«A luta dos trabalhadores é o principal motor da resistência à
Entrevista com João Ferreira, deputado do PCP ao Parlamento
«A tristeza dos gregos mistura-se com a revolta»

Na passada semana, dias 23 e 24, João Ferreira esteve na Grécia integrado numa delegação do Grupo da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica (GUE/NGL), a convite do Partido Comunista da Grécia (KKE). Ao Avante!, o deputado dá conta da situação no país e do espírito de indignação e revolta das massas populares.

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Avante! Que impressões trazes desse país mergulhado numa profunda crise económica e social?

João Ferreira – A Grécia e o seu povo foram empurrados por um caminho desgraçado, até à situação insustentável em que hoje se encontram. Ninguém o ignora. Apesar disso, com uma violência inaudita, a classe dominante grega e as potências da União Europeia insistem na imposição, a todo o custo, desse mesmo caminho.

Entre o povo grego, a tristeza mistura-se com a revolta.

A devastação social percebe-se nas ruas. Nos amontoados de gente à porta dos centros de emprego; nas ruas de comércio, outrora repletas, hoje quase desertas; no número crescente daqueles que fazem das ruas de Atenas a casa que perderam.

A dureza das estatísticas confirma-o: mais de um milhão e meio de desempregados; entre os mais jovens, o desemprego supera já os 50%.

O sistema político mergulhou num profundo descrédito. Os partidos que têm gerido o sistema estão profundamente desacreditados.

Há um ascenso notório do movimento e da luta populares, indissociáveis do reforço do KKE. O movimento sindical de classe reforça a sua influência junto dos trabalhadores e a sua capacidade de mobilização.

Em largos sectores e camadas da população, prevalece, todavia, um sentimento de profunda descrença – campo fértil para a manipulação dos sentimentos de genuína revolta das massas populares, orientando-os por vias inconsequentes ou profundamente reaccionárias.

Os desenvolvimentos próximos estão em aberto. A persistência neste caminho faz adivinhar inevitáveis rupturas. As potencialidades da luta são reais, mas não apagam os perigos, também eles reais, de evoluções muito negativas.

 
Como vê o KKE a situação no país e que caminhos alternativos aponta ao povo grego, que, em Abril, será chamado às urnas?

Antes de mais, não é seguro que em Abril se realize eleições. Tal vai depender, em grande medida, do resultado dos esforços que a classe dominante vem desenvolvendo para reorganizar um sistema político profundamente desacreditado, a partir das forças que historicamente têm defendido os seus interesses: a direita e a social-democracia.

O KKE tem tido a preocupação de inserir a situação vivida pelo povo grego no contexto do aprofundamento da crise do capitalismo, do agravamento das contradições do sistema, da agudização do confronto de classes e das rivalidades inter-imperialistas. Recusando visões redutoras, que se centrem unicamente em expressões parciais da crise (a chamada «crise da dívida», por exemplo), o KKE considera que sem questionar o poder do capital, a luta não terá perspectiva nem resultados. Por isso apela ao derrube do sistema capitalista, à tomada do poder pelos trabalhadores e ao controlo dos meios de produção, em benefício do povo. Os camaradas entendem que a situação impõe, no imediato, a luta pelo socialismo como a alternativa necessária. A recusa total do pagamento da dívida e a saída da Grécia da União Europeia são, consideram, parte integrante deste caminho.

 
A maioria das imagens que as televisões nos mostram incide sobre cenas de violência, de constantes confrontos com a polícia. É verdade que os protestos populares descambam invariavelmente em violência?

Não. É muito importante esclarecer esta questão, desmentindo essa imagem que, incessantemente, a comunicação social dominante procura difundir. A esmagadora maioria dos protestos – que se sucedem a um ritmo praticamente diário – não desembocou em cenas de violência, como as que nos entram casa dentro pela televisão. É evidente que, nalgumas situações, os protestos adquiriram uma expressão violenta. Mas importa dizer – e foram várias as denúncias que ouvimos nesse sentido – que essas situações se associam, muitas vezes, à acção de agentes provocadores infiltrados entre os manifestantes e à acção de grupos de marginais. A simultaneidade dos focos de distúrbios; os alvos específicos, seleccionados em partes distintas da cidade; as denúncias de conivência das forças policiais – são alguns dos aspectos que denotam, de acordo com as acusações que ouvimos, uma acção organizada, com o objectivo de denegrir e enfraquecer os protestos, minar a confiança do povo na luta e quebrar a unidade popular.

