Franceses e norte-americanos são responsáveis por mais dois massacres
Bombardeamentos da NATO matam mais 11 crianças
Afegãos à mercê dos criminosos

Dois bombardeamentos da NATO mataram pelo menos 15 civis afegãos, entre os quais 11 crianças. Os massacres coincidem com a sucessão de escândalos envolvendo as forças armadas dos EUA no território, com a admissão por parte de Washington de que as operações secretas e especiais no país não vão diminuir, e com a tentativa de apagar a história levada a cabo pelo governo colaboracionista.

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Os ataques aéreos que voltaram a elevar o número de civis mortos pelos ocupantes no Afeganistão ocorreram em Janeiro e Fevereiro deste ano, nas províncias de Kapisa e Kunar, e foram levados a cabo por aviões franceses e norte-americanos. Na sequências dos bombardeamentos, o presidente títere Hamid Karzai ordenou a realização de inquéritos ao sucedido.

Segundo relatou Mohammad Safi, deputado local e membro da comissão de investigação, o massacre na província de Kapisa foi ordenado por militares franceses durante uma operação de apreensão de armamento, e, alegadamente, contra o parecer do chefe da secção de informações do Afeganistão, para quem a zona «não representava uma ameaça», tendo, por isso, recusado autorizar o bombardeamento.

De acordo com a mesma fonte, citada pela Lusa, as oito crianças mortas encontravam-se a atear uma fogueira a cerca de 600 metros da aldeia onde decorria a busca militar. Três bombas foram lançadas sobre oito menores com idades entre 6 e 14 anos, informou também Safi.

Já na província de Kunar, o bombardeamento foi perpetrado pela aviação norte-americana e deixou seis crianças e uma mulher mortas, revelou a comissão mandatada pela presidência afegã.

Reagindo aos factos divulgados publicamente, o porta-voz da Força de Assistência à Segurança no Afeganistão (ISAF), general Carsten Jacobson, defendeu que as tropas ocupantes «atacaram um grupo de homens que estavam armados e mostravam um comportamento invulgar».

Jacobson sustentou igualmente que a NATO concluiu que, em Kapisa, o suposto grupo «foi atacado por aparelhos aéreos da coligação» no decurso de uma operação que «cumpriu todas as directivas tácticas da ISAF».

«Após o ataque, outras vítimas foram descobertas e essas vítimas eram jovens afegãos de várias idades», acrescentou.

Relativamente ao bombardeamento de Kunar, o militar ao serviço da Aliança Atlântica escusou-se a adiantar pormenores.

 

Assassinos convictos

 

Paralelamente ao desvendar dos crimes cometidos pelas forças ocupantes em Kapisa e Kunar, foi divulgada uma fotografia na qual um grupo de marines norte-americanos pousa orgulhosamente com uma bandeira das SS hitlerianas em pano de fundo. Para as chefias militares dos EUA, tal não significa que os soldados envolvidos perfilhem da ideologia nazi.

Durante a investigação aberta pelo comando da base militar de Camp Pendleton, na Califórnia, concluiu-se que os militares não são motivados pelo racismo, sustentou o comandante Gabrielle Chapin. O uso da insígnia das SS deve-se ao facto dos homens serem sniper scouts (franco-atiradores exploradores), justificam ainda as autoridades, de acordo com informações difundidas pela Fox News.

Mas a verdade é que a referida foto, datada de Setembro de 2010, não é a única evidência de que, entre as tropas dos EUA destacadas para as guerras imperialistas – e igualmente entre unidades das forças armadas de outros países integrantes da ocupação do Afeganistão –, a ideologia que transforma homens em assassinos convictos encontra pasto fértil.

No passado dia 12 de Janeiro foi conhecido um vídeo com soldados dos EUA a urinarem sobre os cadáveres de supostos combatentes afegãos. No mesmo mês, mas em 2010, militares norte-americanos mataram uma criança e pousaram junto ao féretro.

Antes, em 2008, num veículo blindado italiano abatido por uma mina era possível descortinar a insígnia das Afrika Korps, unidades comandadas pelo general nazi Rommel durante a campanha hitleriana no Norte de África.

 

CIA mantém presença

 

Apesar da retirada das tropas do Iraque e do anúncio de que idêntico cenário ocorrerá brevemente no Afeganistão, os serviços secretos imperialistas vão manter uma forte presença clandestina naqueles territórios. Cabul e Bagdad vão continuar a albergar dos maiores centros de inteligência da CIA, admite-se em Washington.

Segundo relata o Washington Post, o governo liderado por Barack Obama pretende que a Agência continue a actividade agressiva para com as supostas ameaças terroristas, e assegure facilidades logísticas para a manutenção dos bombardeamentos com aviões não-tripulados nas regiões do Médio Oriente e Ásia Central.


História pára em 1973

 

Entretanto, enquanto o conflito levado para o Afeganistão pelos imperialistas ceifa vidas de inocentes e fotografias e vídeos revelam o prazer macabro de muitos dos que o fazem, as autoridades afegãs procuram apagar a história recente do país.

Segundo informações apuradas por Kevin Sieff para o Washington Post, publicadas em exclusivo em Portugal pelo jornal Público na sua edição de segunda-feira, dia 13, «uma série de manuais escolares distribuídos pelo governo [afegão], com financiamento dos EUA e de várias organizações de auxílio» impõem «uma pausa na história em 1973».

De acordo com a notícia divulgada pelo diário nacional, os responsáveis afegãos consideram que é a história recente, nomeadamente dos últimos 40 anos, que contribui para manter a divisão étnica e confeccional do país, a qual, no seu entender, tem estado na base dos sucessivos conflitos bélicos.

Por isso, «insistem em que em que os novos manuais sejam um dos principais instrumentos para a construção do Estado, oferecendo uma perspectiva fresca a uma geração criada e marcada pela hostilidade».

Neste sentido, os novos manuais – que estão já a ser amplamente distribuídos, sendo mesmos os únicos reconhecidos oficialmente, interrompem a história do país a partir do reinado de Mohammad Omar Shah.

Todo o período posterior foi omitido em nome da reconciliação, fraternidade e unidade nacionais, prática que para o professor de história Mir Ahmad Kamawal priva gerações inteiras do conhecimento dos factos ocorridos nas últimas quatro décadas no Afeganistão.



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