Editorial

«Foi uma das maiores greves gerais de sempre»

ABALO IRREPARÁVEL

A poderosa greve geral de 27 de Junho, concludente manifestação da força e da determinação das massas trabalhadoras, provocou um abalo irreparável neste Governo – um abalo com consequências já visíveis nos recentes acontecimentos e, certamente, com novas e relevantes consequências futuras; um abalo que evidencia luminarmente a importância decisiva da luta de massas e que confirma, de forma cristalina, que a luta vale a pena.

Com as demissões, primeiro, de Vítor Gaspar, depois, de Paulo Portas (até ver…) – num processo recheado de cenas ora caricatas ora deprimentes, bem reveladoras do estado de apodrecimento a que chegou este Governo – é uma evidência que, como afirmou o Secretário-geral do PCP, face à situação criada a única saída democrática é a dissolução da Assembleia da República e a convocação de eleições antecipadas. É tempo, por isso, de o Presidente da República, de uma vez por todas, pôr termo à colagem ao Governo que tem sido o principal suporte da permanência deste e agir em conformidade com a Constituição da República Portuguesa.

A derrota final deste Governo parece estar iminente. Resta agora derrotar a política que conduziu Portugal e os portugueses à dramática situação em que se encontram – e tal como a derrota do Governo foi obra da luta de massas, também a derrota da política das troikas o será.

O PCP deu à nova situação criada a imediata e necessária resposta, promovendo desfiles e concentrações, ontem, em Lisboa, Évora e Porto.

Por seu lado, a CGTP-IN convocou para o próximo sábado uma concentração, a ter lugar em Belém.

É este o único caminho capaz de derrotar a política de direita e de conquistar para Portugal um futuro de progresso e desenvolvimento, tendo os valores de Abril como referência essencial.

Um dos grandes temas em debate na reunião do Comité Central do PCP realizada no início desta semana, foi, como não podia deixar de ser, a greve geral que a CGTP-IN convocou para o passado dia 27.

Tratou-se, como sublinha o Comunicado do CC, de uma das maiores greves gerais de sempre, com profunda repercussão em todos as áreas de actividade, tanto do sector privado como do sector público, complementada com a participação solidária de muitos milhares de pessoas nas concentrações e acções de rua, realizadas em dezenas de localidades – tudo constituindo uma eloquente demonstração da força e da capacidade de intervenção das massas trabalhadoras e populares.

O enorme êxito da greve geral não pode ser desligado das lutas que a antecederam, designadamente, a grande concentração de 25 de Maio, em Belém; o dia de luta contra a imposição do trabalho forçado e não pago, concretizado no dia 30 através de centenas de paralisações, greves, plenários, concentrações, manifestações; e as impressionantes jornadas de luta dos professores expressas numa grande manifestação, num dia de greve nacional e na greve às avaliações.

Tudo isto a relembrar, também, que para os trabalhadores nada cai do céu, nada lhes é oferecido: hoje como sempre, é através da luta organizada que fazem valer os seus direitos e alcançam as suas conquistas.

O notável êxito da greve geral é ainda mais significativo se tivermos em conta as condições difíceis em que ela foi preparada.

Foi uma greve geral construída a pulso; superando obstáculos que se afiguravam intransponíveis; enfrentando e rejeitando as medidas intimidatórias, as chantagens, as ameaças, o ambiente de ameaça e de medo criado na generalidade das empresas e locais de trabalho.

Foi, por tudo isso, a greve da coragem.

Mas foi também uma clara demonstração de lucidez dos trabalhadores, da sua consciência, da sua capacidade para remover esse outro obstáculo ao serviço do inimigo de classe que é a acção da comunicação social dominante. Sabendo a quem pertencem esses media, que interesses servem, por que existem e para que existem; conhecendo a presteza cirúrgica com que manejam o «lápis azul» dos tempos actuais (a que chamam, com suprema hipocrisia, «critérios editoriais»), não surpreende a forma como silenciaram tudo o que sobre a preparação da greve não queriam que fosse conhecido e como apregoaram tudo o que dizia respeito à sua desvalorização.

E após o êxito incontestável da greve geral, lá veio a habitual patranha de que se tratou de uma greve «apenas do sector público», acompanhada de outras propagandices semelhantes.

Ora, a verdade, verdadinha, é que toda esta operação anti-greve só confirma o êxito da greve geral e o medo que ela provocou no grande capital opressor e explorador. Tanto mais quanto, como ficou bem patente, da greve geral do dia 27 emergiu, como reivindicação e exigência assumidas pela generalidade dos trabalhadores, o fim da política das troikas, a demissão do Governo e a realização de eleições antecipadas – ou seja: a substituição deste Governo e desta política por um governo e uma política que sirvam os interesses dos trabalhadores, do povo e de Portugal. E foi evidente a manifestação da disponibilidade dos trabalhadores para darem continuidade à luta no futuro imediato.

Dignas de registo são, ainda, as reacções das organizações sindicais após a greve, reacções bem diferentes e bem reveladoras da tarefa histórica que a cada uma delas está reservada: a UGT pensando no «diálogo» com o Governo e pondo-se a jeito para futuros «acordos sociais», provavelmente regados com champanhe francês..; a CGTP-IN pensando na defesa dos interesses dos trabalhadores e preparando-se para dar continuidade à luta de massas – factor decisivo e determinante para a alteração da situação e do rumo do País.


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