• Manuel Gouveia

Marx em Maio

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Entre 3 e 5 de Maio realizou-se na Universidade de Letras de Lisboa, por iniciativa do Grupo de Estudos Marxistas, o Congresso «Marx em Maio – Perspectivas para o Século XXI».

Realizado por ocasião do 194.º aniversário do nascimento de Marx, neste Congresso tratou-se mais de marxismo do que de Karl Marx, não só porque, como sublinhou o Sérgio Ribeiro, «só com Marx há marxismo, mas há marxismo para além de Marx», mas porque a importância de Marx não se mede em discursos laudatórios mas nas múltiplas dimensões do marxismo actuante que ainda hoje sente necessidade do pensar de Marx, «No imens(o)urável contributo de Marx, que ajuda para a compreensão de uma fase que Marx não estudou? Não para apenas compreender, para transformar.»1

Outros méritos não tivesse, o Congresso soube recusar todas as fórmulas redutoras de Marx, pois não contrapôs o jovem ao velho Marx, nem o filósofo ao economista, nem o organizador da Internacional ao estudioso da Comuna, nem se dedicou ao exercício fútil de separar o Marx da «Sagrada Família» do Marx do «Manifesto» do Marx de «O Capital», nem tentou separar Marx de Engels. E soube ainda optar por uma vastidão temática imensa (18 mesas com mais de 50 intervenções) que acabou por ser um razoável equilíbrio face à dimensão da obra de Karl Marx, ao papel do marxismo nos últimos 164 anos e à dimensão e complexidade das tarefas do presente.

Mas outros méritos teve. Desde logo, que num mundo onde se tenta congelar o pensamento, tantos se atrevam a pensar. Mas mais importante ainda, que tantos se atrevam a pensar com Marx, a assim encontrarem, aproximarem-se ou mergulharem no marxismo2. É que o marxismo é a ideologia do proletariado, e só pode ser (consequentemente) vivido de forma militante. O Congresso teve ainda o mérito de fugir às duas atitudes perante a teoria contra as quais Álvaro Cunhal explicitamente alertou no «Partido com Paredes de Vidro»: Soube fugir da «cristalização de princípios e conceitos que impossibilita a interpretação da realidade actual porque ignora ou despreza os novos, constantes e enriquecedores conhecimentos e experiências» e soube, no essencial, fugir da «tentativa de responder às novas situações através de uma elaboração teórica especulativa e apriorística, desprezando ou rejeitando os princípios do marxismo-leninismo e as experiências de validade universal do movimento revolucionário».

Foi assim um Congresso onde tanto se abordou a situação internacional e nacional, e sublinhou a importância do marxismo para a sua compreensão e transformação, como se falou das ciências naturais, da importância para o pensar científico do materialismo dialético. Que se atreveu a chegar à beira de precipício da utopia, para falar de coisas como as bases da sociedade futura e do trabalho transformado em cultura. E onde se falou da única e verdadeira renovação que interessa, a revolucionária e permanente necessidade de renovar em bases marxistas o estudo do mundo de hoje, em oposição àqueles que triste e ciclicamente partem à renovação das próprias bases do marxismo encontrando sempre, uma e outra vez, o velho oportunismo.

Mas porque das insuficiências também se devem falar, este foi um Congresso onde se falou pouco da Revolução de Abril. E a lacuna é grave por duas razões: porque o seu estudo é um contributo enorme que os marxistas podem dar ao marxismo; porque a Revolução de Abril é o acontecimento maior da luta de classes em Portugal, e aquele que ainda marca o presente e o futuro de Portugal.

Ao permitir tomar um contacto vivo com o processo de nacionalização da banca em Portugal (o papel dos trabalhadores bancários e do seu sindicato, o papel do MFA e do Governo Provisório, ou seja, com a aliança Povo-MFA em funcionamento concreto), a única intervenção sobre o tema deixou bem clara a importância de aprofundar, em bases marxistas, o estudo da Revolução Portuguesa, libertando-a do espartilho ideológico e metodológico imposto pelo domínio da burguesia3 sobre esta ciência.

Foi ainda um Congresso que surpreendeu ao apresentar um conjunto de valiosas contribuições oriundas de jovens filósofos que assumem «a sua vinculação à obra de Marx enquanto poderoso instrumento racional e crítico de compreensão do acontecer social, por um lado, e de transformação prática das realidades, por outro», no que não pode deixar de ser interpretado como um sinal dos tempos que vivemos e das suas potencialidades. Sinal dos tempos e das suas dificuldades que também ficou patente na incapacidade de muitos, sempre que surgia a questão da assistência, em enfrentar a questão da ditadura do proletariado4 mesmo quando ela surgia como mera frase revolucionária5.

