Descredibilizada a versão dos bombardeamentos sobre Houla, o imperialismo responsabiliza agora uma alegada milícia pró-regime
Massacre de Houla revigora campanha favorável a guerra humanitária
Síria ameaçada por agressão imperialista

O governo sírio voltou a rejeitar o envolvimento das suas forças armadas no massacre de Houla e reiterou as acusações aos terroristas que operam no território. Enquanto a investigação ao sucedido avança, aprofunda-se a campanha a favor de uma agressão imperialista à Síria, e surgem informações que confirmam manobras preparatórias de uma guerra humanitária ao estilo das desencadeadas contra a Líbia ou a ex-Jugoslávia.

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Em conferência de imprensa realizada a semana passada em Damasco, o responsável pela comissão de investigação à chacina, general Jamal Suleiman, sublinhou que as conclusões preliminares confirmam que os grupos armados são responsáveis pelo ataque que matou 108 pessoas em Houla.

Suleiman esclareceu que «as forças de segurança estavam longe do local do massacre» que vitimou, na sua maioria, «famílias que recusaram juntar-se ou apoiar os rebeldes» (EFE, 31.05). Aquela zona, testemunharam populares ouvidos pela comissão, encontrava-se controlada por milícias (Prensa Latina, 31.05).

O mandatário precisou que a maior parte das vítimas foi chacinada em Taldo, localidade onde «as tropas do governo não entraram, nem antes nem depois [do massacre]» e que «um grande número de cadáveres pertencem a terroristas caídos nos combates com as forças da ordem», desencadeados, posteriormente, quando cerca de 600 a 800 homens reunidos nas proximidades de Houla atacaram as tropas governamentais» (AFP, 31.05). 26 membros militares sírios morreram nesses ataques (Prensa Latina, 31.05), realizados com morteiros, armas antitanque e outro armamento pesado.

Simultaneamente, uma parte do contingente terrorista abatia os civis usando, sobretudo, armas brancas, sustentou Suleiman (Prensa Latina, 31.05). Os indicadores recolhidos até agora revelam que os cadáveres não apresentam sinais de qualquer bombardeamento – facto, aliás, constatado no terreno pelo secretariado de imprensa do Alto Representante do Conselho de Direitos Humanos da ONU (Voz da Rússia 29.05).

 

Discurso orientado

 

No mesmo encontro com a comunicação social, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Síria, Jihad Maqdisi, criticou duramente o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Kimoon, lembrando que este «abandonou a sua missão de manter a paz e a segurança no mundo para ser um mensageiro de guerras civis» (EFE, 01.06). Ki-moon considerou que a Síria pode entrar numa espiral de guerra civil da qual pode nunca recuperar (AFP, 31.05).

As declarações do responsável máximo das Nações Unidas integram-se na campanha de intoxicação da opinião pública cujo objectivo é criar condições para uma agressão imperialista à Síria.

Sendo cada vez mais evidente que a matança de Houla não resultou de qualquer bombardeamento do exército sírio, o discurso dominante atribui agora a responsabilidade a uma milícia pretensamente pró-governamental.

A este propósito, voltou a vociferar a alta comissária dos Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay, que não estando presente na sessão especial do Conselho, reunido na sexta-feira, 1, em Genebra, a pedido do Qatar, Turquia, EUA, Arábia Saudita, Dinamarca e UE, enviou uma carta na qual se refere a «crimes cometidos contra a humanidade» (Reuters, 01.06).

Hillary Clinton, por seu lado, voltou a falar numa transição urgente do poder, repetindo, aliás, o discurso relativo à Líbia e a Muammar Kahdafi, com as consequências que estão à vista.

O receituário usado para promover as ditas guerras humanitárias contra a ex-Jugoslávia, Iraque ou Líbia é identificável, igualmente, numa entrevista de um suposto líder opositor sírio ao jornal israelita Haaretz.

O entrevistado, que falou sob reserva de anonimato, assegurou que após a queda de Bashar Al-Assad a oposição tratará de assegurar o controlo das armas químicas. Mais do que a garantia, ecoam as supostas armas químicas detidas pelo regime, tal como ecoaram as armas de destruição massiva que os EUA diziam existir no Iraque.

A isto, a fonte do diário israelita acresce o envolvimento do Irão, afirmando que a nação persa «enviou para a Síria aviões não-tripulados para ajudar nas tarefas de vigilância» e «abriu um fundo de milhões de dólares para ajudar Al Assad a comprar armas à Rússia» (EuropaPress, 29.05).

 

Desestabilização de toda a região

 

Após a entrevista, o governo de Israel acusou abertamente o Irão de envolvimento na matança de civis em Houla e de comportamento agressivo e perigoso na região (EuropaPress, 01.06). No mesmo sentido, um grupo de «opositores» denominado Conselho Revolucionário de Aleppo reivindicou o sequestro de 11 peregrinos libaneses. Capturados a 22 de Maio no Norte da Síria, muitos deles participaram na repressão dos protestos na Síria, diz o auto-proclamado grupo anti-Assad. Por isso, disseram, só serão libertados quando o clérigo xiita e líder do Hezbollah, Hassan Nassrala (homem vínculado a Teerão), apresentar desculpas públicas (EuropaPress, 01.06).

Turquia e Líbano são nodais no xadrez da agressão. A AFP reportava há dias que o ministro dos Negócios estrangeiros turco, Ahmet Davutoglu, recebeu o chefe do Conselho Nacional Sírio, Burhan Ghalioun, com o objectivo de estreitar os laços com os sublevados.

