• Anabela Fino
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Entrevista a Jerónimo de Sousa
O Congresso reforçará o Partido e dará novo alento à luta dos trabalhadores e do povo

A pouco mais de um mês da realização do XIX Congresso do PCP, Jerónimo de Sousa fala das propostas de alteração ao Programa, de algumas das ideias centrais patentes nas Teses e do reforço do Partido. Este não será «um congresso como outros», salientou, manifestando a sua confiança no colectivo partidário, que saberá encontrar forças para levar por diante as imensas tarefas que tem pela frente.

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Tens dito em várias ocasiões que o XIX Congresso do Partido, pelo quadro político e social em que está a ser preparado, só pode ser comparado com o VIII, realizado em 1976. Porquê?

Em 1976, encetou-se a política de direita, com o objectivo de proceder à recuperação e restauração capitalistas, de fazer Abril andar para trás. E se podemos dizer que, de há 36 anos a esta parte, ofensiva sempre houve, temos que ter em conta que a ofensiva que está em curso é mais global, mais profunda e com maior dimensão, agravada ainda pela integração na União Europeia e pela crise do capitalismo. É uma situação de uma gravidade sem precedentes desde o fascismo.

É por isso que consideramos que este não é um congresso como outros, realizados numa situação social e política com elementos mais estáveis ou menos estáveis.


Neste quadro tão exigente, não temes que a preparação do Congresso possa ser de alguma forma secundarizada?

Como costumamos dizer, não fechamos para Congresso. Nem descuramos o Congresso para responder à situação social e política, para dinamizar e intensificar a acção e a luta. Entendemos que tem de haver uma relação dialéctica entre estas duas vertentes.

Como noutros momentos da nossa vida colectiva, temos de encontrar forças para responder a uma situação excepcional como aquela em que vivemos, marcada pela intensificação e multiplicação da luta (designadamente com a greve geral marcada para o dia 14 de Novembro), e simultaneamente envolver o nosso colectivo partidário na preparação do Congresso, ir o mais longe possível na discussão e na contribuição dos nossos militantes e organizações. Temos de ser capazes de fazer isto.


Mas este contexto em que estamos a viver, em que todos os dias surgem questões novas, pode de alguma forma vir a reflectir-se na própria reflexão e análise que está a ser feita para o Congresso?

Podemos até considerar que a realidade em movimento, e no tempo que medeia até final de Novembro, nos obrigue a incluir novos elementos, particularmente nas Teses/Resolução Política. Por exemplo, o significado deste Orçamento do Estado. Não basta olhar para o seu conteúdo gravoso, mas também para os objectivos que comporta, particularmente ao procurar acentuar e perpetuar esta linha de aumento da exploração, de empobrecimento e de perda da soberania nacional.


A situação em que vivemos também poderá contribuir para reforçar a justeza das orientações políticas que o Partido tem vindo a apresentar. Lembremos a proposta do Partido de renegociação da dívida, que é defendida hoje por mais gente…

Sim, é verdade. E não foi por qualquer profecia ou bola de cristal que fizemos essa proposta. Ela resultou de uma análise profunda, que tinha em conta a realidade. E é um facto que hoje a vida confirma a justeza e o acerto dessa mesma análise. O nosso Congresso procurará, não com um sentimento de auto-satisfação, mas reconhecendo a razão que nos assiste…


Bom seria que não tivéssemos tido razão…

… Sim, para o povo e o País era bom que nos tivéssemos enganado. Mas a verdade é que a vida cada vez confirma mais não só a nossa denúncia como valoriza as nossas propostas. E este Congresso é um momento importante não só para a afirmação e reforço do Partido, mas também para dar um novo alento de esperança e de confiança aos trabalhadores e ao povo português, com a ideia de que há alternativa a este caminho para o desastre.


Mas não te parece que possamos estar a «pedir demais» à organização do Partido, se é que isto se pode dizer assim?

Deixem-me contar um episódio. Disse um dia o camarada Dias Lourenço que, durante a célebre fuga da Fortaleza de Peniche, enquanto enfrentava as vagas e o frio do mar, esteve à beira do desfalecimento, mas descobriu forças que não sabia ter, o que lhe permitiu chegar até à praia.

Numa situação tão exigente, tão complexa, e mesmo sabendo que só temos uma organização, cada militante, cada quadro, cada organização também saberá encontrar forças novas, com a consciência de que resistir é já vencer. Perante grandes perigos e grandes potencialidades, o que se exige é, de facto, descobrir forças onde pensamos que elas não existem.


Que balanço se pode fazer até ao momento da preparação do XIX Congresso do Partido?

Apesar das dificuldades, que resultam da exigência das tarefas e da necessidade de responder a duas ou três tarefas quase ao mesmo tempo, poderia dizer que existe uma grande identificação dos militantes do Partido com as linhas fundamentais das alterações ao Programa do Partido e das Teses/Projecto de Resolução Política, com espírito construtivo de discussão e de contribuição para os dois documentos.

Não será excessivo nem exagerado dizer que hoje o Partido está coeso e unido e que vamos realizar um Congresso à altura do Partido que temos e do Partido que somos.



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