• Pedro Campos

A melhor palavra para descrever este sentimento é mesmo amor
Venezuela
Entre a dor <br> e a determinação de vencer

Não sei se voltarei a viver a experiência sentida nestes dias, aqui em Caracas, por ocasião da despedida ao presidente Hugo Chávez.

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Os meios de comunicação, mesmo os comprometidos com o processo a que ele se consagrou e lhe custou a vida, são incapazes de transmitir a intensidade do sentimento profundamente humano que se vive nestes momentos. É preciso estar aqui nestas filas, anónimo entre milhares e milhares de homens e mulheres, na sua grande maioria gente da arraia miúda, que, com enorme espírito de solidariedade, fervor popular e devoção quase religiosa, esperam, por vezes durante todo o dia, a oportunidade de um último e brevíssimo adeus ao seu líder. Só debaixo deste inclemente sol tropical e vendo estes rostos entristecidos e cansados de chorar nos podemos aproximar do sentimento que aflige este povo. Só observando atentamente a determinação deste rio humano, que parece não ter fim, podemos ler nos seus rostos desconhecidos a firme vontade de tomar nas suas mãos o legado de Hugo Chávez e levá-lo a voos ainda mais altos e mais solidários.

O homem mais vilipendiado e mais satanizado pela comunicação social da burguesia de todo o mundo é, sem sombra de dúvida, amado, mais do que amado, idolatrado, pelas grandes maiorias nacionais e latino-americanas. Esta verdade é tão indiscutível que esses mesmos meios, apesar de todas as manipulações doentias, não conseguem esconder o amor – a melhor palavra para descrever este sentimento é mesmo amor – que Hugo Chávez despertou no seio mais profundo e autêntico do seu povo. Para muitos que estão politicamente longe ou opostos ao projecto bolivariano, estas manifestações de dor e solidariedade podem resultar uma surpresa. De entre os milhares de condolências que pululam nas redes sociais, tomamos uma, absolutamente insuspeita, que exemplifica bem o que pretendemos transmitir. Carlos Valderrama, famosa estrela do futebol colombiano, escreveu na sua conta de twitter: «Ao ver essa grande multidão de pessoas na Venezuela, pergunto-me se Chávez era tão mau como o mostravam os meios daqui».

Reconhecimento internacional

Durante os últimos 14 anos, os media do imperialismo condensaram na figura de Hugo Chávez todos os males da humanidade na tentativa vã de isolar o processo bolivariano. Era – e será também daqui em adiante – o preço a pagar pela sua orientação nacionalista e anti-imperialista. Esses mesmos meios não perdiam a mais mínima oportunidade para «demonstrar» o isolamento internacional do país e do líder bolivariano. Quase sempre com manipulações ou com mentiras evidentes. Em Fevereiro passado, quando a Venezuela, sempre falsamente acusada de desrrespeitar os direitos humanos, foi eleita para a respectiva comissão da ONU, de imediato essa corja vociferou que «só» tinha sido apoiada por 154 países de um máximo possível de 192. O que essa canalha se «esqueceu» de publicar foi que a entrada dos EUA para a mesma comissão só contou com 131 votos!!! A chantagem imperialista para votar contra Caracas e a favor de Washington voltara a falhar.

O «isolamento» da Venezuela bolivariana, por muito que isso doa à direita mais reaccionária, está muito longe da verdade como o prova esta hora de tristeza. Para além das mais de 50 representações internacionais – entre elas as de 33 chefes de Estado – que vieram para o funeral de Hugo Chávez, recordemos que 16 países declararam luto oficial e que são impossíveis de registar todas as declarações de solidariedade, incluindo as de personalidades insuspeitas de qualquer simpatia com o processo bolivariano. A Comissão Europeia, ao lamentar a morte de Hugo Chávez, sentiu finalmente a necessidade de um momento de verdade e admitiu o «desenvolvimento social» derivado do processo bolivariano e a sua «contribuição para a integração regional da América do Sul». Outra voz europeia, a de Victorin Lurel, ministro francês do ultramar, afirmou que «o mundo ganharia se tivesse muitos 'ditadores' como Chávez». Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia, afirmou que para ele e para o seu país «a perda do presidente Chávez tem um significado especial» e acrescentou que o melhor tributo que se lhe podia render era cumprir o seu sonho de conseguir o fim do conflito colombiano e de ver o país em paz.

Os que morrem pela vida

não podem chamar-se mortos

e a partir deste momento

está proibido chorá-los...

Este é um fragmento de uma canção do revolucionário do venezuelano Alí Primera.

O novo grito de esperança e luta é: Chávez vive, a luta continua!

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Depoimento de Albano Nunes

Grande afirmação de confiança no futuro

 

Representaste o PCP nas cerimónias oficiais fúnebres do presidente da República Bolivariana da Venezuela, Comandante Hugo Chávez. Que impressões trazes dessa deslocação a Caracas?

