Obama só terá que decidir sobre «o tipo de operação»
Agressão imperialista à Síria
Tambores de guerra

Um ataque à Síria está ser preparado por EUA, Grã-Bretanha e França. Apesar de indicações em contrário, o pretexto é o uso por parte de Damasco de armas químicas contra civis.

Independentemente da posição do Conselho de Segurança das Nações Unidas, como aliás deixou claro, na terça-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros inglês, William Hague, os governos de Londres, Washington e Paris já fazem rugir os motores da máquina militar imperialista contra a Síria. Para Chipre e o Mar Mediterrâneo, britânicos e norte-americanos, respectivamente, enviaram, nos últimos dias, aviões de combate e navios de guerra que, em minutos, podem desencadear bombardeamentos sobre o território, divulgaram o The Guardian e a Reuters. Também anteontem, o secretário da defesa dos EUA, Chuck Hagel, confirmou que «posicionámos elementos capazes de responder a qualquer opção do presidente [Obama]». François Hollande não quis ficar atrás e, depois de ter reiterado o aumento da ajuda gaulesa aos terroristas sírios, aproveitou um encontro com diplomatas franceses para, de acordo com a Lusa, falar em «massacre químico de Damasco», em «responsabilidade de proteger os civis» e prometer novidades para «os próximos dias».

A decisão parece ter sido tomada e as notícias que dão conta de graves conversas telefónicas entre Barack Obama, David Cameron e Hollande, entre outros, de reuniões dos aparelhos políticos e militares imperialistas e de consultas aos órgãos soberanos nacionais – caso do parlamento britânico – soam a tambores de guerra.

A confirmar a aventura belicista que ameaça mergulhar todo o Médio Oriente em mais uma catástrofe (como advertem a Rússia, Irão ou a Venezuela), o Washington Post e o New York Times adiantaram, com base em fontes anónimas, que o líder dos EUA só terá que decidir sobre «o tipo de operação», embora garantam que Obama prefere uma acção limitada para «não interferir no equilíbrio de forças» entre «rebeldes» e Bachar al-Assad. Uma espécie de Kosovo 2.0, induz o jornal nova-iorquino.

Acresce o encontro na Jordânia, segunda-feira, 26, dos altos responsáveis militares de dez países. Em local secreto, asseguram agências noticiosas, e sob a batuta do general norte-americano Martin Dempsey, coadjuvado por um comandante anfitrião, reuniram altas patentes castrenses do Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Canadá, Turquia, Arábia Saudita e Catar. A «oposição síria» diz que está a coordenar com os «aliados» os alvos a atingir, informa a Lusa.

Para a Jordânia, os EUA deslocaram nas últimas semanas caças F-16. O jornal francês Figaro revelou que, naquele país, a CIA incrementou durante este mês o treino de «oposicionistas», dando sequência a operações semelhantes de pessoal da NATO na Síria, segundo um documento filtrado pelo portal WikiLeaks em Março de 2012, e na Turquia, de acordo com dados fidedignos tornados públicos pela comunicação social ao longo do conflito.

Os estados vassalos da Liga Árabe, com a abstenção da Argélia e do Iraque (que para mais recusa autorizar o sobrevoo do seu espaço aéreo numa ofensiva imperialista) e o voto contra do Líbano, apelaram ao CS das Nações Unidas para atacar a Síria. Israel promete violência caso seja envolvido.

Química argumentação

No outro prato da balança, a Rússia e a China apelam à prudência e à resolução negociada do conflito. Moscovo manifesta ainda «decepção» pelo cancelamento por parte de Washington da bilateral entre o Kremlin e a Casa Branca sobre a Síria, agendada para Haia, na Holanda, acusa os EUA e os seus aliados de violarem o Direito Internacional em caso de ataque sem apreciação favorável do CS da ONU, de contradizerem os acordos alcançados na última reunião dos G-8, e, sobretudo, de não apresentarem quaisquer elemento tangível de que tenha sido Damasco a usar armas químicas a 21 de Agosto nos arredores da capital síria, embora sobejem as promessas de altos responsáveis ocidentais de que as provas «irrefutáveis» irão aparecer.

Na verdade, os únicos indícios sobre quem terá usado armas químicas no conflito - e em particular na quarta-feira da semana passada, num ataque cujas imagens não deveriam deixar ninguém indiferente - apontam para os grupos armados que se opõem a al-Assad.

Isso mesmo tem sido noticiado pela Russia Today, que difunde dados apurados pela agência SANA, fonte que cauciona a versão da organização Médicos Sem Fronteiras sobre o atendimento nos hospitais sírios de mais de 3500 pessoas com sintomas de envenenamento por gases neurotóxicos (cerca de 10 por cento das quais terão morrido), e apresenta, inclusivamente, fotos de material passível de fazer aquele tipo de armamento, bem como máscaras e antídotos com a chancela de uma empresa do Catar. Tudo apreendido à «oposição» após um ataque químico contra o exército de Damasco, no sábado, 24, em Yobar, subúrbio da capital. Os inspectores da ONU no terreno já recolheram testemunhos das vítimas.

As autoridades sírias repetem diariamente que nada têm a ver com o massacre de 21 de Agosto e atribuem-no aos bandos armados. O governo liderado por al-Assad desafia os países que acusam a Síria a apresentarem as tais provas «inegáveis» de que falou o secretário norte-americano John Kerry, dando o mote para que os seus aliados o repitam.

Bachar al-Assad, em entrevista a um jornal russo, considerou um «insulto ao bom senso» as acusações, referindo-se ao facto de se acreditar que Damasco bombardearia com armas químicas o seu próprio povo e, para mais, uma zona situada a escassos quilómetros onde se encontravam hospedados os inspectores da ONU, os quais, ficou ainda a saber-se anteontem, não se puderam deslocar ao local do crime porque os «rebeldes» não garantiram a segurança da missão, isto depois da caravana das Nações Unidas ter sido alvejada, segunda-feira, por «atiradores furtivos».

Recorde-se que invasão ao Iraque, em 2003, foi antecedida da apresentação de falsas evidências sobre a existência de armas de destruição massiva no país. Arquivos desclassificados da CIA revelam que foi precisamente a administração Reagan quem aprovou o uso de armas químicas por parte de Saddam Hussein na guerra com o Irão, entre 1980 e 1988.

Já depois da invasão do Iraque, o exército norte-americano usou armamento proibido no assalto a Fallujah, e na ofensiva israelita contra a Faixa de Gaza, em 2008-2009, intitulada «Chumbo Fundido», foi, igualmente, usado fósforo branco.




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