• Luís Carapinha

A missão incendiária liderada pelos EUA não tem as mãos livres
Síria, contas de uma guerra suja

Por maior que seja a perversidade da campanha mediática, esta não poderá toldar a verdade da guerra em curso na Síria. Uma guerra instigada, arquitectada, financiada e conduzida desde o exterior, expressão do exacerbar da luta de classes no plano internacional. Sem a acção criminosa dos EUA, das potências alinhadas da NATO (em que pontifica o revivalismo colonial do trio Erdogan, Hollande e Cameron e a disputa por um maior protagonismo e superior proveito), de Israel e das ditaduras do petrodólar do Golfo a actual guerra terrorista na Síria não seria possível. Este é o elemento decisivo que se sobrepõe aos demais. Não estranha pois o manto de silêncio da comunicação social dominante acerca do carácter, forças motrizes e contexto regional e internacional desta guerra. Não se assistiria à escalada sangrenta, nem ao quadro de «guerra civil» na Síria sem o rastro fresco das guerras imperialistas na Jugoslávia, Iraque, Afeganistão e Líbia. No Afeganistão a guerra arrasta-se. Mais de 2000 soldados só dos Estados Unidos perderam ali a vida. Porém após a inevitável retirada do grosso da presença militar da NATO, anunciada para 2014, os EUA pretendem continuar a utilizar o foco inflamável da instabilidade afegã como força de chantagem direcionado para as fronteiras dos estados limítrofes, incluindo a província autónoma do Xinjiang da China.


C
omo se sabe Pequim constitui a principal preocupação, já assumida, dos EUA. A sinistra engrenagem retroactiva do terrorismo Al-Qaeda (uma cultura das estufas da CIA nos anos 80), os bárbaros ataques com aparelhos não tripulados quotidianamente operados no território do Iémen, Paquistão, Somália, etc. constituem um elemento e caldo orgânico, não só da própria projecção militar do imperialismo norte-americano, como das forças que ainda ontem devassavam a Líbia e hoje são despejadas para o ajuste de contas travado na Síria. Tudo em nome da liberdade e democracia. Ali vemos o modus operandi da promoção do extremismo religioso e da rede pululante de seitas do islamismo radical, o municiamento fratricida da divisão étnico-confessional, como tenebrosamente já se tinha visto na recente ocupação do Iraque. Forças que são carne para canhão ao serviço de agenda desestabilizadora, e simultaneamente força de escape que permite às classes dominantes, indígenas e metrópoles, intensificar a matriz exploradora e gerir as tensões sociais e o descontentamento alargado de camadas populares e até sectores intermédios das burguesias nacionais.

Este é o cenário de fragmentação e desestabilização auspiciado em Washington para a região do chamado Grande Médio Oriente, em que se cruzam interesses nevrálgicos para o controlo da economia mundial e a sua geopolítica. Uma visão que não deixa de ser sintomática da megalomania imperialista no limbo da crise capitalista mundial.

A guerra «sem quartel» contra Damasco, a obsessão em derrubar o «regime» de Bashar al-Assad não esquece por um minuto o legado de décadas da Síria pós-colonial, baluarte da resistência árabe anti-imperialista e da solidariedade com a causa da Palestina, apesar das vicissitudes de um percurso libertador não linear. Pisotear e enterrar a bandeira emancipadora do patriotismo e dignidade árabes, atentando contra a soberania e integridade territorial sírias, é tarefa vital para os agressores. A soberania do Irão surge como um «obstáculo» de fundo (sendo oportuno recordar o golpe da CIA que em 1952 derrubou Mossadegh). Mas a rampa de propagação do «conflito» sírio vai mais além, apontando também à Rússia multinacional (veja-se os recentes atentados no Cáucaso e Tartaristão).

A missão incendiária liderada pelos EUA não tem porém as mãos livres. A resistência patriótica síria é um exemplo de coragem e dignidade merecedor da mais ampla solidariedade. E a Cimeira dos Não-Alinhados acabada de realizar em Teerão, não obstante os elementos contraditórios que conteve, é um importante sinal de esperança para os povos.

 



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