Cortes orçamentais não trazem prosperidade
Instituto alemão alerta para aprofundamento da crise
Recessão e mais dívida

O Instituto de Macroeconomia e Estudos Conjunturais (IMK), próximo dos sindicatos alemães, apresentou, na segunda-feira, 7, um estudo em que defende uma alteração de políticas para enfrentar a crise.

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A política de austeridade a todo o custo, imposta pela Alemanha aos países europeus, fracassou. A prova é que «os governos europeus estão há dois anos a tentar sair da crise através da poupança, mas isso não tem funcionado. Pelo contrário, cada vez mais países caem na recessão, o que leva a um aumento da dívida».

Esta constatação simples da realidade foi feita por Gustav Horn, director do IMK, para quem o «fracasso» da estratégia de austeridade se deve a que muitos economistas e praticamente todos os especialistas da União Europeia subestimaram o efeito negativo dos cortes orçamentais sobre a economia.

Horn lembrou que na Europa a posição oficial partia no pressuposto de que por cada euro cortado, o produto interno bruto (PIB) baixava 50 cêntimos.

Porém, os números reais apurados em recentes estudos do próprio FMI mostram que o corte de um euro tem um reflexo idêntico ou superior sobre o PIB, e no caso de economias já em recessão o efeito pode ser mesmo de um para dois.

Logicamente que estes cortes provocam um agravamento da situação económica, arrastando uma queda na recolha de impostos, o que por sua vez faz com que a dívida pública, em vez de baixar, aumente.

De acordo com o estudo do IMK, os cortes orçamentais só poderão traduzir-se numa redução da dívida se o seu efeito não superar, em caso algum, a relação de um para 0,9 euros, sendo que nos países em crise o limite deveria ser mais baixo.

Deste modo, como assinalou Horn, «neste momento, é expectável que a dívida pública continue a aumentar em consequência das medidas de consolidação». «O facto de os duros cortes nos países em crise não terem tido êxito, não significa que a consolidação não tenha sido suficientemente rigorosa. Tal é a consequência da austeridade que vai contra os seus próprios objectivos».

Por isso o IMK recomenda a moderação dos cortes, uma flexibilização do calendário para alcançar as metas de consolidação, um menor recurso a cortes orçamentais e uma maior subida de impostos no escalão superior de rendimentos e património.

Horn recomendou que os países com mais possibilidades, nomeadamente a Alemanha, criem estímulos fiscais ao crescimento, manifestando-se favorável à criação de um Fundo de Amortização da Dívida, garantido por todos os estados da zona euro.

Erros ou interesses?

Entretanto, questionado sobre se as mudanças na política económica preconizadas pelo IMK não implicavam igualmente uma mudança de governo, já que é improvável que a Alemanha de Merkel mude de posição no que toca à austeridade, Horn admitiu-o tacitamente: «A nossa tarefa não é sugerir uma mudança de governo mas sim propor uma política económica sensata».

A pergunta e a resposta sugerem claramente que as actuais políticas nefastas para a maioria da população não resultam de um mero erro de cálculo nem de falta de sensatez, mas antes correspondem aos interesses económicos politicamente dominantes na UE.

Assim se explica a insistência nas actuais receitas, apesar de os seus próprios criadores reconhecerem que se enganaram.

É o caso do Fundo Monetário Internacional que, na semana passada, também veio dar a mão à palmatória, admitindo que as suas previsões estavam erradas.

Desta vez foi o próprio economista chefe da instituição, Olivier Blanchard, a assinar um estudo no qual se conclui que os multiplicadores orçamentais usados nas previsões sobre o impacto das medidas de austeridade não estavam correctos.

«Foram subestimados significativamente o aumento do desemprego e a queda do consumo privado e do investimento decorrentes da consolidação orçamental».

Num comentário à agência EFE, Blanchard admitiu a necessidade de fazer alterações na forma como se avalia a necessidade da austeridade nas economias desenvolvidas como as europeias, onde as medidas de consolidação (cortes orçamentais e subida de impostos) não deram os resultados esperados. 



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