• Carlos Lopes Pereira (texto)

    António Melão (fotos)


Alentejo cantou em homenagem a Álvaro Cunhal
Festa da terra<br>em louvor da luta

Foi bonita a homenagem em Beja a Álvaro Cunhal, com a iniciativa «Alentejo Terra Luta Arte e Futuro», no âmbito das comemorações do centenário do seu nascimento. A Casa da Cultura encheu-se no sábado (15) à noite para ouvir canções de louvor à Reforma Agrária de Abril e de incitamento às lutas dos dias de hoje, num concerto de qualidade. Antes, uma dezena e meia de grupos corais alentejanos participaram da festa desfilando e cantando no centro histórico da cidade. 

O mundo com que sonham os comunistas e outros democratas «não acontece» – antes «constrói-se e conquista-se», como se aprende com o exemplo de vida de Álvaro Cunhal.
As palavras são de Jerónimo de Sousa, na intervenção que proferiu a anteceder o espectáculo musical na Casa da Cultura de Beja, a que assistiram cerca de um milhar e meio de pessoas da cidade, do concelho e de todo o Alentejo.
O Secretário-geral do PCP deixou uma mensagem de optimismo, voltada para o futuro: «Sabemos que este não foi nem é um tempo fácil. Os que anunciam que o capitalismo é o fim da História conseguiram, por momentos, conter, pelo arbítrio e a intolerância, o avanço da roda da História, dessa mesma História que lhes anuncia o fim. Álvaro Cunhal construiu com o seu Partido um projecto para Portugal. Um projecto onde os valores de Abril cabem inteiros e são a retoma de um caminho que quer ir longe na incessante procura de um mundo mais humano e melhor». O tal mundo que é preciso construir e conquistar.
Antes, agradeceu aos organizadores do evento regional, em especial ao núcleo central formado pela Casa do Alentejo em Lisboa, Associação Povo Alentejano (Évora) e Cooperativa Cultural Alentejana (Beja), por autarquias e sindicatos da região.
Elogiou a exposição evocativa «Álvaro Cunhal e o Alentejo», patente no espaço exterior da Casa da Cultura: «Uma exposição que mostra o percurso do revolucionário corajoso e íntegro que foi Álvaro Cunhal, comunista de toda a vida, na sua relação com esta terra alentejana e as suas gentes. Uma terra que sentia e amava como se fosse a sua e porque suas eram também as mais profundas aspirações de libertação e vida digna de um povo de coragem, trabalho e luta, resistente como o aço, que nunca cedeu perante a besta fascista!»
E falou longamente da vida, do pensamento e da luta de Álvaro Cunhal, que justificam a homenagem prestada pelo Alentejo: «Personalidade fascinante e maior da nossa história contemporânea, homem de invulgar inteligência, de firmes convicções, inteireza de carácter, Álvaro Cunhal foi um político de acção e autor de uma obra notável que se afirmou como uma referência na luta pela liberdade, a democracia, a emancipação social e humana no nosso país e no Mundo. Dirigente político experimentado e perseverante, estudioso e conhecedor da realidade portuguesa e das relações internacionais, Álvaro Cunhal dedicou toda a sua vida à solução dos problemas da sociedade portuguesa e à concretização de um projecto de desenvolvimento ao serviço do País e do povo, por uma sociedade nova e pela independência nacional.»
Destacou o seu papel e o do PCP na criação de condições para a Revolução de Abril, a sua defesa e consolidação, e para as profundas transformações revolucionárias operadas na sociedade portuguesa: «Transformações onde se destacava a Reforma Agrária, esse processo original, conduzido pelo proletariado agrícola alentejano e ribatejano, que nasceu do povo e da imaginação criadora dos trabalhadores e que a Revolução Democrática e Nacional assumia como um dos seus grandes objectivos.» Essa Reforma Agrária que tinha atrás de si uma longa luta sob a consigna «A terra a quem a trabalha!» e que Álvaro Cunhal afirmava ser «a mais bela conquista da Revolução.»
Segundo Jerónimo de Sousa, a Reforma Agrária de Abril foi destruída «por uma ofensiva que durou 14 anos, que pôs o Alentejo a ferro e fogo», trazendo novamente à região «as terras abandonadas, a desertificação e o desemprego.»
Mas essa destruição não pôs fim ao sonho secular que colhe hoje também a experiência vivida e que é um valor que as gerações que a realizaram projectam no futuro: «Um futuro que não é um sonho longínquo mas uma necessidade de agora, porque a Reforma Agrária que garanta a terra a quem a trabalha não só mantém toda a actualidade, como é, nas actuais circunstâncias, a alavanca imprescindível para garantir o desenvolvimento destas terras de todo o Alentejo.»

