Portugueses não aceitam este rumo de braços caídos
A esperança não morre e luta é mais forte
Governo condenado à derrota

O Secretário-geral do PCP acusa o primeiro-ministro de «roubar a esperança aos portugueses», mas confia que o povo português acabará por derrotar o Governo.

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Muitos «não acreditam no futuro porque viram as suas vidas destroçadas, estão numa situação dramática em que não encontram uma saída», referiu Jerónimo de Sousa, não escondendo ser esse um motivo de «inquietação profunda». «E em democracia quando se perde a esperança, as coisas começam a complicar-se», advertiu, acreditando, contudo, que há todas as razões para optimismo porque, «felizmente, muitos portugueses não aceitam este rumo de braços caídos».

E os mais recentes e eloquentes testemunhos dessa atitude de inconformismo e determinação encontrou-os o líder comunista nas manifestações do dia 16 de Fevereiro e 2 de Março, com centenas de milhares de portugueses a manifestar não só a sua indignação e o seu protesto mas também a sua luta. «É uma prova de que quem está irremediavelmente condenado à derrota é este Governo e esta política», enfatizou o líder comunista, que falava dia 6 no debate quinzenal com o primeiro-ministro.

Jerónimo de Sousa mostrou-se ainda chocado com a afirmação do ministro Vítor Gaspar de que é mais importante ouvir os elogios dos parceiros europeus do que ouvir os protestos dos portugueses que se manifestam. «Já não se fala em brio patriótico. Quando um governo ou um dos seus membros considera que é muito bom ouvir os elogios daqueles que estão a ganhar com a situação de Portugal e desprezar aqueles que lutam, que se indignam, que numa afirmação de verticalidade não deixam o seu país ser destruído, que querem uma vida melhor, então, senhor primeiro-ministro cada vez mais se torna necessário a exigência de demissão deste Governo, a derrota da sua política», afirmou o dirigente comunista, sublinhando que essa «é uma possibilidade cada vez mais próxima», «porque o País tem futuro, este Governo é que não tem».

Lutar para mudar

Na réplica, Passos Coelho afirmou «convicção oposta» à do dirigente comunista, dizendo cinicamente saber das «dificuldades dos portugueses» e dos seus «sacrifícios para acabar com o tempo de emergência nacional e construir um futuro que está para além da troika».

E com ar solene, vago e demagógico quanto baste, adiantou que «Portugal está mais próximo de fechar este período de emergência e de vencer estas dificuldades do que esteve tempos atrás e seguramente quando teve de pedir a intervenção externa».

E quanto às poderosas acções de massas, numa leitura não coincidente com a do ministro das Finanças (desautorização ou não, pouco importa), considerou que «nenhum governo deve ficar indiferente a essas manifestações públicas» e que «elas são evidentemente para ser tidas em conta». Ressalvou, contudo, que não «governa em função das manifestações nem dos protestos».

Jerónimo de Sousa, no pouco tempo que lhe restava, contrapôs de imediato que o problema é que a convicção do chefe do Governo «entra em rota de colisão com a realidade». Porquê? «Fala num amanhã que há-de chegar, da necessidade de encontrar um caminho para sair da situação, mas a verdade é que a realidade se vai agravando permanentemente», esclareceu o líder do PCP.

E prosseguiu lembrando que «do caos nunca sairão as boas soluções». Por isso, concluiu: «É preferível a ruptura e a mudança do que esperar pelo fim da situação em que muitos portugueses se encontram. É possível e necessário lutar para mudar. E estamos em crer que o povo português há-de ser capaz de fazer isso».

 

Tudo vai de mal a pior

Novidade nos debates quinzenais não é de certeza o agravamento da situação do País, já que esta, como constatou Jerónimo de Sousa, «vai de mal a pior».

É o caso do desemprego que não pára de aumentar, contabilizando-se por 400 mil o número de postos de trabalho já liquidados por este Governo.

O líder comunista anotou por isso que é quase uma banalização o facto de há 15 dias ter havido o anúncio de que Portugal estava com um desemprego de 16,9 por cento e agora o Eurostat vir dizer que já se chegou aos 17,6 por cento.

