• Hugo Janeiro

Imprescindíveis

«Acabei de ser despedido». A frase pesada esmurrou-me o estômago conciso pela mecânica que antecede o atirar de um «tudo bem?». Combalidos, entrámos e saímos de um café. A bica desnecessária e o cigarro nervoso entretinham a matuta sobre quem podia ajudar. Imediatamente. O que fazer? O sindicalista saberá, concordámos.

Saltámos para o carro e num pestanejar estávamos à porta da fábrica onde ficara aprazado o encontro. Fumámos mais. Unia-nos a vontade de agir, evitar a sentença de desemprego que pairava sombria. Partilhámos o optimismo possível.

Chegou o dirigente sindical. Comprometera-se a dedicar uns minutos ao caso antes de entrar num plenário. Cumpriu, como sempre. Aguardava-o uma discussão sobre o lay-off de dezenas de trabalhadores. Não obstante, naquele momento, o operário mandado para o olho da rua, literalmente da manhã para a tarde, focava a sua atenção.

Os nervos retesados pela correria iniciada cedo entre proletários esmagados pela crise capitalista, que consome sobretudo quem produz e cria riqueza, fizeram as perguntas sair disparadas.

Efectivo? Sim. Só tu foste despedido? Não. Todos do mesmo sector? Sim. Motivo? Extinção do posto de trabalho. Extinção? Mas acabaram com o teu sector? Não, não, ficam lá alguns. Então não pode ser. E passou a explicar, assertivo apesar da hora chamar para a assembleia e enquanto um administrador chegava numa bomba de alta cilindrada.

Dizem os canalhas que os sindicalistas não trabalham, que são prescindíveis, remoí sem dizer. Digo agora: quem não trabalha nem faz falta é quem manda montado na mais-valia extorquida, ostentando o poder que a ditadura burguesa lhe confere para dispor dos trabalhadores como quem abre, consome e descarta embalagens de pilhas, que esgotadas vão para a reciclagem, antecâmara de nova entrada no sistema em piores condições.

Saímos disparados e o operário despedido alimentava o empenho em manter o seu ganha-pão. A jovialidade sobrepôs-se aos 40 anos, empurrada pela confiança que lhe havia sido transmitida. É preciso chamar os outros.

Agora noutro café, repetia diligente ao telefone: «isto não é como eles dizem. Vem cá ter. É do teu interesse». Palavras justas que há muito aguardavam oportunidade. O prestígio de explorado consciente que já tomou partido atalhou delongas e fez sobressair a contundência da síntese. Todos consideraram que, de facto, era do interesse de cada um. Apareceram velozes.

Revolta. Algumas lágrimas, poucas. Muita fraternidade. Unidos estavam mais fortes. Talvez nunca se tenham sentido tão próximos.

Não ignoro como continua este pedaço do nosso quotidiano, mas o que mais importa é que estes trabalhadores despedidos já estão no combate ao lado de muitos milhões.

Viveram um episódio – breve, pode ser – da luta de classes que é toda a sua história e a dos seus semelhantes. Chocaram de frente com a sua condição. Sentiram-se igualmente fracos, e depois, juntos, fortes. Aprenderam como começa a resistência, que é o primeiro passo do futuro. Ganharam experiência. Quem sabe caminham connosco na próxima greve geral de dia 22.

Mesmo quando julgam que murmuram sozinhos e assombrados pela resignação, nada mais os afasta do nosso presente colectivo, onde são imprescindíveis, contrariamente ao que lhes disse o patrão.



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