No programa da visita constava um encontro com os operários de uma metalúrgica que estão em greve há mais de 100 dias, em protesto contra despedimentos abusivos e o corte de salários. Qual é o estado de espírito dessas centenas de operários e como fazem para resistir num combate tão desigual?

Visitámos os operários ao 116.º dia consecutivo de greve. Esta é, por variadíssimas razões, uma luta heróica, um exemplo da força e da unidade dos trabalhadores. E um exemplo de como o sindicalismo de classe ganha raízes, mesmo em sectores outrora dominados por sindicatos reformistas. Vencendo as tentativas, por parte do patronato, com a conivência do governo, de quebrar a sua resistência, de os dividir, os trabalhadores mantiveram-se firmes e determinados na recusa de trabalhar mais por menos dinheiro e na exigência de reintegração dos seus camaradas despedidos. A sua luta corajosa acabou por ganhar uma projecção internacional. A solidariedade tem sido determinante. A começar na das populações locais, as primeiras a apoiarem as famílias dos operários em greve. Camponeses locais começaram a levar alimentos aos operários. Os professores organizaram-se para dar gratuitamente aulas aos filhos dos operários. São alguns exemplos. A que se soma, agora, a solidariedade internacional, que lhes chega de várias partes do mundo.


Essa firmeza e determinação existem noutros sectores da classe operária e dos trabalhadores em geral?

Pelo que pudemos perceber nesta curta visita, existem diversas outras lutas sectoriais com dimensão relevante. A luta dos trabalhadores confirma-se como o principal motor da resistência à agressão.

Mas é fundamental percebermos que tudo isto se passa num contexto de uma intensa ofensiva ideológica. Os camaradas do KKE não hesitam em referir-se a uma «campanha ao estilo de Goebbels». Uma campanha com dimensões diferentes – seja semeando a descrença e o conformismo, seja promovendo soluções que possam funcionar como válvulas de escape do descontentamento social – que se articulam entre si com um objectivo único: travar o desenvolvimento consequente da luta, capaz de pôr em causa o sistema.

 
No nosso País, os governantes insistem diariamente em que Portugal não é a Grécia, que está a cumprir os compromissos da troika, e que por isso irá superar as actuais dificuldades. Será verdade que os governos gregos não têm cumprido os compromissos que assinaram, ou, pelo contrário, a situação caótica da economia e a consequente convulsão social decorrem precisamente do estrito cumprimento do programa draconiano de empobrecimento do povo?

Recorde-se que essa preocupação em estabelecer a diferença entre Portugal e a Grécia vem já do tempo do primeiro programa FMI-UE aplicado à Grécia. Lembremo-nos das juras de Sócrates que jamais o mesmo sucederia em Portugal. Agora é Passos Coelho no Governo a jurar que Portugal não é a Grécia. Ao mesmo tempo que, conhecendo como conhecem o que serão as consequências do sórdido pacto de agressão que estão a impor ao povo português, vão abrindo caminho para o prolongamento da agressão, para lá de 2013.

Evidentemente que a aplicação de um programa com as características do pacto de agressão, seja na Grécia ou em Portugal, não é linear. A luta dos trabalhadores, lá como cá, acaba por forçar alguns recuos e criar dificuldades à aplicação de determinadas medidas. Mas lá como cá, o contexto geral tem sido de avanço das medidas do pacto – o que determina a situação dramática vivida na Grécia e o afundamento do país, que se vem registando também em Portugal.

Mas há que sublinhar que estas políticas não são novas. Elas foram as mesmas que estiveram na origem da situação difícil a que quer Portugal quer a Grécia chegaram, antes dos respectivos pactos de agressão FMI-UE. As classes dominantes estão, agora, a aproveitar a crise que criaram como um pretexto para levarem mais longe estas políticas, para exercerem chantagem sobre os povos e aprofundarem a exploração.

 
Nesse caso, Portugal poderá estar em situação semelhante à Grécia dentro de um ano?

A prosseguir a aplicação do pacto de agressão, assim será. Mas a História está por escrever e os trabalhadores e os povos têm aqui o papel determinante. Uma coisa são as intenções dos agressores – nacionais e estrangeiros – e outra, diversa, é o balanço final do confronto de classes, que se agudiza a cada dia. A luta dos trabalhadores e do povo português, de que a próxima greve geral volta a ser uma expressão superior, será um factor decisivo na determinação da situação que viveremos dentro de um ano.



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