• Jorge Messias

Os engodos do «conto do vigário»

«Bento XVI fez publicar, em Novembro de 2012, numa carta pastoral, a nota 'Para uma Reforma do Sistema Financeiro e Monetário Internacional na Perspectiva de uma Autoridade Pública de Competência Universal', na qual o Vaticano reclama a criação de um governo mundial único» (Site Gospel e agências mundiais, 16.11.2012).

«Francisco I criou em 28.7.013 um comité superior financeiro para a Santa Sé e Estado do Vaticano, no quadro da reforma das finanças da Igreja, muito questionada pelos contínuos escândalos financeiros do Banco do Vaticano – o IOR» (Agências de Comunicação Social, Agosto de 2013).

«Bento XVI, através do seu decreto De Caritate Demonstranda, de 2012, reforçou o poder central do papa e do Pontifício Conselho Cor Unum sobre os milhares de instituições católicas de caridade existentes no mundo e cujas actividades se encontrem em conformidade com a doutrina católica. Uma organização de caridade católica não pode receber dinheiro de grupos ou instituições que busquem fins contrários ao ensino da Igreja...» (John L. Allen, The National Catholic Reporter, Dezembro 2012).

«Bastou Lula anunciar que pretendia fazer do Brasil a Arábia Saudita do Biocombustível e informar que 'os pobres do mundo estão comendo mais', para o imperialismo do Banco Mundial pedir um esforço global contra o flagelo da fome...

Uns e outros fingem não saber que apenas 50 transnacionais controlam toda a produção agrícola mundial!» (Archibaldo Figueira, “O monopólio é a causa da fome no mundo”).

Os papas (Bentos, Franciscos ou outros), negoceiam pelo seguro e usam dos mercados futuros, swards ou offshores como quaisquer outros especuladores financeiros que assim se prezem. Mas um papa nunca é um pobre de espírito. Por isso, quando colabora com os banqueiros e com eles se senta à mesa, não pode declarar-se defensor dos pobres. E uma Igreja que especula, saqueia, compra e vende, será certamente um mercado; mas Igreja, não é!

A realidade tem de ser enfrentada tal como ela é e não como desejaríamos que fosse. E olhar cruamente o mundo real significa reconhecer que ao longo da História o culto de um homem se transformou em mito universal; o mito alastrou à custa de alianças íntimas entre a religião e os Estados mais fortes, tecidos pelas guerras de conquista, pelo comércio e pelos novos mercados. O imperialismo impôs-se então, com toda a naturalidade. O actual Vaticano vive uma união de facto com a Wall Street.

O Vaticano é um mostruário de toda a dinâmica neoliberal que algema o fraco ao forte, concentra a riqueza e faz alastrar a fome e a miséria. O papado, em especial, está comprometido com todos esses crimes de lesa-humanidade. A provar que assim é, acumulam-se montanhas de provas que nem o próprio papa se atreve a contestar. O Vaticano segue em frente, direitinho ao abismo que ele próprio poderosamente ajudou a criar. E arrasta, na sua queda, multidões.

Os actuais dirigentes neoliberais têm uma missão anti-histórica a cumprir rapidamente, custe o que custar: concentrar e centralizar o grande capital; destruir os estados nacionais menos desenvolvidos; e consolidar as posições de chefia incontestável dos monopólios. Neste projecto apocalíptico, o Vaticano desempenha um papel decisivo.

Tudo aquilo a que acima se alude (um só governo mundial, uma só entidade fiscalizadora da banca internacional, a ditadura caritativa na área social, etc.) é matéria concebida pela Nova Ordem Mundial e pela tão desejada, quanto utópica, globalização capitalista. No espaço de que ainda dispomos, citaremos o pensamento de Lenine e regressaremos depois à evocação da fome e da miséria que o neocapitalismo promete à humanidade.

Ainda se vivia o século XIX e já o grande revolucionário bolchevique previa as linhas gerais dos desenvolvimentos que hoje presenciamos: concentração e centralização do capital; formação de gigantescos monopólios, domínio capitalista das tecnologias; capitalismo do Estado e aproveitamento político das crises económicas do capital; desenvolvimento desigual das nações e guerras mundiais entre grupos monopolistas rivais; caos capitalista e luta de classes. Revolução e Socialismo!

Na sua fase suprema, o capitalismo monopolista alimenta-se da fome entre os trabalhadores e da miséria dos socialmente frágeis. A Santa Sé transformou-se no modelo-padrão daquilo que é desprezível e imoral.

É preciso dar sentido à vida. E o nosso primeiro dever consiste em endireitar o mundo.




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