O eleitorado votou maioritariamente contra a austeridade
Eleições legislativas na Grécia
A rejeição da <i>troika</i>

Se as eleições legislativas realizadas na Grécia, no domingo, 6, forem vistas como um referendo (sim ou não) à continuação das políticas de austeridade impostas pela troika, o resultado é um contundente Não!

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O sinal mais evidente dessa rejeição foi o afundamento dos dois maiores partidos, que até aqui representavam perto de 80 por cento dos votos e se alternavam no poder para prosseguir, no essencial, as mesmas políticas.

A Nova Democracia (ND) obteve, pois, uma desoladora vitória, com 18,85 por cento dos votos (segundo os resultados oficiais finais), conseguindo 108 deputados, 50 dos quais atribuídos como bónus pelo sistema eleitoral à força política mais votada.

Afastados do governo em 2009 pelos sociais-democratas do PASOK, o fraco resultado dos conservadores da ND é ainda evidente quando comparado com os 35,5 por cento e os 91 deputados que então elegeram.

Mais expressiva foi todavia a derrocada do PASOK, que passou de 43,9 por cento e 160 deputados em 2009, para 13,18 por cento e apenas 41 deputados – o pior resultado de sempre da sua história, que o relegou para terceira força política.

Somadas as percentagens destes dois partidos, os únicos que defendem a necessidade de prosseguir o programa da troika, concluiu-se que menos de um terço do eleitorado apoia tal caminho.

E algumas alterações terão de ser feitas, já que, juntos, ND e PASOK totalizam apenas 149 dos 300 assentos parlamentares, insuficientes para uma eventual coligação governativa.

 

Negociações difíceis

 

De imediato, tanto o PASOK como a ND apelaram à constituição e «um governo de unidade nacional» com «todos os partidos europeístas», para honrar o programa da troika. Tarefa que não se afigura fácil, uma vez que a segunda força política, a coligação Syriza, é pró-europeia mas anti-austeridade, e por enquanto mantém a sua posição contrária ao memorando.

Tendo quase quadruplicado os seus resultados (16,78 por cento dos votos e 52 deputados, contra 4,6 por cento e 13 deputados em 2009), a Syriza garante que honrará as suas propostas e que tudo fará para que o próximo governo renegocie as condições dos empréstimos, afirmou o seu líder, Alexis Tsipras, na noite das eleições.

À direita, os «Gregos Independentes», quarta força com 10,6% e 33 deputados (partido criado por ex-deputados da ND, expulsos por terem votado contra com o último plano de austeridade, em Fevereiro), também não se mostram abertos a apoiar um executivo ND/PASOK, tendo admitido, pelo contrário, integrar um governo dirigido pela Syriza.

E mesmo a Esquerda Democrática (cisão da Syriza com deputados do PASOK), sétima força mais votada (6,10% e 19 deputados) mostra-se renitente em apoiar um governo constituído apenas pela ND e PASOK.

Excluída está, à partida, a hipótese de um apoio deste género por parte do partido neonazi Chrysi Afgi (Aurora Dourada), que obteve 6,97 por cento dos votos e 21 deputados. Em contrapartida, o Laos, seu antecessor de extrema-direita, viu-se erradiado do parlamento, ao não atingir a fasquia mínima dos três por cento, claramente penalizado pelo seu apoio ao governo do tecnocrata Papadimos.

 

Comunistas avançam

 

A reviravolta na cena política do país é analisada pelos comunistas gregos como o início de «uma fase de transição, em que haverá a tentativa de criar um novo cenário político com novas formações, com novas pessoas, com uma orientação de centro-direita ou com base numa nova social-democracia, que terá a Syriza no seu núcleo».

Como frisou a secretária-geral do CC do KKE, Aleka Papariga, o objectivo destas tentativas para formar governo, é «impedir a crescente radicalização popular».

Para a dirigente comunista «o resultado das eleições, apesar do facto de os votos se terem dispersado em ambas as direcções, à esquerda e à direita, mostram claramente uma tendência positiva: as mudanças radicais estão a amadurecer ou irão amadurecer na consciência do povo, amadurecerá o movimento para uma derrocada real e este movimento não estará longe e muito menos em oposição à proposta política do KKE quanto aos problemas imediatos, para o poder dos trabalhadores e do povo».

Notando que os comunistas gregos enfrentaram sozinhos nestas eleições as forças pró-europeias e favoráveis à UE, Papariga avaliou positivamente os resultados obtidos pelo KKE (8,48 % e 26 deputados, contra 7,5 e 21 deputados em 2009), e lembrou que o partido anunciou com grande antecedência que não fará concessões a qualquer governo que saia das eleições, seja ele de «centro-direita, de centro-esquerda ou das esquerdas, seja ele um governo de unidade nacional ou universal como se discute neste momento».

 

Chantagem e pressão

 

Nas vésperas das eleições gregas, o Instituto Internacional de Finanças, a associação mundial da banca, prevendo a derrota das forças pró-memorando na Grécia, divulgou um relatório em que exige a designação de uma «administração de tecnocratas para assumir a direcção do país e garantir a estabilidade».

Ao mesmo tempo, a União de Bancos Suíços excluía a possibilidade de renegociar os empréstimos, defendida por alguns partidos, considerando que essa proposta «sugeria um grau de liberdade que [a Grécia] não tem.

Por seu turno, o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schaeuble, não hesitou em ingerir-se directamente na campanha grega, para pressionar os eleitores a votar favoravelmente às medidas de austeridade, caso contrário o país poderia ser forçado a sair da zona euro e regressar ao dracma. E contudo, a maioria do eleitorado votou contra os partidos do memorando.



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