palestra na Sociedade, em Angola, e os dois homens do Volkswagen preto na última fila, a espiar e a ter de fazer um relatório.

A Revolução de Abril e as casas e barracas, o jovem arquitecto e a mulher que lhe queria dar uma tareia amiga e boa no Bairro Chinês. Os bairros sociais, as expropriações, os jogos do investidor espanhol, na corrupção da autarquia, antes do 25 de Abril, e o juiz que não queria ir fazer as avaliações e assinar os documentos, depois da revolução, mas que foi obrigado a ir pelo povo. As bombas no Cunene e nos aviões na base de Tancos. O pide que sabia tudo e dizia que os católicos progressistas eram os que iam à missa e depois davam a esmola ao Partido. A ocupação na Junqueira, a navalha do Joel e o Amílcar que empestava tudo com o cheiro. O motorista de táxi que não queria levar a Horácia à zona J, mas foi obrigado a ir. Os comboios e os eléctricos de antigamente e as viagens na velha Lisboa. Os diálogos da memória e como o autor descreve os lugares e a cidade, assumindo que é um «urbanita», que gosta do cheiro da mistura do café, da poluição e das castanhas assadas. A senhora da gadanha, o respeitinho e o pedido: «Ó morte vai-te embora».

 

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Mais fortes para amar Lisboa

 

São algumas notas, apontamentos de leitura, um pequeno aconchego para vos dizer que é necessário saber ler este livro. Estão aqui muitas vidas, descritas com a exactidão, o amor e a síntese do arquitecto e do homem que comunica e sabe escrever. Não é um livro de facilidade, de populismo, de engano e de negócio. É um livro que merece o nosso respeito e admiração, no rigor da escrita, no pormenor ambicioso e duradouro, na arquitectura da cidade que se faz de muitas vidas e sonhos de criança. Sonhos e anseios que continuam a ser esteios na existência de quem envelhece e fortalece sempre os seus ideais de progresso, de mudança e transformação da cidade e do mundo.

Perante os especialistas em nivelarem a actividade autárquica pelo populismo e por baixarem o gosto e a cultura das populações, e em, por outro lado, criarem condições para os condomínios fechados, para a habitação em Lisboa só para ricos e para corruptos que podem investir nos altos negócios, Francisco Silva Dias ergue a memória e o látego inteligente com que chicoteia, ironicamente e com força, as velhas e novas barbaridades.

Quando saímos da leitura deste livro, se o soubermos merecer e ouvir, estaremos mais fortes para amar Lisboa, a cidade e o mundo. É destes autores que precisamos e de que nos orgulhamos. Com um livro assim, Francisco Silva Dias fica mais perto de nós, mais dentro do nosso coração e do nosso cérebro, na companhia que é vital e decisiva para a luta por uma Lisboa identitária e popular no melhor sentido que ele ambiciona.

Um homem com muitos anos de vida pode ser um jovem e pode ser ainda e sempre a criança que brinca e sonha nos bairros de Lisboa. A dignidade, a ética, a opção pelo lado dos mais pobres, dos trabalhadores, dos humilhados e ofendidos, engrandecem quem tem o privilégio de estar ao lado de Francisco Silva Dias. Quem lhe deseja que continue sempre imprescindível, porque lutou a vida inteira e vai continuar a ser um exemplo e um amigo, no mar de dificuldades, atropelos e indignidade que hoje são as agressões a Lisboa e ao País.

Não estamos sós. Não estaremos sós e ficaremos sempre mais fortes e interventivos, com a sabedoria, o ânimo e a entrega que orientam a vida e a obra de Francisco Silva Dias.

Francisco Silva Dias pertence ao património da Voz do Operário e é nosso companheiro, ensinando que é na generosidade honrada e livre, na dádiva e na entrega, que se atinge a maioridade humana em que o homem e a mulher se superam e realizam o que ajuda os outros a serem mais e a serem melhores.

Com um destino assim, não há «mulher da gadanha» que não seja vencida, na madrugada e no dia sempre novo que um homem como Francisco Silva Dias ajuda a erguer no dia-a-dia da cidade, nos dias e anos da nossa vida individual e colectiva.



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