Editorial

«PS, PSD e CDS criaram esta espécie de regime dinástico no qual a política de direita é rainha»

NO LUGAR QUE LHE COMPETE

Na «mensagem de Natal» de há um ano, o então primeiro-ministro José Sócrates fez o que lhe competia: à sua maneira, e no meio do tradicional foguetório de boas vontades natalícias, defendeu, enalteceu e prometeu prosseguir a política de direita.

Este ano, coube ao primeiro-ministro de serviço desempenhar a tarefa. E Passos Coelho, à sua maneira, e no meio do tradicional foguetório de boas vontades natalícias, defendeu, enalteceu e prometeu prosseguir a política de direita.

Com efeito, entre um e outro destes dois discursos não há diferenças substanciais: pode dizer-se que, tirando as bambinelas do estilo e a obrigatória actualização do argumentário, estamos perante um discurso único, recorrente e requentado na sua essência.

Aliás, trata-se, em ambos os casos, de «mensagens» para dois destinatários concretos: o primeiro (os trabalhadores e o povo), para ser agredido com falsas esperanças e vãs promessas; o segundo (os grande grupos económicos e financeiros), para ser brindado com sólidas garantias.

E são assim, em geral, as «mensagens de Natal» desde que, há trinta e cinco anos, o primeiro governo PS/Mário Soares iniciou a política de direita, essa política devastadora de Abril, que sucessivos e consecutivos governos PS e PSD – sozinhos, de braço dado, ou com o CDS atrelado – têm vindo a praticar sob os aplausos do grande capital. Essa política antipopular, antipatriótica, antidemocrática que fez chegar o País à dramática situação em que se encontra.

Na verdade, são eles (PS, PSD e CDS), e só eles, que têm estado no governo, consecutivamente, nestas três décadas e meia – e assim criaram esta espécie de regime dinástico no qual a política de direita é rainha.

(E sendo óbvio que assim é, não deixa de ser divertido assistir ao espectáculo dos comentadores, analistas & politólogos de serviço – bobos da corte de novo tipo… – desdobrando-se em interrogações sobre quem serão os responsáveis pelo estado dramático a que o País chegou…)

Tudo o que acima se diz sobre as «mensagens de Natal» dos primeiros-ministros é igualmente válido, por razões evidentes, para as «mensagens de ano novo» vindas dos presidentes da República…

E assim será até que a luta organizada dos trabalhadores e do povo ponha termo a este período negro da nossa história colectiva e abra caminho ao futuro que Abril nos mostrou ser possível.

 

Entretanto, o flagelo da política de direita continua; prossegue a ofensiva brutal e raivosa procurando fechar todas as portas que Abril abriu: o Governo PSD/CDS anuncia todos os dias novas medidas, qual delas mais gravosa, todas no mesmo sentido, todas roubando direitos e ferindo interesses dos trabalhadores do povo e do País; todas servindo de bandeja mais e mais iguarias na mesa farta do grande capital.

Tratando-se, como se trata, de uma política com profunda marca de classe, os trabalhadores são, naturalmente, o alvo preferencial da ofensiva.

Hoje como nos últimos trinta e cinco anos – mas hoje de forma consideravelmente agravada – é sobre eles que recai o essencial do ódio de classe dos representantes do grande capital no Governo; é sobre eles, exclusivamente sobre eles, que recaem todos os sacrifícios que o Governo diz caberem a todos; é sobre eles que recaem os cortes nos feriados, nas férias, nos salários, nos subsídios, nas pensões, nas reformas, e os aumentos em tudo o que é necessário para a subsistência das famílias – porque é contra eles que o Governo governa.

Dessa violenta ofensiva emerge como questão fulcral o ataque à legislação laboral, o ataque sistemático e cirúrgico, autêntico ódio de classe, a direitos conquistados pelos trabalhadores e pelas suas estruturas representativas através de acções que, em todas as áreas de actividade, envolveram sucessivas gerações em memoráveis e heróicas lutas.

A intenção do Governo de aumentar em meia hora por dia o horário de trabalho é certamente a que melhor exemplifica a sua sanha anti-laboral – e terá da parte dos trabalhadores a resposta necessária.

 

Todavia, a luta contra o aumento do horário de trabalho, pelo significado e importância da questão, não diz respeito apenas aos trabalhadores no activo. Pelo seu carácter civilizacional, ela tem a ver com a imensa maioria dos portugueses e portuguesas, com o povo português, com a democracia, com Portugal.

Tem a ver com todos os que, independentemente do seu estatuto e situação profissional actual – reformados, intelectuais, quadros técnicos, democratas e patriotas, homens e mulheres de Abril têm na memóra a caminhada heróica da classe operária e dos trabalhadores portugueses pela conquista das oito horas de trabalho  e não esquecem, dos tempos do fascismo, a histórica conquista das oito horas pelos valentes assalariados agrícolas da zona do latifúndio.

Tem a ver com todos os que, com a Revolução de Abril, lutando, conquistaram significativos direitos laborais e viram, assim, a sua condição de trabalhadores respeitada e dignificada – direitos que não podem, agora, deixar que a política da contra-revolução lhes roube.

Tem a ver com todos os que, jovens, vão entrar no mercado de trabalho e aos quais esta medida do Governo, trazendo consigo todo um passado de exploração e opressão, iria obrigar a começar tudo do zero...

E é uma luta que, obviamente, diz respeito – e de que maneira! – aos comunistas, ao colectivo partidário comunista que, ao longo de gerações, ocupou sempre a primeira fila do combate pelas oito horas. E que, na situação actual, fiel ao seu compromisso com os trabalhadores e o povo, cá está, no lugar que lhe compete.


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