E é sempre a primeira vez

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Chegam como quem vai a passeio, devagar, empurrando carrinhos de bebés, de mochila às costas, uns levando pela mão a quentura de outra mão, outros um casaco a prevenir a humidade da noite.

Chegam de olhos despertos para a descoberta e o reencontro, a voz solta na garganta para a esperada saudação, os braços prontos para o abraço que mata saudades de um dia ou de um ano.

Chegam de longe e de perto, velhos e novos, uns pela primeira vez a transbordar expectativa, quase sempre em grupos, outros como quem pisa o chão que também é seu, conquistado com trabalho e militância.

Chegam com amigos e vizinhos, com filhos e netos, raramente sozinhos, quase sempre com encontro marcado lá onde o encontro do último ano deixou raízes.

Chegam e partem, ficando, porque chegar à Atalaia é sempre um ponto de partida para essa aventura sem igual que é a Festa do Avante!.

Faz-se planos que se não cumprem porque os falares de amigo valem bem o tal concerto que não se queria perder, porque o olhar demorado por uma exposição fez falhar uma prova desportiva, porque o debate a que se foi só espreitar afinal se revelou bem interessante, porque sabe bem estar aqui a olhar o Tejo ao som da música, porque em cada canto e recanto há sempre qualquer coisa a acontecer e vale a pena estar lá.

Já sentiste a Carvalhesa? É sentir no peito o coração da terra. Bora lá. Ouve-se conversas soltas e procura-se na memória a lembrança da primeira vez, para (re)descobrir que é sempre a primeira vez para o que se ama. E o olhar comove-se com a escultura do cante alentejano, com os punhos erguidos à entrada da Medideira, com o mar de bandeiras no comício, com o grito mil vezes repetido – Viva o PCP! E as vozes ficam roucas de tanto falar, e as pernas cansadas de tanto andar, e os corpos suados de tanto calor, e sabe sempre a pouco o que tão intensamente se vive.

Esta é a magia da Festa que todos os anos se reencontra e se renova nos espaços, nas gentes, nas artes, nos sonhos dos que sendo o que são sabem como querem que seja o mundo de que são obreiros. Uma Festa de gente de carne e osso, com qualidades e defeitos, mas feita desse barro que um dia construirá o mundo novo, esse mundo para que todos os dias se lança mais um alicerce.

Avó, arranjas-me uma bandeira? 

Olha-se em volta e percebe-se a força dos que não se rendem. Respira-se e fica-se mais forte. Nada, nem ninguém, por mais difícil que o caminho seja, e é, poderá quebrar essa vontade que nos mantém unidos como os dedos da mão.

Por isso esta é a Festa. Nossa e de quantos anseiam por um mundo melhor.       

Anabela Fino

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Intervenção de Jerónimo de Sousa,
Secretário-Geral do PCP,
no acto de abertura da Festa do Avante

O PCP não se acomoda nem se rende

Construtores, participantes, estimados convidados – daqui vos saúdo neste momento de abertura da 36.ª edição da Festa do Avante!.

Permitam-me uma discriminação positiva numa saudação especial: a esta onda imensa de juventude, de jovens que na sua maioria nem nascidos eram quando realizámos a primeira Festa do Avante!, que num tempo em que lhes querem negar e bloquear o seu futuro, a sua autonomia e felicidade, cortar-lhe, se pudessem, o sonho, aqui estiveram na construção, aqui estão agora, aqui estarão nestes três dias com a alegria que lhes é inerente, desfrutando e participando no espaço desta cidade de três dias, das suas actividades e realizações políticas, desportivas, culturais e artísticas. Desta Festa que traduz na sua edificação e realização um exemplo da sociedade, dos valores, ideais e projecto que os comunistas portugueses ambicionam para a sua pátria e para o povo a que pertencem. Valores, ideais e projecto indissociáveis da solidariedade internacionalista, da paz, da amizade e cooperação com todos os povos e países bem expressa pela presença de dezenas de delegações e representações e convidados internacionais.

Num quadro de uma ofensiva sem precedentes desde o Portugal de Abril, quando o capitalismo convoca e usa todas as suas forças e meios para acentuar o seu domínio, aumentar a exploração e as injustiças, abalar e demolir os alicerces sociais e alienar alavancas económicas fundamentais para um desenvolvimento soberano, quando no nosso País se exercita e aplica o pacto de agressão como um bulldozer que tanto responsabiliza a troika ocupante do FMI, BCE e UE, como a troika submissa PS, PSD e CDS, quando numa avassaladora campanha ideológica se proclama durante dias e meses a fio e se persiste nas inevitabilidades, na exigência de rendição sem condições dos que se indignam, protestam e lutam – aqui estamos nesta Festa como estivemos antes e como estaremos no futuro a reafirmar não só a nossa determinação e luta de resistência mas a nossa convicção, não só da necessidade mas da possibilidade de travar e fazer uma ruptura com esta política de afundamento nacional.

Convicção que não se confunde com um desejo.

