A greve geral é uma das grandes tarefas do momento
Grande comício em Lisboa
A força da esperança

O comício do PCP realizado, dia 26, na Voz do Operário, em Lisboa, foi um grande comício: pela participação de centenas de militantes e simpatizantes, de todas as idades, origens e formações; pela combatividade que demonstrou; pela esperança e confiança numa vida melhor que dele sobressaiu.

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«Nós temos confiança em que, unidos e com a luta do nosso povo, seremos capazes de abrir os caminhos para um Portugal com futuro!» Foi com estas palavras que Jerónimo de Sousa terminou o seu longo discurso no comício da noite de sexta-feira, ele próprio uma vibrante afirmação de esperança no futuro.

Apesar dos tempos negros com que os trabalhadores e o povo estão confrontados, no salão da Voz do Operário não entrou, nessa noite, o desespero e a resignação. Ele esteve cheio, sim, mas de determinação; de centenas de pessoas, sobretudo militantes comunistas, mas não só, que reagiram com um entusiasmo combativo às intervenções, sobretudo quando o assunto era a greve geral do próximo dia 14 de Novembro.

Nos balcões, também eles repletos, estavam pendurados dois panos, com mensagens diversas mas complementares: «Todos à greve geral» e «Contra a exploração capitalista, pelo socialismo!».

Esperança foi também o que ressaltou do espectáculo que antecedeu as intervenções, e que ficou a cargo de duas jovens músicas e militantes da JCP, Vanessa Borges e Sofia Lisboa, que interpretaram versões muito próprias de canções como Cavalo à Solta, Que Força é Essa? ou Que Parva que eu Sou. Esperança foi uma vez mais o sentimento predominante no final, quando a uma só voz e a plenos pulmões, todos cantaram A Internacional e o Avante, Camarada – hinos de quem não desiste de lutar, sempre, todos os dias, pela transformação da sociedade.

Unir esforços e vontades

Mas não há luta sem batalhas e a greve geral de 14 de Novembro é uma das mais importantes que, no curto prazo, se colocam aos comunistas. Como salientou Jerónimo de Sousa, há que unir esforços, vontades e coragem para «concretizar o objectivo, comum a todos os trabalhadores, de pôr fim à vaga de terrorismo social que está em curso e abrir caminho a uma política que vá ao encontro dos interesses do povo e do País». Uma greve geral que, para o Secretário-geral do Partido, «se justifica face à grave situação que está criada no País e na vida dos portugueses» e que «se impõe com acrescidas razões» face à proposta do Governo de Orçamento do Estado para 2013.

Antes, Libério Domingues, dirigente da CGTP-IN e do Comité Central do Partido, falando em nome da Direcção da Organização Regional de Lisboa, tinha já valorizado a luta travada nos últimos meses pelos trabalhadores portugueses, expressa na «grandiosa manifestação de 29 de Setembro no Terreiro do Paço, que sendo das maiores praças da Europa, foi pequeno para tanto protesto» ou na Marcha contra o Desemprego, «que recolheu apoios e abalou consciências nas vilas e cidades por onde passou».

«Foi nesta realidade que se forjou a decisão da CGTP-IN de convocar para o próximo dia 14 de Novembro a greve geral», salientou o membro do CC, acrescentando tratar-se de uma jornada que «se molda e se constrói nos locais de trabalho, que se sente já no número de pré-avisos aprovados, abrangendo todos os sectores de actividade, nas muitas declarações de adesão já formuladas (mesmo da parte de sindicatos não filiados na CGTP-IN), nas centenas de moções de adesão vindas das empresas e locais de trabalho». Por isto tudo, garantiu Libério Domingues, «ao contrário do que alguns pretendem insinuar, esses sim cada vez mais isolados, a CGTP-IN não está sozinha nesta greve geral. Diria mesmo, está mais acompanhada do que nunca».

Há alternativa!

