Compreensão I

O secretário-geral da UGT, João Proença, saiu esta semana da sua reunião com a troika com um brilhozinho nos olhos e um aconchego na alma. O motivo, confidenciou à imprensa, deve-se ao facto de desta vez ter sentido, por parte das instituições internacionais que compõem o trio, «compreensão perante as dificuldades que o país atravessa, nomeadamente perante a situação insustentável de desemprego». É de crer que o coração de milhões de portugueses tenha batido mais acelerado ouvindo tais palavras, mas o caso não era para tanto como logo a seguir se percebeu pelo continuar da conversa.

Disse Proença que sentiu «algum grau de abertura» por parte de suas excelências, o que pelos vistos é bom na sua óptica. O que não explicou é que abertura é essa, e para quê, e em que é que isso altera as políticas anti-sociais que estão a ser desenvolvidas. Resta pois que o homem se sentiu compreendido, o que deve ser bom para quem assinou com Governo e patrões o acordo de exploração de quem trabalha, mas não muda nem uma vírgula ao acto de traição que tal representa.

 

Compreensão II

 

João Proença, no afã de mostrar serviço, informou ainda que a UGT discutiu com a troika «a redução na protecção no desemprego e as reformas laborais». E com que objectivo? Para que aos inspectores não ocorra «transpôr para Portugal modelos que não são ajustados à realidade portuguesa, modelos que chocam quer com a vontade das confederações sindicais quer com a vontade das confederações patronais». Quais sejam os modelos não especificou, o que disse foi ter-se queixado à troika de haver empresas a dar «maus exemplos». E apontou o dedo à Opel da Azambuja «que fechou e que levou a empresa para Saragoça quando o estabelecimento da Opel na Azambuja era mais produtivo, tinha salários mais baixos e na prática tinham feito um grande investimento pouco tempo antes numa linha de pintura». Os cobradores de impostos terão tomado nota e «compreendido» o desgosto de Proença: a UGT tão disposta a colaborar na baixa de salários e nem assim os ingratos da Opel deixaram de levantar a tenda e procurar outras paragens! Uma injustiça.

 

Compreensão III

 

Como não há duas sem três, Proença ter-se-á sentido compreendido quando «indirectamente» debateu com os homens do fraque o «grande clima de incerteza na Europa», o qual poderá afectar as esperanças nacionais de aumentar a sua capacidade exportadora. «Se a Europa não importar mais é evidente que Portugal tem de ter abertura para alargar o prazo de pagamento» da dívida, concluiu brilhantemente João Proença, ao que a troika reagiu com «compreensão».

Quanto à questão da greve geral marcada pela CGTP para 22 de Março, não esteve em cima da mesa, disse Proença. É a nossa vez de dizer: compreende-se.

 

Descuido

 

«Não tenho uma mensagem mais forte para Portugal hoje, que não seja a de dizer: eu acredito no meu país, eu acredito na Europa», – palavras de Pedro Passos Coelho num encontro com militantes, na Guarda. Na ocasião, Coelho manifestou ainda a convicção de que não serão os «tecnocratas» que estão «por trás de grandes estudos, que vão tomar as decisões mais relevantes». «As decisões mais relevantes podem e devem ser tomadas por cada um dos portugueses no dia a dia».

Só pode ser descuido – acertou.



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