Editorial

«Vendo-os e ouvindo-os, dir-se-ia estarmos perante amigos de peito do falecido»

HIPOCRISIA E DESVERGONHA

A notícia da morte de Nelson Mandela, na passada sexta-feira, comoveu o mundo e provocou sentidas manifestações de pesar em todos os que, como sublinha a nota do Secretariado do Comité Central do PCP, «consideram a sua vida um elevado exemplo de coragem, de dignidade e de total entrega à causa da liberdade, da justiça e do progresso social».

Como é sabido – mas importa lembrar – Mandela desde muito cedo se identificou com as aspirações de liberdade e justiça do seu povo, integrando plenamente a luta contra o odioso regime do apartheid na África do Sul. Tal opção levou-o à prisão, onde viria a passar 28 anos, só sendo libertado graças à luta heróica e vitoriosa do seu povo – uma luta que sempre contou com a solidariedade activa das forças progressistas de todo o planeta.

É sabido também – mas importa não esquecer – que a participação de Mandela na luta pela liberdade, pela justiça e pelo progresso social lhe valeu passar a integrar (e lá se manteve até 2008...) a «lista de terroristas» elaborada pelo Departamento de Estado do país que é, como a realidade nos mostra todos os dias, o maior centro de terrorismo do mundo: os Estados Unidos da América.

É sabido ainda – mas importa relembrar – que milhares e milhares de portugueses participaram activamente na campanha pela libertação de Mandela e manifestando a sua solidariedade com a luta libertadora do povo sul-africano. E que o fizeram através de múltiplas iniciativas promovidas designadamente pelo CPPC, pela CGTP-IN, pelo Movimento Contra o Apartheid, pelo PCP, iniciativas às quais aqui se alude, não para atribuir despropositados louros a quem as promoveu e nelas participou, mas tão-somente para recordar quem foi solidário com Mandela e a luta do seu povo quando a solidariedade era necessária – e quem não foi solidário…

 

E houve ainda os que, não apenas não foram solidários, mas se posicionaram no lado oposto. Muitos desses aparecem agora, com inaudito desplante, a carpir lamentos e a tecer encómios ao «terrorista» contra a libertação do qual votaram. De tal forma que, vendo-os e ouvindo-os, dir-se-ia estarmos perante amigos de peito do falecido – e ninguém diria que, bem pelo contrário, eles se situam (como a sua prática governativa mostra, para mal dos portugueses), nos antípodas do grande dirigente sul-africano, tanto no plano político como nos planos humano e moral.

(Bem se pode dizer que se a hipocrisia e a desvergonha pagassem imposto, Cavaco Silva, Passos Coelho e Cia estariam sujeitos ao pagamento de uma importância que seria suficiente para cobrir a dívida portuguesa, com juros incluídos…)

Porque, por cá, o que vemos é a intensificação da ofensiva destruidora por parte do Governo PSD/CDS e do grande capital, cujos interesses ele defende fielmente – uma ofensiva económica, social, política e ideológica, que tem como instrumento fundamental, na actual situação, o Orçamento do Estado para 2014, com a sua fúria privatizadora, o seu ataque aos rendimentos dos trabalhadores e dos reformados, a sua raiva de classe contra os direitos dos trabalhadores.

Vejam-se as manobras em torno da privatização dos CTT– empresa altamente rentável e que já era nacionalizada antes do 25 de Abril – com a farsa do «capitalismo popular» a pretender esconder a realidade: a entrega da empresa ao grande capital.

Veja-se o assalto aos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, no absoluto desprezo e afronta do interesse nacional e dos direitos dos trabalhadores – um assalto que, nos últimos dias, foi enfeitado com uma operação de propaganda do PS, visando o branqueamento das responsabilidades desse partido no processo de privatização dos Estaleiros, como se nada tivesse a ver com isso… – e, assim, procurando diminuir e ocultar, quer a acção dos ORT dos Estaleiros, marcada para hoje, quer a proposta de realização de um inquérito parlamentar, apresentada pelo PCP.

Veja-se o caudal de argumentos inventados para justificar a «inevitabilidade» dos roubos que aí vêm, a juntar-se aos muitos roubos já concretizados que têm levado a pobreza, a miséria e a fome a milhões de portugueses.

Veja-se o processo em curso visando a destruição da contratação colectiva e a liberalização dos despedimentos – processo que conta com a acção colaboracionista da UGT, que assim explicita uma vez mais as razões que estiveram na origem da sua criação pelos partidos da política de direita: PS, PSD e CDS.

 

Fazer face a esta ofensiva brutal, e derrotá-la, é a questão que se coloca aos trabalhadores e ao povo.

E é na luta de massas, na sua intensificação e alargamento que está o caminho para alcançar esse objectivo.

A grande jornada de luta de 26 de Novembro constituiu um sinal bem expressivo quer da força poderosa e insubstituível das massas em movimento, quer das potencialidades existentes no sentido de multiplicar essa força, tornando-a cada vez mais eficaz e conferindo-lhe um carácter cada vez mais decisivo.

De então para cá multiplicaram-se as lutas nas empresas e sectores, nomeadamente dos trabalhadores da Moviflor, dos professores, dos trabalhadores dos transportes, dos CTT.

E mais lutas aí vêm neste tempo de Natal à porta. Lutas de homens, mulheres e jovens aos quais a política das troikas irá roubar, uma vez mais, o Natal a que têm direito. Lutas que deverão atingir expressão massiva na Semana de Luta de 16 a 20 de Dezembro convocada pela CGTP-IN, e que terá o seu ponto culminante na vigília marcada para dia 19, junto ao Palácio de Belém.

E o PCP lá estará, em todas elas, a confirmar que os trabalhadores e o povo contarão sempre com o apoio determinado e determinante do colectivo partidário comunista.



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