Para Jerónimo de Sousa, uma coisa é certa: «o País não tem futuro com esta política, com este Governo, os seus fictícios êxitos e com o pacto de agressão.» Considerando que «a cada dia que passa se afirma como inequívoca a indispensabilidade de uma política alternativa», o Secretário-geral do Partido ressalvou não se tratar de uma «qualquer alternativa, mas uma alternativa patriótica e de esquerda capaz de combater as verdadeiras causas da grave situação do País e relançá-lo na senda do desenvolvimento e do progresso».

Lembrando que, face à evidente injustiça da sua política e do pacto de agressão, o derradeiro argumento do Governo reside na suposta inexistência de alternativa, o dirigente comunista reafirmou que «há alternativa» e que «quanto maior for a consciência da sua viabilidade e da sua necessidade, menos espaço terá o Governo para prosseguir a sua política de destruição». Em seguida, lembrou algumas «verdades simples e inquestionáveis»: que um País só se desenvolve se criar mais riqueza, se produzir mais; e que nenhum país consegue pagar a sua dívida «empobrecendo e destruindo a sua capacidade produtiva». Daí a insistência dos comunistas na sua proposta de defesa do aparelho produtivo e de aumento da produção nacional, tendo Jerónimo de Sousa destacado, pela sua importância para o distrito, a necessidade de defender a ferrovia, quer para mercadorias quer para passageiros.

Solidariedade comunista

Um dos momentos mais emocionantes do comício deu-se durante a intervenção de Libério Domingues, quando este, após destacar a luta travada em diversas empresas e sectores (administração pública; agência Lusa e jornal Público; Imprensa Nacional Casa da Moeda; Petrogal; comércio e hotelaria), se referiu particularmente ao sector dos transportes – onde, em empresas como a CP, a CP Carga, a TAP, o Metro, a Barraqueiro ou a Scotturb, estão a ser travadas intensas lutas.

No caso da Scotturb, realçou o membro do Comité Central, o combate é também em defesa do exercício dos direitos sindicais: «daqui enviamos uma grande saudação e uma forte mensagem de solidariedade ao trabalhador e activista sindical que está a ser alvo de um processo disciplinar por assumir um direito que a Constituição lhe consagra – o direito à greve».

Os quatro «progressos» do Governo

No seu discurso, Jerónimo de Sousa referiu-se aos «quatro progressos significativos» enunciados recentemente pelo ministro das Finanças Vítor Gaspar. Quanto ao primeiro – a «correcção significativa dos desequilíbrios» das contas públicas –, o dirigente comunista lembrou que esta afirmação do governante surgiu já depois de ser conhecido o «desastre da execução orçamental dos primeiros nove meses de 2012» e dos défices verificados nos últimos dois anos, cujas metas apenas foram alcançadas à custa de receitas extraordinárias. «Notáveis trapaceiros», rematou.

Também o segundo «progresso» – a redução do endividamento de famílias e empresas – mereceu a crítica feroz de Jerónimo de Sousa, para quem tal «feito» se deve ao facto de a banca não emprestar «um cêntimo», ao mesmo tempo que «suga todo e cada cêntimo dos portugueses e das empresas».

Quanto ao «comportamento das exportações», o terceiro progresso de Vítor Gaspar, o Secretário-geral do PCP lembra que o «grosso do crescimento das exportações é de combustíveis líquidos, que têm como contrapartida um significativo aumento de importação de petróleo». Também a exportação de ouro e outros metais preciosos cresceu, o que significa que os portugueses se estão a desfazer «literalmente dos anéis para não ficarem sem os dedos».

Já no que respeita à «transição de modelo de crescimento» – o quarto «trunfo» do Governo –, Jerónimo de Sousa garante que esta se realiza «à custa do retroceder do País, regressando, aprofundando, consolidando o modelo económico de salários de miséria, baixo valor acrescentado e emigração». Ou seja, concluiu, o «modelo de Salazar e Caetano». 



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