• Henrique Custódio

O faz-de-conta

Há décadas que decorre a captura do regime democrático pelo «bloco dos interesses» da banca, do sector financeiro, das grandes empresas, empresários, «investidores» e derivados.

Essa captura tem sido concretizada pelos partidos a que a prosápia vigente apelida de «arco da governação», querendo deixar determinado que esta captura e esta gente constituem o «fim da história» do poder em Portugal. Falamos do PS e do PSD - aqui ou ali acolitados pelo CDS –, que são também os ocupantes contínuos da governação em Portugal desde 1976, pelo que, em linear evidência, são igualmente os exclusivos responsáveis pela degradação profunda do regime democrático, com a decorrente inversão de valores sociais e – last but not least – económicos e financeiros.

Foi assim que se chegou à actual situação, onde a clique bancária já se reúne com os Governos para lhes ordenar o rumo a seguir e as medidas a tomar, como escancaradamente se viu na transição do Executivo Sócrates para o de Coelho, presidida por visitas públicas dos cinco principais banqueiros.

Longe vão os tempos em que banca se resguardava na penumbra dos seus negócios de poder. Agora tornou-se uso consuetudinário os banqueiros subirem ao palanque a debitar prosápias ao País, em geral niveladas pelo «ai aguenta, aguenta!» do mimoso Ulrich, o tal que, mesmo não completando a licenciatura em economia, do alto do seu berço de ouro estudou imenso as gradações do sofrimento nacional.

Todavia, a ideologia do faz-de-conta («faz-de-conta» que são honestos e éticos, «faz-de-conta» que são patrióticos e incorruptíveis, etc.), que os partidos do «arco do poder» operacionalizaram – e que lhes permitiu capturarem o regime democrático -, produziu inexoravelmente duas consequências.

Uma, o descrédito destes três partidos perante a população e o País, com graves prejuízos e ameaças ao próprio regime democrático. Um descrédito que alastra às palavras e aos actos do «arco do poder», porque, sistematicamente, as suas palavras são desmentidas pelos seus actos.

Outra, que o faz-de-conta também tem limites e há muito que sofre do problema da manta curta: quando se quer tapar de um lado, destapa-se do outro.

É o que está a cavalgar na escandaleira dos últimos meses, onde, entre demissões sucessivas de Gaspar e Portas, admissões em catadupa de ministros e secretários de Estado e uma anedótica «guerra dos swaps» entre PSD e PS, uma coisa fica também escancarada.

A de que as centenas de «quadros» de PS, PSD e CDS, actores desta longa faina da captura do regime democrático para disfrute do grande capital, vão pomposamente circulando, em porta-giratória, na gestão da «coisa pública» e da privada, com decorrentes rios de mordomias e «compensações».

Por isso, no acertar de contas que inevitavelmente o País fará com esta gente, o seu «faz-de-conta» não vale um tostão furado.




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