Pequenos aforradores escapam ao confisco
Novo acordo coloca economia a pão e água
O assalto ao Chipre

Depois de o parlamento cipriota ter chumbado, dia 19, a primeira versão do resgate que penalizava todos os depositantes, as novas condições mantêm o país refém da troika.

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Na madrugada de segunda-feira, 25, os ministros do Eurogrupo tomaram a decisão inédita de encerrar o Laiki Bank, o segundo maior banco do Chipre, garantindo apenas as poupanças dos pequenos depositantes (quantias até 100 mil euros).

Pela primeira vez na eurozona, os titulares de depósitos, obrigações e acções acima daquele montante sofrerão perdas que podem rondar os 30 por cento, segundo estimou o porta-voz do governo Christos Stylianides.

O confisco gerará 4200 milhões, segundo precisou o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, revelando ainda que o acordo prevê a divisão do Laiki Bank em duas instituições: um «banco bom» com os activos viáveis, que será incorporado no Banco de Chipre, e um «banco mau» que acumulará os activos duvidosos e será gradualmente dissolvido.

Até à recapitalização do banco do Chipre, todos os valores superiores a 100 mil euros ficarão congelados, sendo posteriormente sujeitos a um corte, cujas proporções exactas estão ainda por determinar.

Nas próximas semanas, a troika dará a conhecer o plano de austeridade que será imposto ao país, sabendo-se desde já que para além da diminuição dos direitos laborais e sociais, as chamadas reformas estruturais, será aplicado um programa de privatizações e o aumento de impostos.

Mesmo não se conhecendo em concreto as medidas antipopulares, ninguém tem dúvidas de que as suas consequências serão «dolorosas», como as qualificou o recém-empossado presidente cipriota, Nikos Anastasiadis.

De Bruxelas, o presidente da Comissão Europeia também reconheceu que a radical reestruturação bancária coloca o país perante «desafios imensos», um «choque económico», cujas «consequências sociais» a Europa deve procurar «atenuar».

Procurando justificar a dureza das medidas e esconder a duplicidade de critérios, vários dirigentes europeus apontaram a hipertrofia da banca cipriota, cujos activos terão alcançado quase oito vezes o valor do Produto Interno Bruto.

 «Economia de casino»

O ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Laurent Fabius, admitiu que o resgate «é duro», mas «não podia ser de outra forma» dada a «economia de casino» do Chipre.

Segundo afirmou, «o sistema era incrível: os juros eram de cinco por cento» e para garantirem essa remuneração os bancos cipriotas «tinham de investir noutras economias de casino», em particular na Grécia.

Na mesma linha pronunciou-se o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, para quem a banca cipriota deve ser reduzida em proporção à economia do país, aludindo ainda ao branqueamento de capitais e à fraude fiscal na ilha.

A própria chanceler alemã, Angela Merkel, não se coibiu de sentenciar que o resgate é «correcto» porque obriga aqueles que deram «origem ao problema» a arcar com as responsabilidades financeiras.

Mas ao tratarem de transformar o Chipre na ovelha negra da zona euro, os dirigentes europeus esquecem-se deliberadamente dos enormes buracos encontrados nos maiores bancos dos respectivos países que foram cuidadosamente tapados com rios de dinheiro dos contribuintes, sobre os quais recaiu o ónus das práticas de casino.

Esquecem-se igualmente das pressões exercidas sobre a Islândia para que assumisse as perdas dos «jogadores» britânicos e holandeses que apostaram massivamente nos depósitos especulativos do falido Icesave.

E que dizer dos hipertrofiados bancos irlandeses, cujo salvamento fez disparar o défice público da Irlanda para cerca de 35 por cento, obrigando o país a pedir ajuda à troika em Novembro de 2010?

Na verdade, quando se tratou de defender os capitais europeus, as grandes potências não hesitaram em dar ordens expressas aos governos para evitarem as falências custasse o que custasse.

O caso do Chipre, porém, parece diferente. Pelo que corre na imprensa, uma parte muito significativa dos capitais aí refugiados tem origem russa…

Não se estranha assim que o primeiro-ministro russo, Dmitri Medvedev, tenha qualificado o acordo do eurogrupo como um «roubo do que já tinha sido roubado».



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