E considerou que não basta puxar de uma folha A4 com um gráfico, como fez Passos Coelho, para mostrar à bancada do PS as responsabilidades que também esta tem nesta matéria. É que quando se está a falar de desemprego está-se a falar da «vida das pessoas, a falar de 40 por cento de jovens que estão hoje desempregados, a falar de vidas destruídas porque há casais que não têm emprego», salientou, frisando que esta é que é, infelizmente, «a realidade que hoje vivemos no nosso País».

O responsável máximo do PCP ainda admitiu que se pudesse dizer: «bom, isto é necessário, estamos pior agora mas amanhã ficaremos melhor». Mas a verdade, prosseguiu, «é que a dívida continua a aumentar, o défice não se resolve, o crescimento económico não se verifica, ou seja, é sempre a solução de mais austeridade, mais sacrifícios, mais pobreza, mais injustiças para o nosso País e para o nosso povo».

A repetida afirmação do primeiro-ministro de que «não muda de trajectória» e que «o País está na direcção correcta», levou ainda Jerónimo de Sousa a questionar-se sobre até que ponto aquele «acredita mesmo» no que diz. «Olhando para a realidade, olhando para a situação social, para a situação económica, olhando para o País cada vez mais a andar para trás, acredita mesmo que estamos no bom caminho, senhor primeiro-ministro?», inquiriu.

Na resposta, Passos Coelho afirmou que o «desemprego é sempre a circunstância mais penalizadora que uma recessão pode trazer». E disse saber «quanto doloroso é o processo de ajustamento».

Voltou a escudar-se nas políticas que trouxeram o País a este «grau de endividamento» para afirmar que não há outra alternativa e que «não se pode enterrar a cabeça na areia» e «fazer de conta que a dívida não existe». «Existe e temos de a pagar», reafirmou, insistindo que a par da criação de «condições na economia para o ressurgimento económico» «essa é a direcção certa».

Sem contestar que as dificuldades são reais, na réplica, Jerónimo de Sousa não deixou no entanto de fazer notar que o problema reside na persistência do Governo «numa política que nunca resolverá nenhum dos problemas nacionais».

Porque, explicou, «não há medidas que levem ao crescimento económico, não existem medidas de investimento», ficando-se o Governo por «encher os bolsos à banca» em vez de se virar «para a economia real», em vez de «respeitar os direitos e os salários de quem trabalha ou quem vive da sua pensão e reforma». Fizesse ele isso e, «naturalmente, seriam encontradas soluções para interromper este caminho para o desastre», afirmou convicto o Secretário-geral do PCP.

 

Subserviência

Enfatizada pelo primeiro-ministro, em resposta ao Secretário-geral do PCP, foi a ideia de que «não conseguiremos retornar a financiamento não oficial se não pudermos beneficiar do apoio dos países europeus, bem como do FMI e do BCE».

E para esse efeito, prosseguiu – revelando com chocante à-vontade a servil obediência do seu Governo aos interesses dos credores e aos ditames de Berlim e Bruxelas –, «não podemos sequer dar a impressão de que estamos a implicar para futuro com a adopção de medidas que não desejamos e que pretenderemos alterar».

«Se o País não tem margem para gastar mais, eu não posso fazer demagogia e vir aqui dizer que o que temos é de estimular a economia quando o País não tem dinheiro para o fazer», conclui, num reconhecimento explícito de que não tem mesmo resposta para o crescimento da economia nem para resolver graves problemas estruturais como é o do desemprego.

Mais adiante, confrontado sobre esta matéria pela deputada ecologista Heloísa Apolónia, viria a confirmar essa mesma impotência ao garantir que o Governo «não tem espaço orçamental para políticas expansionistas».

Antes – numa afirmação que ficou também a marcar este debate –, considerara insensato qualquer aumento do salário mínimo nacional. «A medida mais sensata que se pode tomar é exactamente a oposta», afirmou, em nome da «criação de emprego», na troca de palavras que manteve com o líder do PS, António José Seguro.



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