Músicas para a luta

O espectáculo musical, apresentado por Cândido Mota, começou com a actuação da banda da Sociedade Filarmónica de Serpa (formada por 40 jovens músicos dirigidos pelo maestro Carlos Medinas) que tocou o «Hino do MFA» e «E depois do adeus».
Depois vieram sempre actuais canções ligadas à terra, à luta, a Abril, a cargo de Samuel, Luísa Basto, Lúcia Moniz e de um grupo de músicos notáveis. Desfilaram, entre outros, temas como «O Tractor», de Sérgio Godinho, «Margem Sul», de Adriano Correia de Oliveira com letra de Urbano Tavares Rodrigues, «Canto do ceifeiro», de Francisco Fanhais, «Venham mais cinco» e «Cantar alentejano», de José Afonso, «Cantiga de uma greve de Verão», de Vitorino, e o «Hino da Reforma Agrária», do próprio Samuel.
A noite já ia longa mas ainda houve tempo para um poema de Ary dos Santos («Isto vai»), dito por Cândido Mota, e para a actuação de três populares músicos bejenses, Paulo Ribeiro, Fernando Pardal e Pedro Mestre e a sua viola campaniça.
O número final reuniu todos os artistas, incluindo cantadores dos grupos corais presentes, e boa parte do público que interpretaram «Alentejo és nossa terra» («Terra bela/ Tão desejada/ Casas singelas, de branco caiadas/ Eu nunca esqueço que foste meu berço/ Lindo cantinho desta pátria amada»).
O Partido Comunista Português fez-se representar nesta iniciativa em Beja – tanto no desfile dos grupos corais como no espectáculo musical – por uma delegação dirigida pelo seu Secretário-geral, Jerónimo de Sousa, e integrada por João Dias Coelho, da Comissão Política, Luísa Araújo e José Capucho, do Secretariado, e Manuel Rodrigues e Miguel Madeira, do Comité Central.

 

 

Cantando em colectivo

Uma dezena e meia de grupos corais alentejanos participaram na tarde de sábado, em Beja, dum desfile que constituiu mais um evento artístico festejando os 100 anos de Álvaro Cunhal.

Os grupos corais, masculinos e femininos, percorreram em passo cadenciado a Rua Capitão João Francisco de Sousa, entre o Jardim do Bacalhau e as Portas de Mértola. Fizeram ouvir as suas vozes no coração da velha Pax-Julia ao longo de duas horas. Foram saudados por muitos bejenses e visitantes, entre os quais o Secretário-geral do PCP e outros dirigentes comunistas.

Esse «momento magnífico» foi mais tarde elogiado por Jerónimo de Sousa. Os cantadores, disse ele, mostraram a arte do cante que «o trabalho, a vivência colectiva e a lonjura dos caminhos moldaram e que foi, em si, uma expressiva homenagem a quem, como Álvaro Cunhal, tanto se ligou e viveu os problemas da terra e dos que à falta dela viveram vidas de exploração e miséria». Essa arte, o cante, que «é marca de água de uma identidade cultural, construída por um proletariado agrícola sedento de liberdade e justiça, que se revela cantando em colectivo e, hoje, é património de todo um povo».

Encabeçado pela banda da Sociedade Filarmónica de Serpa, o desfile incluiu os grupos corais Ceifeiras de Pias, As Rosinhas (Santa Clara de Louredo), da Casa do Povo da Salvada, Os Caldeireiros (Mértola), Terras de Catarina, Douradas Espigas (Albernoa), da Casa do Povo do Cercal do Alentejo, de Baleizão, Rosas de Março (Ferreira do Alentejo), de Alvito, de Vila Nova de S. Bento, de Nossa Senhora das Neves, de Alvito e de Peroguarda.

Associada à celebração dos 100 anos de Álvaro Cunhal, a jornada contribuiu para a dignificação do cante. Arte que, por iniciativa do Poder Local e do movimento associativo da região, é candidata, junto da Unesco, a património cultural imaterial da Humanidade.

 



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