Quando há um ano nesta Festa do Avante! denunciámos o carácter ilegítimo da troika ocupante e do pacto de agressão então dito (ou melhor dizendo «maldito») «memorando de ajuda externa», prevendo e prevenindo que a sua concretização levaria a um país mais injusto, mais endividado, mais dependente, menos democrático, levantou-se um clamor entre o que diziam ser uma visão pessimista.

Passado um ano, afinal, se errámos foi por defeito e não por excesso.

A realidade começa a sobrepor-se à propaganda. Peguemos por onde pegarmos, onde o pacto de agressão e o Governo tocaram, estragaram!

No enredo e manipulação de estatísticas por vezes esquece-se as coisas concretas, a realidade concreta. Um exemplo gritante: há pouco mais de um ano havia em sentido lato 990 mil desempregados, hoje são mais de um milhão e trezentos mil trabalhadores que sofrem a tragédia do desemprego, com tendência para o agravamento, atingindo particularmente as novas gerações cuja taxa de desemprego passou de 27% há um ano para 36,6% e, como é o caso dos professores, que até ao fim do ano podem sofrer o maior despedimento colectivo da nossa história democrática.

Não resolveram nem o problema do défice nem da dívida, apesar da política a ferro e fogo de extorsão e roubo nos salários, nos subsídios, nos direitos e apoios sociais, na saúde, na eliminação de abonos de família a centenas de milhares de crianças, de esbulho e privatização do sector público.

Uma mentirola já este Governo e os seus comentadores de serviço deixaram cair: aquela ladainha dos sacrifícios repartidos por todos. Porque os banqueiros, os accionistas detentores dos grandes grupos económicos e das grandes fortunas continuam de vento em popa.

Não nos limitámos à análise e ao seu acerto. Lutámos com todos os nossos meios e as nossas forças, apelámos à luta dos trabalhadores e das populações com a consciência das limitações e condicionalismos que resultaram da ofensiva política e ideológica, da correlação de forças existente, tanto mais desequilibrada quanto maior era (e é) o comprometimento do PS com o pacto de agressão, com as medidas gravosas contidas no Orçamento do Estado, com as malfeitorias contidas nas alterações ao Código do Trabalho.

A luta de resistência é a mais difícil, mas ela é a primeira condição para rasgar o caminho à luta pela construção da alternativa. Como sempre afirmámos: resistir é já vencer!

Na pequena luta, por mais modesta que tenha sido, nas grandes manifestações, nas lutas e greves sectoriais, na greve geral contra o aumento da exploração, nas lutas das populações em defesa do Serviço Nacional de Saúde, dos serviços públicos nas suas terras, na defesa do poder local contra a extinção das freguesias, na manifestação de descontentamento e protesto dos agricultores, dos elementos das forças de segurança, dos militares – a primeira vitória foi ir para além do conformismo e do medo, ganhar coragem travando e dificultando a ofensiva, desgastando e reduzindo a base social de apoio do Governo, acentuando dificuldades e contradições tanto no seio dos partidos do Governo como entre os partidos da troika nacional defensores do pacto de agressão.

Tem grande significado o facto de no mês de Agosto terem sido levadas por diante lutas reivindicativas a impedir o aproveitamento patronal das alterações ao Código do Trabalho.

Tanta luta silenciada, desvalorizada que nós próprios tendemos a não valorizar devidamente face a um Governo em fuga para a frente porque sente o tempo a esgotar-se para completar a sua obra de destruição.

Ouvimos por vezes: «a luta de massas não é suficiente para derrotar esta política e este Governo». Pode não ser, mas sem ela, sem o seu desenvolvimento, intensificação e alargamento, sem mais luta organizada é que não os vencemos nem construímos um novo rumo, uma nova política patriótica e de esquerda e um Governo capaz de a concretizar.

Há hoje um elemento novo: são cada vez mais os portugueses que tomam consciência de que a prosseguir esta política desastrosa o País afunda-se. A questão agora está, não só na necessidade de um novo rumo mas na possibilidade da ruptura e de uma política alternativa patriótica e de esquerda.

Sim, é possível! – alicerçada na luta, construída com convergências, definindo objectivos e conteúdos concretos, combatendo ilusões e ideias peregrinas de entendimentos por cima sem assumir rupturas e a rejeição clara do pacto de agressão, de defesa e valorização da produção nacional e do aparelho produtivo, de compromisso na reposição de direitos extorquidos, de salários, subsídios e reformas roubadas, de afirmação da nossa soberania nacional – sim, é possível, uma política alternativa com o reforço do PCP, dando mais força a esta força insubstituível e combatente que não se acomoda nem se rende.

Vivamos esta Festa nas suas diversas dimensões. Que ela nos dê energias novas e também aquela confiança para o dia seguinte, e para os dias e meses seguintes, na certeza de que nenhuma batalha será ganha ou perdida sem ser travada.

Difícil? Quem disse ou pensou que fosse fácil? Mas que vale a pena, vale!

Declaramos aberta a 36.ª edição da Festa do Avante!.

 



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