 

Concluindo

 

Quando Engels procurou uma palavra que sintetizasse Karl Marx, essa palavra foi «revolucionário». Tantos anos passados, e o marxismo continua a ser revolucionário, seja qual o campo concreto da actividade humana onde intervenha – vindo-lhe esse carácter não da arte da postulação de princípios e lógicas de um qualquer homem, mas do facto de o marxismo ser a ideologia do proletariado, da classe revolucionária. E esse carácter revolucionário do marxismo ficou bem patente neste Congresso, e nas cerca de 50 intervenções aí realizadas.

Um Congresso que deixa ainda um repto a nós, que no PCP assumimos a tarefa marxista de «formar a força capaz de varrer o velho e criar o novo».6

É que talvez a contradição mais esclarecedora deste Congresso tenha sido que exactamente aquilo de que quase todos falaram – a Revolução – tenha sido, enquanto processo concreto e consciente em que já estamos envolvidos, o grande ausente do debate.

Ser vanguarda é percebermos em que medida essa contradição representa um desafio lançado na nossa direcção.

Intervieram no debate os seguintes oradores: Armando Myre Dores, António Feijó, João Fagundes, Miguel Urbano Rodrigues, Angeles Maestro, Manuel Raposo, Rui Moreira, José Croca, Inês Felix, Manuel Souto Teixeira, André Levy, Carlos Pimenta, Rui Namorado Rosa, Guilherme da Fonseca Statter, Manuel Gouveia, Américo Nunes, Ricardo Noronha, António Borges Coelho, José Barata-Moura, Pedro Santos Maia, Manuel Gusmão, Luís Carapinha, António Louçã, Lincoln Secco, Patrícia Ponte Bastos, Pedro Penilo, Manuel Dias Duarte, Carlos Vidal, Bruno Peixe, Jean Salem, João Arsénio Nunes, Luís Gomes, Hernâni Resende, Dimitris Patelis, Periklis Pavlidis, Triantafullos Muimaris, Vladimir Koshel, Alexandr Segal, Sergei Rudakov, Selma Totta, Sérgio Ribeiro, José Carlos Tiago de Oliveira, Irene Viparelli, Sara Totta, Miguel Queiroz, Pedro Carvalho, Helena Rato, Avelãs Nunes e Georges Gastaud.

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1 Também do Sérgio Ribeiro

2 Os marxistas-leninistas são marxistas. São os oportunistas que sentindo a necessidade de postular um marxismo sem Lénine se expõem como não marxistas. Quando escrevo marxismo ou marxismo-leninismo penso na mesma coisa.

3 Em Portugal, a burguesia partilha com a pequena-burguesia esse domínio, alimentando uns o branqueamento do fascismo português e outros promovendo o oportunismo, revelado em tiques como a necessidade de desvalorizar o papel da resistência para a própria Revolução, de desvalorizar a Aliança Povo-MFA para valorizar a acção «revolucionária» dos que contra essa aliança conspiraram e lutaram, de desaproveitar tudo o que o próprio processo contra-revolucionário expôs sobre a Revolução.

4 E só se enfrenta com Lénine, por exemplo no «Estado e a Revolução»: «As formas dos estados burgueses são extraordinariamente variadas, mas a sua essência é apenas uma: em última análise, todos estes estados são, de uma maneira ou de outra, mas necessariamente, uma ditadura da burguesia. A transição do capitalismo para o comunismo não pode naturalmente deixar de dar uma enorme abundância e variedade de formas políticas, mas a sua essência será necessariamente uma só: a ditadura do proletariado

5 É que se é verdade que não há marxismo sem adesão à ditadura do proletariado, a repetição exaustiva desta premissa por alguns é uma mera frase revolucionária, que expõe alguém que não faz a mínima ideia do que está a falar, e principalmente, alguém que não está minimamente preocupado em promover a compreensão de quem o está a ouvir, apenas quer marcar diferenças com frases altissonantes.

6 «Os homens sempre foram em política vítimas ingénuas do engano dos outros e do próprio e continuarão a sê-lo enquanto não aprendem a descobrir por trás de todas as frases, declarações e promessas morais, religiosas, políticas e sociais, os interesses de uma ou de outra classe. Os partidários de reformas e melhoramentos ver-se-ão sempre enganados pelos defensores do velho, enquanto não compreenderem que toda a instituição velha, por mais bárbara e apodrecida que pareça, se mantém pela força de umas ou de outras classes dominantes. E para vencer a resistência dessas classes só há um meio: encontrar na própria sociedade que nos rodeia, educar e organizar para a luta, os elementos que possam – e, pela sua situação social, devam – formar a força capaz de varrer o velho e criar o novo.» Lénine



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