«Perdemos um camarada, um companheiro de luta, um amigo»
Histórico dirigente do PCP faleceu aos 80 anos
Pedro Ramos de Almeida

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Centenas de pessoas despediram-se, segunda-feira, de Pedro Ramos de Almeida, destacado militante do PCP ao longo de quase sessenta anos.

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O PCP fez-se representar pelos membros do Secretariado do Comité Central Manuela Bernardino e Jorge Cordeiro, e por José Casanova, membro do Comité Central e director do Avante!. Foi a este último que coube proferir umas breves palavras, começando por salientar que «com a morte de Pedro Ramos de Almeida perdemos um camarada, um companheiro de luta, um amigo, um resistente antifascista, um combatente pelo futuro».

Segundo José Casanova, «connosco permanecerá a sua memória, impressivamente marcada por uma vida de luta: desde a sua adesão, aos 18 anos de idade, ao MUD Juvenil, do qual foi destacado dirigente; a sua prisão e a postura firme e corajosa que assumiu face à brutalidade dos interrogatórios pidescos e no tribunal fascista, num julgamento colectivo que foi o mais longo na história dos julgamentos políticos em Portugal; a sua intervenção enquanto líder estudantil contra o famigerado decreto-lei 40 900, que visava controlar a actividade das associações de estudantes; a sua acção enquanto dirigente da Frente Patriótica de Libertação Nacional e na direcção da rádio Voz da Liberdade; a sua intervenção qualificada no MDP/CDE de que era dirigente por alturas do 25 de Abril; o seu esforço, ao longo dos tempos, visando a construção da necessária unidade das forças e sectores antifascistas – tudo isso fazendo dele um construtor de Abril».

Mas, acrescentou, na «nossa memória permanecerá, igualmente, o exemplo de militância partidária de Pedro Ramos de Almeida no período que se seguiu ao 25 de Abril: a sua intervenção intensa e lúcida no processo revolucionário, na luta pela concretização de direitos sociais e laborais que durante quase cinco décadas haviam sido negados aos trabalhadores e ao povo português e nas transformações progressistas traduzidas nas históricas conquistas da Revolução que a Constituição de Abril consagrou – da mesma forma que a sua participação na resistência à ofensiva contra-revolucionária que, desde há longos trinta e seis anos, vem tentando, e em muitos casos, infelizmente, conseguindo, roubar-nos esses direitos, essas conquistas, essa democracia – e tudo isso faz dele um construtor da democracia de Abril».

 

Perda para a cultura portuguesa

 

O director do Avante! destacou ainda a «enorme perda para a cultura portuguesa» que constitui a morte de Pedro Ramos de Almeida. É que com ele, realçou José Casanova, «perdemos um trabalhador intelectual incansável e talentoso, com uma inteligência fulgurante, com uma impressionante capacidade criadora e em relação ao qual, pela inteligência das coisas que nos deu, temos um eterno dever de gratidão; perdemos um criador com uma reflexão e um labor traduzidos na produção de uma obra notável, que constitui uma referência de consulta, leitura, estudo e reflexão indispensáveis para o conhecimento, designadamente, da história do fascismo português. Falo de obras como Salazar, Biografia da Ditadura, O Assassinato do General Humberto Delgado e O Processo do Salazarismo (Relatório sobre Portugal), entre várias outras».

Mas para os comunistas, a morte de Pedro Ramos de Almeida é «tudo isso e mais do que isso: é uma perda imensa e irreparável para a nossa camaradagem, para o nosso convívio, para a nossa militância revolucionária, para a nossa luta». «Não voltaremos a ver o Pedro, com a sua enorme força interior; com a sua confiança desafiando os momentos mais difíceis; com o seu sorriso e as suas observações irónicas ou sarcásticas quando a situação o exigia; com o seu saber vasto e profundo; com a sua disponibilidade militante; com a sua fraterna e solidária solicitude; com a sua camaradagem e a sua amizade. Por tudo isso, este nosso adeus a Pedro Ramos de Almeida é um adeus de pesar e de tristeza – um pesar e uma tristeza que, num abraço solidário, comungamos com toda a sua família – mas é sobretudo um imenso adeus de admiração, de camaradagem, de amizade.»

Como salientou José Casanova, a despedida de Pedro Ramos de Almeida é, também, um compromisso: «de prosseguirmos até à vitória final a luta a que Pedro Ramos de Almeida dedicou toda a sua vida: a luta pela liberdade, pela justiça social, pela paz, pelo socialismo, pelo comunismo.»

 

Dedicação, talento e coragem

 

Militante do PCP desde os 18 anos, Pedro Ramos de Almeira licenciou-se em Direito e foi membro do Movimento de Unidade Democrática Juvenil. Preso em 1954, torturado e sujeito à tortura do sono, foi condenado a uma pena de quatro anos.

Enquanto estudante, foi um dos líderes da luta dos estudantes das três academias (Lisboa, Porto e Coimbra), em 1960, contra o célebre Decreto-lei 40900. Na iminência de uma nova prisão, rumou a Paris como quadro clandestino. Em 1962, como dirigente do PCP, está em Praga onde representa o Partido junto de revistas internacionais dos partidos comunistas.

A partir de 1964, viveu cinco anos em Argel onde, como membro do Comité Central do PCP, tinha assento na Junta Revolucionária Portuguesa, órgão dirigente da Frente Patriótica de Libertação Nacional. Foi responsável, nomeadamente, pela rádio Voz da Liberdade, que emitia para Lisboa através de Argel. Foi notável o seu contributo para a denúncia internacional do carácter repressivo do fascismo, nomeadamente nas três conferências internacionais pela amnistia dos presos políticos portugueses.

Entre 1969 e 1971, esteve na clandestinidade em Portugal, onde foi resposável pelo Sector Intelectual de Lisboa. Nos finais de 1971, e até 1974, militou na Comissão Democrática Eleitoral. À data do 25 de Abril era dirigente do MDP/CDE.

Deixa uma vasta obra política e literária, para além de inúmeros artigos escritos para a rádio. Estava a escrever um livro sobre o MUD Juvenil.



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