• Anabela Fino

Fezadas

O ministro da Economia e do Emprego, Álvaro Santos Pereira, garantiu esta terça-feira que Portugal está «em condições muito melhores» do que quando o Governo tomou posse. A afirmação foi feita em Aveiro – onde incompreensivelmente o ministro das «natas» não fez qualquer referência às potencialidades dos ovos moles –, e ao que parece a convicção de melhoria radica em duas razões de peso. Primeira, é porque é isso que dizem a troika e os parceiros europeus; segunda, porque o Governo está «altamente e totalmente» empenhado em «conseguir uma consolidação orçamental e uma diminuição da trajetória da dívida».

Se os senhores dizem, está dito, e o Governo não faz por menos, só altamente.

Álvaro Pereira não explicou como compagina as suas desassombradas declarações com o reconhecimento de que «a evolução da economia nacional vai depender, primeiro, da remoção dos obstáculos ao crescimento económico», justamente a área de vazio do Governo. Tão pouco explicou como é que o «estamos muito melhor» se conjuga com o aumento do desemprego e com as medidas consagradas no chamado acordo de concertação social, mas é de crer que nesta matéria o ministro acompanhe o dirigente da JSD, Duarte Marques, para quem o combate ao desemprego «sobretudo é uma questão de fé e de acreditar que é possível».

Aliás, só mesmo com uma grande fezada é que Álvaro Pereira pode fazer bater a bota do seu discurso com a perdigota das declarações do seu colega das Finanças, Vítor Gaspar, que anteontem informou que o Governo reviu em baixa a sua previsão de crescimento para 2012 prevendo agora uma contração de 3,3%, que o «indicador mais marcante para a perceção da evolução económica – o desemprego –continuará a crescer em 2012 e no princípio de 2013», prevendo que o desemprego (oficial) atingirá cerca de 14,5 por cento em 2012, e que o Executivo irá apresentar até ao «final de Março» um orçamento rectificativo. Traduzindo por miúdos, quer isto dizer mais recessão, mais desemprego e perspectivas de mais medidas de austeridade, o que tudo conjugado provocará mais recessão e mais desemprego... numa infernal espiral que só pode levar o País para o abismo.

Se isto é estar melhor do que quando o Governo PSD/CDS tomou posse, cabe perguntar o que seria estar pior.

Mas lá que Gaspar, tal como Pereira, acredita – ou assim o diz – que o programa da(s) troika(s) «lança bases para um futuro próspero», lá isso diz. Deve ser também uma questão de fé... A mesma que anima a ministra mais confiante deste Governo, Assunção Cristas, que está há meses à espera que chova, não sentada, como a própria explica, mas à espera «activamente» e a fazer o que pode fazer. O que seja não se sabe, mas de tanto esperar enquanto no País alastra a seca severa e mesmo extrema, ainda é capaz de chover.

Enquanto isso, o secretário-geral do PS não encontra melhor que fazer do que anunciar a criação do Laboratório de Ideias Para Portugal (LIPP). As propostas que venham a emanar do LIPP serão para incluir no programa eleitoral do PS para as legislativas de 2015, e a sua aplicação – na presunção de o PS ganhar as eleições – deve ter como horizonte o ano de 2024. Até lá, o Governo pode (des)governar descansado que o PS vai para o laboratório. Tenham dó! Com um PS destes nem a fé nos vale.



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