O massacre «não foi um acidente, mas um acto deliberado», acusa o PKK
Exército turco chacina civis
Curdos elevam protestos

As forças armadas turcas mataram 35 civis num bombardeamento na fronteira com o Iraque. O governo diz tratar-se de um erro, mas os curdos falam em massacre deliberado e milhares de pessoas exigem que os responsáveis sejam punidos.

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A chacina de 35 curdos – 18 das quais menores de idade –, ocorreu na noite de quarta-feira, 28, junto à localidade de Ortasu, província de Sirnak, no Sudeste da Turquia.

De acordo com o primeiro-ministro turco, Recep Erdogan, tratou-se de um «incidente lamentável» ocorrido porque as forças armadas confundiram contrabandistas com guerrilheiros do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK).

Para o governante e dirigente do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), o erro deveu-se à deficiência das imagens recolhidas por aviões não-tripulados. «Era impossível dizer quem eram» as cerca de «40 pessoas que circulavam na zona», justificou, segundo a Lusa.

Já para o PKK, o massacre «não foi um acidente, mas um acto deliberado, organizado e planificado», disse Bahoz Erdal, citado pelo Gara.

O diário basco adianta ainda que o comandante guerrilheiro considera falsos os argumentos do governo, já que, afirmou, o contrabando na região é tolerado e habitualmente realizado «sob a vigilância das autoridades em toda a fronteira», facto que torna «impossível» a não distinção entre civis e militares insurrectos.

Também o Partido para a Paz e a Democracia (BDP) acusou o executivo liderado por Erdogan de «enviar uma mensagem clara» aos curdos, que é a de se «calarem e submeterem» ao domínio turco.

Em Outubro deste ano, o BDP já havia acusado o governo turco de usar armas químicas nas operações que vem realizando nas regiões de maioria curda que fazem fronteira com o Iraque.

 

Relato corrobora acusação

 

A corroborar as acusações feitas pelas organizações independentistas curdas está o relato de um dos sobreviventes da chacina, divulgado pelo Gara.

O grupo ia «comprar açúcar e gasolina» quando ouviu os aviões não-tripulados. «Não procurámos refúgio porque fazíamos o nosso caminho habitual», testemunhou Servet Encu.

Posteriormente, vieram os F-16 e com eles um bombardeamento que durou cerca de uma hora, acrescentou o jovem de 19 anos que diz ter escapado ileso porque se escondeu com outros dois amigos num rio.

O contrabando é «a única actividade possível na região», afirmou. «O exército sabe perfeitamente que não somos guerrilheiros», que «arriscamos a vida por um pouco de pão com manteiga. Bombardearam-nos propositadamente», acusou.

 

Indignação alastra

 

Entretanto, milhares de pessoas têm repudiado nas ruas o massacre perpetrado contra os civis curdos exigindo, igualmente, o apuramento do sucedido e a punição dos responsáveis.

Sexta–feira, os funerais das vítimas foram expressivas manifestações da indignação popular face ao sucedido, mas para além das cerimónias fúnebres, na província de Sirnak, outras acções de massas têm sido realizadas contra a impunidade e em defesa dos direitos do povo curdo.

Segundo informações divulgadas por agências noticiosas (EFE, Prensa Latina, AFP) e pela iraniana PressTV, a indignação alastra e têm-se feito sentir em várias cidades das províncias de Diyarbakir, Hakkari e Van (Curdistão Norte). As autoridades respondem com repressão.

Também em Istambul, a maior cidade da Turquia, e Ancara, capital do país, ocorreram protestos. Entre quinta-feira e domingo, a comunidade curda e os democratas turcos contestaram a dita «guerra ao terrorismo» levada a cabo pelo governo do AKP, o qual, invariavelmente, manda dispersar as multidões com recurso a canhões de água e granadas de gás lacrimogéneo.



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