O que mais me impressionou foi a extraordinária reacção popular à grande perda que o falecimento do presidente Hugo Chávez representou, não apenas para o povo venezuelano, sobretudo para as camadas mais desfavorecidas, mas para os povos da América Latina e para as forças progressistas e anti-imperialistas de todo o mundo.

Creio que também em Portugal foi possível ver imagens das imensas filas de pessoas, com vários quilómetros, que durante muitas horas aguardavam disciplinadamente o momento em que, apenas por alguns segundos, poderiam desfilar perante a urna do presidente Hugo Chávez, na Academia Militar. A mobilização popular tomou uma tal dimensão que o governo decidiu prolongar por mais sete dias do que o inicialmente previsto a duração das exéquias. Tudo isto confirma o massivo reconhecimento da obra protagonizada pelo Comandante. Mas o que é mais significativo é que a enorme dor provocada pelo desaparecimento físico do líder do processo bolivariano é acompanhada por uma grande afirmação de confiança no futuro e pela determinação em defender e aprofundar as conquistas alcançadas durante os 14 anos da presidência de Hugo Chávez. Lágrimas, muitas, mas sobretudo uma grande manifestação de apego aos valores de patriotismo, dignidade, progresso social e anti-imperialismo que são a marca da nova Venezuela. «Chaves no morrió, se multiplicou» é uma palavra de ordem que exprime bem o ambiente que se vive entre as massas populares venezuelanas.

 

O falecimento de Hugo Chávez, um líder com grande carisma e grande ligação ao seu povo, poderá dificultar a continuação do processo revolucionário bolivariano?

Novos problemas e dificuldades são inevitáveis, mas venho com um sentimento de grande confiança. A base de apoio popular ao processo bolivariano é muito ampla. As Forças Armadas confirmaram a sua lealdade à Constituição e há forças políticas – Partido Socialista Unido da Venezuela, Partido Comunista da Venezuela, e outras – que, unidas e reforçando os seus laços de cooperação e organização, estão em condições de levar por diante o processo e derrotar as manobras e conspirações da grande burguesia e da reacção aliadas ao imperialismo norte-americano e europeu. Tais forças hostis estão a movimentar-se. Jogam na divisão das forças que conduzem o processo e na desestabilização económica e social. Boicotaram a cerimónia na Assembleia Nacional em que Nicolas Maduro foi empossado como presidente da República. Fazem chicana jurídica em torno da Constituição, que odeiam, mas que demagogicamente acusam de não estar a ser respeitada. Há sectores que, temendo perder as eleições presidenciais, entretanto marcadas para 14 de Abril, preconizam o seu boicote e, em qualquer caso, preparam-se para contestar os seus resultados. Mas tal comportamento, encerrando perigos reais, o que denuncia é a fraqueza e a natureza golpista da chamada «oposição democrática» e o seu complôt com o imperialismo.

 

O desaparecimento de Hugo Chávez teve grande impacto internacional. Que testemunhaste a este respeito?

Confirmei o grande prestígio de que Hugo Chávez e a Venezuela bolivariana desfrutam no campo progressista e anti-imperialista. Nas cerimónias oficiais em que o PCP esteve representado estiveram presentes mais de 50 chefes de Estado ou de governo do mundo inteiro, com particular relevo para a América Latina, onde Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua, países que integram a ALBA, tiveram grande destaque. De notar também a presença dos respectivos chefes de Estado e a importância atribuída a países que têm estado na mira do imperialismo, como é o caso do Irão. A firme oposição da Venezuela à política agressiva do imperialismo e a sua destacada contribuição para que o sub-continente latino-americano deixasse de ser o «pátio das traseiras» dos EUA granjearam grande prestígio ao presidente Hugo Chávez. As relações com a República Popular da China tiveram igualmente grande destaque na comunicação social. Estiveram ainda presentes numerosas representações de partidos políticos, organizações sociais e personalidades que têm uma posição solidária para com o processo bolivariano, como é o caso do PCP.

 

Atendendo às circunstâncias, como decorreu a tua estada?

Muito bem e de forma muito proveitosa para uma melhor compreensão do original processo revolucionário venezuelano. O principal consistiu na apresentação das condolências e dos sentimentos de amizade e de solidariedade do PCP às autoridades venezuelanas, a representação nas exéquias oficiais e a assistência à tomada de posse de Nicolás Maduro como presidente em exercício.

Mas foi também possível contactar com o Partido Socialista Unido da Venezuela e com o Partido Comunista da Venezuela, que convidou o PCP a assistir, no dia 10, à sua Conferência Nacional, onde se decidiu o apoio à candidatura de Nicolás Maduro, o qual esteve presente na Conferência e dirigiu uma calorosa saudação aos delegados.

De assinalar o acolhimento fraternal dispensado em todas as ocasiões ao nosso Partido. Esteve também presente a camarada Inês Zuber, membro do Comité Central do PCP, integrando a delegação do Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia / Esquerda Verde Nórdica no Parlamento Europeu.



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