• Carlos Lopes Pereira

Império contesta vitória de Mugabe

Os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a União Europeia não aceitam a vitória esmagadora de Robert Mugabe nas eleições no Zimbábue e ameaçam continuar a criar dificuldades àquele país africano. No poder desde 1980, Mugabe e a ZANU-PF derrotaram nas eleições presidenciais, legislativas e locais de 31 de Julho o até agora primeiro-ministro, Morgan Tsvangirai, líder do MDC.  Os resultados alcançados nas urnas (61 por cento da ZANU-PF contra 34 por cento do MDC), dão a Mugabe uma maioria qualificada no parlamento, onde passa a dispor de 149 dos 210 deputados, o que lhe permite alterar a constituição «liberal» aprovada por referendo na vigência do governo de unidade entre os dois partidos. Numa conferência de imprensa em Harare, Tsvangirai afirmou, na presença de embaixadores ocidentais, que as eleições «fraudulentas» lançaram o Zimbábue numa crise constitucional, política e económica. E garantiu que vai boicotar as instituições estatais e contestar os resultados, através de «meios pacíficos, legais, políticos, constitucionais e diplomáticos», incluindo o recurso aos tribunais, o que afasta os receios da repetição da violência que se seguiu às eleições de 2008. No mesmo sentido foram as declarações do secretário de Estado norte-americano, John Kerry, que denunciou alegadas «irregularidades significativas», e do ministro britânico dos negócios estrangeiros, William Hague, que expressou «preocupações» pela forma como decorreu a votação. Também um porta-voz da União Europeia falou de «falta de transparência» no processo eleitoral, juntando-se ao coro de vozes ocidentais que não esconderam a sua decepção pela vitória de Mugabe.  Mas as eleições zimbábueanas foram consideradas «livres, justas e credíveis» pelas centenas de observadores da União Africana (UA) e da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC), que acompanharam o escrutínio no terreno.  O chefe da missão da UA, Olusegun Obasanjo, antigo presidente da Nigéria e da organização pan-africana, apontou alguns problemas – sobretudo erros nos cadernos eleitorais que impediram muitos cidadãos de poder votar – mas assegurou que no essencial os resultados finais reflectem «a vontade do povo». De igual modo a África do Sul, aliado do Zimbábue, avalizou as eleições. O presidente Jacob Zuma enviou felicitações a Mugabe pela sua reeleição e apelou a todas as partes para que aceitem o veredicto das urnas, «que os observadores descrevem como a expressão da vontade popular». De acordo com o jornal sul-africano Mail and Guardian, Pretória está a fazer todos os esforços para preservar a paz e a estabilidade regionais, apoiando o veterano nacionalista zimbábueano, herói da luta contra a dominação da minoria racista na África Austral. Até porque o discurso anti-neocolonialista «radical» de Mugabe tem seguidores na África do Sul, onde haverá eleições em 2014. Segundo alguns analistas, como Roy Agyemang em artigo no The Guardian, de Londres, a principal razão da vitória eleitoral de Mugabe assenta nas suas políticas populares: depois da reforma agrária, a ZANU-PF promete agora a «indigenização» da economia. Ao contrário do MDC, com uma agenda neoliberal de investimento estrangeiro para a criação de emprego – o que explica o apoio ocidental a Tsvangirai...      Dois pesos e duas medidas  Situação diferente é a do Mali, onde se realizou a 28 de Julho a primeira volta da eleição presidencial, com 27 candidatos. Como se esperava, passaram à segunda volta, marcada já para o próximo domingo, 11, o ex-primeiro-ministro Ibrahim Boubacar Keita (com 39 por cento dos votos) e o economista Soumaila Cissé (com 19 por cento), ambos pró-ocidentais. Num país enfraquecido por 18 meses de crise e hoje ocupado por tropas francesas e africanas – à rebelião dos tuaregues no Norte seguiram-se um golpe de Estado, a ocupação de grande parte do território por grupos islamitas e a intervenção militar da França –, a primeira volta das eleições decorreu «pacificamente», apesar da denúncia de «fraudes», contudo minimizadas pela comunidade internacional. A taxa de participação foi de 51,5 por cento, mas mais de 400 mil boletins eleitorais foram declarados nulos. Seja quem for o escolhido, Keita ou Cissé, contará com «todo o apoio» da França, já prometido pelo presidente François Hollande. No Mali e no Zimbábue – os exemplos mais recentes – o imperialismo mostra, uma vez mais, o seu critério dúplice e a sua concepção de democracia: legitima os resultados eleitorais quando chegam ao poder «amigos» dóceis, rejeita-os quando os povos escolhem dirigentes que recusam a continuação das relações de dominação.




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