Os laços já eram estreitos. Na Turquia o CNS e o Exército Sírio Livre movem-se com ligeireza e o apoio das autoridades, incluindo as militares. Nas fronteira com a Síria, as incursões são recorrentes – pelo menos 20 soldados governamentais, seis civis e seis rebeldes morreram nos dias 28 e 29 em Atareb, localidade da província de Aleppo a escassos quilómetros da fronteira turca, informaram fontes da própria oposição (Reuters, 29.05).

No Líbano, os EUA e a Arábia Saudita apostam na propagação do conflito. Ainda no dia 31 de Maio, o exército sírio frustrou mais uma tentativa de incursão por parte de um bando terrorista nas imediações de Ybak, noticiou a agência Sana.

Recentemente, o instituto norte-americano Stratfor notava que, para além das incursões a partir do Líbano, o objectivo é incrementar o trânsito de armas para a Síria (Prensa Latina, 27.05), o que já hoje é uma realidade, conforme apurou em entrevistas a traficantes a jornalista do Russia Today Maria Finoshina.

O arrastamento do Líbano para o conflito é um facto, sublinhe-se. Recorde-se os confrontos noticiados por agências internacionais sobre choques armados entre o que denominam de prós e anti-Assad.

O exército libanês tem apresado diversos carregamentos com armamento destinado aos mercenários em acção na Síria. Em Maio e Abril, um navio de pavilhão italiano e outro de bandeira da Serra Leoa (proveniente do porto egípcio de Alexandria) foram inspeccionados em Tripoli, revelando-se que continham armamento destinado aos insurgentes sírios. Algumas caixas do primeiro barco traziam a chancela do Qatari Army, segundo a Press TV.

 

Máquina mortal prepara-se

 

Uma acção militar levada a cabo por uma coligação internacional, sob comando da NATO, como na Líbia, é uma hipótese que está em cima da mesa. A perda do emirado islâmico de Baba Amr, em Homs, por parte dos grupos armados sírios terá sido um contratempo

Homs não foi a Benghazi Síria. Os disparos de atiradores furtivos contra manifestações não lograram todo o seu objectivo incendiário. Os atentados à bomba contra alvos civis, instituições do Estado, vias de comunicação e infra-estruturas também não terão desencadeado uma reacção indiscriminada por parte das autoridades de Damasco. Será que Houla é o banho de sangue que o imperialismo necessita para agredir o país com o pretexto da protecção dos civis? A verdade é que as últimas informações indiciam manobras nesse sentido.

Na quarta-feira, 30, a embaixadora norte-americana na ONU, Susan Rice, sugeriu que uma intervenção militar da «comunidade internacional» contra «o regime de Bashar Al-Assad» poderia avançar mesmo sem o apoio do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Para tal, disse, citada por agências, teria de falhar o plano de paz do enviado da ONU, Kofi Annan, e o conflito teria de ultrapassar as fronteiras sírias.

Acto contínuo, o Exército Sírio Livre adiantou que «não se vê obrigado a nenhum compromisso do Plano Annan» e que o seu dever «é defender os civis» (AFP, 31.05).

As bombásticas afirmações de Rice foram, entretanto, explicadas pelo secretário da Defesa norte-americano. Leon Panetta garantiu que qualquer acção militar contra a Síria pressupõe o apoio das Nações Unidas, já que, revelou, «os EUA não se vêem a realizar uma operação militar sem uma resolução do CS da ONU» (Lusa, 01.06).

Contorcionismos diplomáticos à parte, a 23 de Maio já a agência de notícias israelita Debka dava nota de que os opositores sírios haviam começado a receber armas dos EUA. O envio terá sido aprovado em segredo depois de a Casa Branca ter concluído que, ao cabo de 14 meses de afluxos e refluxos, era necessário dar passos adiante. E avançou, enviando armas antitanque de última geração e outro material em qualidade e quantidade, assegura ainda a mesma fonte.

Estas informações são consistentes com a denúncia feita pelo Washington Post na terceira semana de Maio. De acordo com o diário, que garante ter apurado as informações publicadas junto de altos responsáveis do governo norte-americano e de diplomatas de ouras potências imperialistas, a administração Obama decidiu mudar o seu nível de envolvimento no conflito, nomeadamente em relação à sofisticação do armamento concedido à oposição. Manteve, no entanto, o contacto e a logística via «países do Golfo». O material estará armazenado em Damasco, Idleb, junto à fronteira turca, e Zabadani, junto à fronteira libanesa, salienta o Post.

Nos primeiros dias de Maio, Daniel Glaser, membro da administração Obama com o sugestivo nome de secretário do Tesouro para Financiamento do Terrorismo, passou 12 dias em périplo pela Arábia Saudita, Kuwait, Qatar, Israel e Emirados Árabes Unidos, reunindo-se com responsáveis governamentais e empresários (Prensa Latina, 03.05).

Os preparativos para o ataque não se ficam por aqui. Recentemente, activistas sírios estiveram no Kosovo a tratar da instalação de campos de treino, o que motivou uma reacção do executivo de Moscovo (Russia Today, 15.05).

A agência israelita Debka garante ainda que 12 mil militares de 19 nações, entre as quais os EUA, Arábia Saudita e Jordânia, mas também «aliados europeus», participam em exercícios militares na região. Um responsável jordano clarificou que os jogos de guerra nada têm a ver com a Síria e que a soberania do país é respeitada, mas a verdade é que o general James Mattis pediu a Barack Obama o envio de mais um porta-aviões para o Médio Oriente. O pedido terá sido satisfeito (Russia Today, 29.05).

A avolumar as preocupações sobre uma acção militar imperialista em grande escala, a 31 de Maio a Reuters noticiava que as reservas de petróleo dos EUA subiram pela décima semana consecutiva e alcançaram o maior nível desde 1990, quando, recorde-se, George W. Bush pai afiava os dentes para a chamada Primeira Guerra do Golfo.

 



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